Construir Resistência
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A passagem de Taylor Swift pelo Brasil não deixará saudades

Por Roberto Tardelli

Não consigo imaginar que outro ídolo pop não exibiria a foto da fã gigantesca e a ela dedicasse, se não o show, ao menos um minuto de silêncio.

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A passagem de Taylor Swift pelo Brasil, esse fenômeno ciclópico do show business não deixará saudades.
Primeiro, vamos combinar que não tem a centelha de um gênio das artes, uma transgressora, uma mulher que tenha rompido padrões e tenha levado as possibilidades humanas para outras e inéditas liberdades. Não, ela não tem a marca trágica de quem veio para estancar a sangria ou romper de vez as hemorragias dos fossos sociais e econômicos que nos separam. Ela é uma febre mundial. Apenas uma febre uber-capitalista.
Não consigo imaginar qual outro ídolo pop que não se referiria a uma fã que esturricou no sol para vê-la. Não consigo conceber que ídolo é esse que não enviou uma coroa de flores à família daquela que lhe deu a vida. Não consigo imaginar que outro ídolo pop não exibiria a foto da fã gigantesca e a ela dedicasse, se não o show, ao menos um minuto de silêncio.
A passagem de Taylor Swift serviu para mostrar que somos primitivos: a empresa que vendeu ingressos a peso de ouro simplesmente vedou com placas de zinco os vãos das arquibancadas do estádio Nilton Santos, fazendo dali um forno infernal. Mil outras pessoas desmaiaram. E as autoridades permitiram que assim fosse feito. A burocracia dos horrores, a cupidez da morte.
Taylor Swift parece ser uma máquina de mover dólares.
Ao não emitir nenhuma palavra pela fã que morreu para assistir a seu show, TS, a meu pensar, tornou sua tourne brasileira uma demonstração do que o Capitalismo é capaz de fazer, a demonstrar a que ponto pode chegar a frivolidade de alguém que não se emociona sequer diante da morte de uma fã.
Esperamos que, encerrada a visita da patricinha, ela volte para junto dos seus. Que, em seu jatinho particular, ela tenha um chamado de consciência e componha uma canção, em que se arrependa muito de não ter sentido a morte, de não ter sentido a tal ponto de não a mencionar.
Quem sabe ela se lembre de que são inteiramente iguais. Tão inteiramente iguais que são chamadas de “mulheres”, ambas americanas.
E quando se lembrar, consiga envergonhar-se de sua alienação.
Ela nada levou de nós, mas nos deixou uma nossa jovem morta.
Go home!

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Roberto Tardelli é advogado em Ribeirão Preto (SP)

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