Flávio resiste, mas crise abre disputa na direita

Por Cristopher Garman e Clifford Young – Valor

Nesta eleição a campanha será muito mais crítica que nas últimas disputas.

O vazamento das mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, abriu a primeira grande crise da pré-campanha presidencial.

Até então, a candidatura do senador avançava relativamente protegida dentro da direita, consolidando alianças e crescendo nas pesquisas. Agora, sua condição de favorito começa a ser questionada.

Neste contexto, fazemos duas apostas. A primeira: a candidatura de Flávio Bolsonaro segue viável.

É precipitado prever um colapso definitivo: faltando cinco meses para a eleição, o senador ainda tem tempo para se recuperar. A segunda: a crise sinaliza ao mercado político que Flávio não é imbatível, e abre margem para uma disputa na direita.

Lulismo e bolsonarismo entram nessa eleição enfraquecidos, com a opinião pública amplamente pessimista.

Mesmo que seja arriscado apostar que Flávio perca a vaga no segundo turno para outro candidato da direita, a possibilidade é real. Mas somente a campanha mostrará essa dinâmica com clareza.

A candidatura de Flávio não foi ferida de morte. As quatro pesquisas publicadas após o vazamento das mensagens (AtlasIntel, Futura, Datafolha e Meio/Ideia) mostram que ele perdeu, em média, 6 pontos percentuais em simulações de segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Antes do escândalo, Flávio aparecia, em média, 1 ponto à frente do presidente, agora, aparece 5 pontos atrás.

Ainda que parte desse movimento reflita uma recuperação na aprovação de Lula, que já vinha sendo registrada, a crise teve um impacto inicial importante.

Ainda assim, se o ciclo investigativo não trouxer evidências ainda mais comprometedoras contra Flávio (um grande “se”), a tendência é que parte desse efeito se dissipe ao longo da campanha, embora o episódio permaneça um passivo importante.

A disputa pela Presidência será marcada por acusações de corrupção de ambos os lados, e o eleitor tende a reforçar sua convicção de que toda a classe política é corrupta, gerando um nivelamento por baixo.

Com ou sem Flávio no segundo turno, a eleição será estruturalmente competitiva. Lula, mesmo como governante, carrega seus próprios passivos: aos 80 anos, ele não é considerado crível em segurança e em corrupção, duas grandes preocupações do eleitorado.

Além disso, a maioria dos brasileiros está pessimista quanto à situação econômica, com quase 60% acreditando que o país está na direção errada.

O impacto maior nos próximos meses, entretanto, será político: lideranças da direita passarão a enxergar espaço para que um novo nome seja competitivo.

Não por acaso, nomes antes mais cautelosos começam a testar essa possibilidade. Isso ficou evidente com a reação ácida do governador mineiro Romeu Zema, que criticou a postura de Flávio no caso Vorcaro e na entrada do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa na disputa.

Até a eclosão da crise, predominava um acordo tácito entre candidatos da direita, que faziam declarações públicas de união para derrotar o presidente Lula e evitavam criticar Flávio, temendo ataques de um ex-presidente ainda muito popular.

Esse acordo agora ruiu. Qualquer candidato da direita que pretendesse chegar ao segundo turno teria, invariavelmente, que tirar votos de Flávio.

Mas, com a fragilidade da candidatura do senador, a disputa por esses eleitores começa mais cedo.

Para esses pretendentes, a boa notícia é que o espaço existe.

Pesquisas qualitativas atestam que os eleitores estão muito céticos: segundo a Genial Quaest, mais de 40% preferem votar em alguém que não seja Lula ou um dos Bolsonaro.

Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro são rejeitados por quase metade do eleitorado.

Dados de opinião pública mostram que “polarização” não parece ser o conceito mais adequado para descrever o país hoje.

Segundo essa caracterização, o país estaria dividido em dois grandes blocos mobilizados, e a eleição seria decidida por um pequeno grupo intermediário.

Mas o eleitorado parece menos mobilizado por identidades políticas fortes que movido por frustração e cansaço com os principais polos de poder.

Há um forte desencanto em relação à classe política, e as duas grandes forças do país que, à sua maneira, surfaram um sentimento antissistema na opinião pública, estão desgastadas.

Uma ampla onda de investigações sobre corrupção reforça esse sentimento.

A grande ressalva, porém, é que qualquer nome do campo conservador terá dificuldade em crescer nas pesquisas nos próximos meses, simplesmente porque ainda não é reconhecido nacionalmente.

Os eleitores ainda não estão pensando na eleição e, neste período anterior à campanha, as pesquisas mensuram muito mais conhecimento de nome e desejo de mudança ou de continuidade que decisão efetiva de voto.

Se um representante da direita subir nas pesquisas, é mais provável que esse movimento ocorra no final de agosto ou no início de setembro.

Tudo indica, portanto, que nesta eleição a campanha será muito mais crítica que nas últimas disputas.

Mais do que decidir entre Lula e Flávio Bolsonaro, ela poderá revelar até que ponto há espaço, no Brasil atual, para uma alternativa capaz de canalizar o desgaste simultâneo do lulismo e do bolsonarismo.

 

Christopher Garman é diretor executivo para as Américas do Eurasia Group.

Clifford Young é presidente da Ipsos Public Affairs.

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