Viúvas ou noivas de Ciro?

Por Antonio Soares

Glasgow, 16 de junho de 2022. Embora vivendo aqui minha segunda rodada de Covid, perto do maravilhoso Single Malt e com a beleza cinematográfica dos pastos e das pequenas cidades escocesas, amigos, amigas e noticiário não me deixam esquecer o cotidiano no Brasil. O cruel assassinato do jornalista inglês, Dom Phillips, do The Guardian, e do indigenista Bruno Araújo Pereira, são notícias constantes na BBC da Escócia. Bruno era funcionário licenciado da Funai e foi afastado pelo atual governo para deixar a “boiada passar”, o garimpo ilegal prosperar e o desmatamento progredir na Amazônia. Sua luta para preservar a floresta e as populações indígenas apenas vão transformá-lo em mais um mártir a se juntar a Chico Mendes, Dorothy Stang e os mais de 300 defensores da Amazônia e das populações indígenas, que foram assassinados nos últimos dez anos (Human Rights Watch – https://www.camara.leg.br/noticias/587343-ong-denuncia-morte-de-mais-de-300-defensores-da-amazonia-e-pede-cpi-para-investigar-crimes/).

Para além dessa tragédia que tem as digitais da atual política de meio ambiente deste governo, meus amigos e amigas não me deixam desconectar da Terra de Santa Cruz, anunciada por Caminha e descaminhada no momento. Tenho uma amiga, sessentona, que diariamente me envia mensagem demonstrando que a única solução para o Brasil é o Coroné de Sobral. Ela diz que ele tem tradição centenária de políticos na família, livros, projetos, ideias e muita cultura que poderão salvar o Brasil do vexame e da desgraça que vive. Quando a pergunto quem será vice ou os quadros que dão suporte a candidatura do Coroné, as tergiversações surgem ao estilo bolsonarista: o PT e o Lula são corruptos. E…

Ciro encanta dois tipos de eleitores. Aqueles/as que realmente acreditam no potencial que ele anuncia com voz grossa e com grosserias (lembro que o potencial é um apenas algo futuro, uma promessa a ser realizada e pode se desmanchar rapidamente no ar). Tive vários alunos cheios de potencial que não terminaram suas teses e dissertações. A última promessa de Ciro foi que, se eleito, coloca todas as reformas no congresso em 6 meses. Como diria Garrincha, falta combinar com os russos. Ele também agrada aos homens e mulheres que cultivam a atitude do macho destemido, aquele que fala grosso e aponta o dedo em riste quando debate ou é confrontado.

Ciro compõe aquele personagem machão do Nordeste que não tem papas na língua e está sempre disposto a responder de chofre qualquer provocação. Mulheres, como minha amiga, ainda o acham forte, bonito e charmoso. Um homem de atitude. Lembro que isso tem forte apelo em alguns segmentos das eleitoras no Brasil. Não podemos esquecer que esse foi um ativo de Collor de Melo como “caçador de marajás”. Eu não posso discordar do charme do Coroné quando lembro o saudoso Boechat, que ao ser questionado numa entrevista, entre outras coisas, sobre nome de mulher, ele disparou: “Patrícia Pillar” e completou com a ironia, que lhe era peculiar, “careca por careca por que ele e não eu”.

Ciro tem esse grande ativo no seu currículo, foi marido de Patrícia Pillar e, guardadas as devidas diferenças, é o mesmo ativo de Nicolas Sarkozy com Carla Bruni. Patrícia é um ativo superior, mas, para o azar dele e de suas viúvas, ele não a tem como ativo para as eleições de 2022. Penso que a masculinidade suave também adoraria ter a inteligente e talentosa Patrícia Pillar como primeira-dama do país. Acho que o cargo de primeira-dama deveria ser submetido a pleito: meu voto continua para Patrícia Pillar, independente do presidente que assuma o cargo. A primeira-dama deveria ser alguém independente que exercesse o papel de Chanceler do Brasil em causas humanitárias. Vamos acabar com esse nepotismo matrimonial.

Graça, minha amiga, é uma das viúvas das eleições de 2018 que não pôde ir para Paris chorar com Ciro durante o segundo turno. Mas, como Fênix, sua esperança renasceu das cinzas agora. Outubro de 22 está na boca e ela está mais uma vez enamorada do Coroné. Ela diz: “Passou o tempo e ele está mais inteligente e bonito”. Ela tem certeza que ele é o melhor para a Terra de Santa Cruz! Ela está na pista lutando diariamente para convencer feirantes na Zona Sul, caixas de supermercado, garçons do Belmonte, motoristas de Uber, manicures, porteiros, entregadores de pizza e policiais que gentilmente a respondem que apoiam aquele que os defende, com salários e indultos.

Mas sua incansável luta continua, apesar de seu amor estacionar em 7% de intenções de votos. Ela puxa os cabelos e grita, as pessoas não sabem o que é melhor! Mesmo no Ceará, terra dominada pelo Coroné e seu irmão, ele tinha em maio de 2021 apenas 23,3% das intenções de voto contra 50,8 de Lula e ficava atrás de Bolsonaro (Pesquisa da Consultoria Atlas/Valor). Lembro que a campanha mal começava e o homem da terra tinha alta rejeição no seu curral eleitoral. Apesar de tudo, Graça insiste diariamente comigo enviando vídeos, entrevistas e tudo que acredita que tem de positivo sobre seu gênio incompreendido. Quando a questionei que a primeira filiação do Coroné foi num partido que apoiava a ditadura, o extinto PDS, que depois viria a se tornar o PFL de Maluf, ela me enviou uma série de argumentos que explicam o turismo que o Coroné realizou pelos partidos políticos de direita, centro e esquerda. Tudo com a devida “coerência” do Coroné, sempre de peixeira na cinta. Na falta de argumentos, ela e Ciro dizem que Lula não é inocente, mesmo absolvido e demonstrada toda a arapuca montada pela justiça dos políticos-juízes e procuradores de Curitiba.

A bem da verdade, a política é movida pelas emoções, paixões e amores platônicos. Graça sonha subir de véu e grinalda a rampa do planalto em 1º de janeiro de 23 ao lado daquele homem que ela deseja “para chamar de seu”. Segue um texto editado da letra de Erasmo e Roberto, Mesmo que seja eu, para minha querida amiga:

“Sozinha no silêncio do seu quarto
Procura a espada do seu salvador
Que no sonho se desespera
Jamais vai poder livrar você da fera
Da solidão

Filosofia e poesia
É o que dizia minha vó
Antes mal acompanhada do que só
Você precisa de um homem
Pra chamar de seu”

Antonio Soares é professor titular da Faculdade de Educação da UFRJ.

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