Por René Ruschel
O envio de tropas contra civis em território nacional soa menos como medida de contenção e mais como um sintoma de isolamento político.
A mobilização de soldados da Guarda Nacional e fuzileiros navais em Los Angeles, Califórnia, por ordem de Donald Trump, com o objetivo de conter protestos maciços contra sua política de imigração é mais um capítulo tenso na história dos Estados Unidos.
Em várias cidades, populares têm tomado as ruas para denunciar medidas consideradas desumanas, que incluem detenções arbitrárias, separação de famílias e deportações sumárias.
Em tom mais militar do que presidencial, Trump parece acreditar que a força é mais eficaz que argumentos, que soldados são mais úteis do que diplomatas.
Uma aposta arriscada. O passado norte-americano está repleto de momentos em que a repressão não apenas falhou em conter a insatisfação, como acelerou o desgaste político de quem ocupava a Casa Branca.
Nos anos de 1960, a repressão violenta aos protestos pelos direitos civis apenas fortaleceu o movimento liderado por Martin Luther King e ajudou a corroer a imagem de governos relutantes em enfrentar o racismo institucionalizado.
Ou ainda a reação brutal aos protestos contra a Guerra do Vietnã. A comoção nacional contribuiu para minar o apoio popular à guerra e pressionar o governo Nixon a rever sua estratégia militar.
A atual onda de protestos pode ser o início de algo maior. O clima é de insatisfação latente, agravado por um presidente que se porta, muitas vezes, como síndico do planeta, dando ordens, impondo vontades, cercado por assessores que mais aplaudem do que aconselham.
O envio de tropas contra civis em território nacional soa menos como medida de contenção e mais como um sintoma de isolamento político.
E é aí que mora o perigo. A história ensina que líderes que ignoram a voz das ruas costumam ser atropelados por ela. A tentativa de calar protestos com fuzis pode amplificar o clamor popular. E o presidente, que tanto gosta de posar como o homem mais poderoso do mundo, pode acabar descobrindo que nem mesmo os Estados Unidos são imunes à força de uma sociedade em ebulição.
Em um país que sempre se orgulhou de sua democracia e teve a liberdade como valor fundamental, Trump parece esquecer que elas não são garantidas pelo tacão da violência, mas por cidadãos conscientes de seus direitos.
Talvez seja hora de descer do palanque e ouvir o que ecoa nas ruas que ele tenta silenciar. Afinal, mesmo o “síndico do planeta” deve prestar contas aos inquilinos da democracia












