São Paulo, cidade morta, prisão domiciliar

Pela natureza de meu trabalho jornalístico, muitas vezes tive que realizar minhas compras de madrugada. Cheguei a adquirir computador e sofá, presencialmente, às 4 da madruga. Os anos Lula foram de muita atividade 24/7 no país.

O processo de destruição da economia brasileira, a partir da conspiração contra Dilma Rousseff, começou a desarticular amplos setores da economia, especialmente o chamado varejo de conveniência. O Brasil andou para trás.

Hoje, as noites, em São Paulo, por exemplo, são um completo deserto. Há quem diga que é culpa da pandemia. Óbvio que a Covid contribuiu para o processo. Mas o esvaziamento da noite é fenômeno muito mais antigo, resultado do desligamento de engenhos relevantes da máquina do comércio.

Três outros fatores contribuem para esse apagão:

1) A mania nacional de economizar com mão de obra. Empresário aqui acha sempre que remunerar pessoas é perda, e não investimento.

2) A desconexão entre os interesses das forças de segurança e os interesses da população. Boa parte das polícias acredita, hoje, que seja “errado” sair à noite, e que não devem proteger cidadãos que caminham sob a Lua. Para essas tropas afascistadas, aliás, suas funções prioritárias são outras, como prender torcedores que se arrisquem nos estádios com bonés do Lula.

3) A glamourização midiática do crime e a amplificação paranoica do perigo. Para programas como aquele feito por Datena, há assaltantes em cada esquina, vivemos em regime de guerra e todos devem ficar escondidos das 20 horas até as 06 da manhã. Ele ganha com o comércio do terror psicológico.

Restam algumas ilhas de vida e energia, em São Paulo, como o supermercado Sonda, da Rua Apucarana, no Tatuapé, em São Paulo. Na madrugada, faltou comida para os gatos, que exigem sachet duas vezes por dia. Fui até lá, mas por algum motivo, estava fechado.

O Google Maps, então, me indicou o Extra da Vila Marieta, na Avenida São Miguel, longe dali. Era a única outra opção na Zona Leste, que tem 4,6 milhões de habitantes. Cheguei lá, fechadão! Escuro. Na entrada, outro carro parado. Trocamos ideia. O cara, que trabalha até altas horas, disse que precisava comprar comida para a bebê dele.

Enfim, São Paulo honra cada vez mais seu provincianismo e o apelido de “Capital da Solidão”, título do grande livro sobre a cidade escrito por Roberto Pompeu de Toledo. É, por natureza, desde a época da debandada bandeirante, um lugar de vazios, silêncios e fria amargura noturna.

Tempos atrás, por ocasião do fechamento da histórica boate Love Story, publiquei uma lista de inúmeras atrações paulistas que tinham morrido, em uma cidade cada vez mais careta, medrosa, bunda mole e reacionária. Não houve renascimento desde então.

A época do capitão e de seus amarelinhos é de recolhimento medieval. É época calada, de trevas e masmorras condominiais. A noite é para o encerramento em “estúdios” de 17 metros quadrados. São Paulo, “locomotiva” do Brasil é um trambolho que se arrasta, uma imensa prisão domiciliar.

Foto: @kejsirajbek

 

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