(Ini)migos secretos

Por Sonia Castro Lopes

Assisti ao filme AMIGO SECRETO,  de Maria Augusta Ramos, que traz de volta ao debate episódios da operação Lava Jato, tendo o ex-presidente Lula como principal alvo. Protagonizada por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, a Lava Jato foi descredibilizada pelo STF que decretou a suspeição do ex-juiz no julgamento de Lula, condenado sem provas e detido por 580 dias na Polícia Federal de Curitiba. Como se sabe, a farsa foi desmontada  pela operação que ficou conhecida como “Vaza Jato.”

Lavajatistas costumam refutar a inocência de Lula, alegando que a anulação dos processos se deu por ‘razões técnicas’ e não por mérito, além de alegarem que o crime na Petrobrás foi comprovado, uma vez que houve devolução de parte do ‘produto do roubo’ à empresa. A narrativa ‘oficial’, repetida à exaustão pelos meios de comunicação, tornou-se hegemônica, mesmo diante dos artifícios utilizados pelo ex-juiz para prender Lula e favorecer a eleição de Bolsonaro, de quem se tornaria Ministro da Justiça com promessas de, posteriormente, ser indicado ao STF.

Com a revelação de conversas no whatsApp do grupo Amigo Secreto (daí o titulo do documentário), a operação é desmascarada e começa a se processar a mudança de narrativa. É nesse foco que Amigo Secreto se detém mostrando como os  procuradores envolvidos  e o juiz encarregado do caso combinaram ‘provas’, ‘testemunhas’, ‘delações premiadas’ e patrocinaram o vazamento do espetáculo para a imprensa que absorveu acriticamente os fatos e os viralizou demonizando o que eles gostam de chamar de “lulopetismo.”

Vários entrevistados dão seu testemunho e revelam como as delações eram seletivas, na medida em que só recebia o ‘indulto’ quem efetivamente atribuísse a Lula responsabilidades pelo mar de corrupção que se abateu sobre o Brasil nos governos do PT, embora muitas dessas práticas fossem sistêmicas e utilizadas desde que a Petrobrás foi criada, há quase sete décadas. Alguns depoentes enfatizam que a devolução de parte do dinheiro ‘surrupiado’ à Petrobrás foi café pequeno diante dos prejuízos causados pela Lava Jato à infraestrutura do país, com consequências desastrosas para a economia. O filme merece ser visto; é mais um que poderia ser acrescentado à trilogia Democracia em vertigem, Excelentíssimos e O Processo.  Bem produzido, um bom roteiro, mas que, infelizmente, só alcança a bolha.

O cinema não estava cheio e duas senhoras vieram sentar-se ao meu lado. Conversaram amenidades antes do início do filme e, em poucos minutos, percebi que as duas, por ignorância ou distração,  tinham errado de sala, embora elas só se apercebessem disso muito tempo depois, quando, ao contrário da plateia que se expressou com palmas ao final do filme, mantinham aquela cara de quem não entendeu a piada.

A cada aparição de Lula comentavam: “Olha cara de ódio desse homem, vai querer se vingar…” ou “é um demagogo…” Isso aconteceu na cena de interrogatório com Moro, na entrevista dada a Monica Bergamo a poucos dias de deixar a prisão e no discurso inflamado quando ganhou a liberdade. A imagem de Bolsonaro e suas ameaças golpistas no sete de setembro do ano passado passaram despercebidas, mas quando Moro assumia o protagonismo da cena as duas se derretiam em elogios e lamentavam consternadas a desistência de sua candidatura.

Inveja, preconceito, seja lá o que for Lula não tem contra si apenas os políticos de ultradireita e os apoiadores de Bolsonaro, mas um conjunto de eleitores nem, nem… que, na última hora, serão capazes de tudo para evitar que o metalúrgico volte ao poder. Eles estão quietos, nas sombras, declaram que se arrependem de ter votado no capitão, mas afirmam que também não votarão em Lula. É possível virar o voto de alguns, mas seguro morreu de velho… O ideal é eleger Lula no Primeiro Turno para vencer de vez os inimigos da democracia, sejam eles declarados ou secretos.

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