Sobre a morte, as acerolas e os ipês

Por Desirée Cipriano Rabelo

Era abril, quando minha mãe morreu. E, como descreve Vinícius de Moraes: sempre neste mês, “as cores de abril, os ares de anil, o mundo se abriu em flor…”

No quintal da casa de minha mãe, o pé de acerola se encheu de frutos. E durante o tempo em que nós, a família, passamos em sua casa, em de nosso ritual de despedida e tratando dos trâmites de inventário, cada manhã começava com suco de acerola e laranja – essa também colhida no mesmo quintal.

Lembrei-me então que, quando meu pai faleceu, num início de agosto, os ipês estavam floridos. Fosse quando eu saia do hospital ou depois de seu enterro, sempre encontrava consolo nessas árvores que colorem os campos e as ruas das cidades quando tudo mais ainda está seco.

Talvez seja minha mineiridade que permita descobrir essa ligação entre a morte, acerolas e ipês. Ou um excesso de imaginação… De qualquer forma, recebo ou percebo essas mensagens como bênçãos.

Após o falecimento de minha mãe, fiquei em sua casa por quase dois meses tratando de organizar e dar destino as suas coisas. Algumas eram para doar, outras para vender, outras decidimos guardar como lembrança.

Afinal, mais que nossa mãe, durante os últimos 30 anos, aquele era o lugar dos encontros, natais com lindos presépios, páscoas com ovos escondidos, churrascos e banhos de piscina. Filhos e netos guardam doces memórias desses momentos que terminavam com o adeus na calçada ou na estação do trem…

Mas eram tantos objetos a serem separados, organizados, encaminhados e guardados! Confesso que, ao longo dos dias envolvida nesta tarefa, as emoções foram se transformando. Primeiro tristeza e culpa pela intromissão nas coisas pessoais que minha mãe guardava com tanto zelo…

Depois cansaço e espanto pela quantidade de coisas que ia encontrando… Documentos há muito caducados, vasilhas sem serventia, restos de material de construção, dentre tantos outras. Sem falar na imensidão de bordados, roupas, adornos… Tudo isso me levou a refletir justamente sobre a questão da acumulação. Da inutilidade de tanta tralha diante da morte.

Eu mesma já venho treinando o desapego, o que foi fundamental para que eu pudesse viver em outro país. Neste exercício, o que mais ajudou-me a encarar a prática do desprendimento foi ouvir repetidas vezes Chico Cesar cantar:

“Coisas são só coisas / Servem só pra tropeçar/ Têm seu brilho no começo/ Mas se viro pelo avesso/ São fardos pra carregar”.

Minha mãe carregava muitas coisas, que se tornaram fardos para os filhos quando precisaram decidir o que fazer com eles. Algo nada fácil devido à carga emocional envolvida.

Mas pensando bem, acho que foi um jeito que minha mãe achou de nos ensinar mais uma lição:  o tempo é fugaz e, no final, partimos sem levar nada material. Mesmo as suas coisas bonitas que decidimos guardar conosco, dentro de um tempo, serão também fardos.

Provavelmente para nossos filhos carregarem. Melhor mesmo é caminhar com menos bagagem. Ou investir em acumular sobretudo lembranças dos momentos compartidos, das lições aprendidas.

Nesse tempo de perdas devido a #Covid-19, quando mal temos tempo de prantear tantos entes queridos, somos todos desafiados a encarar a morte. A palavra “essencial”, muito usada para definir as atividades que podem ou não funcionar durante os lockdowns, pode ser aplicada também em um sentido mais amplo.

O que, de fato, é essencial em nossa vida? Porque, no final de tudo, a mais importante recordação que ficará desse longo ritual de despedida de minha mãe é a do suco de acerola e laranja colhidos em seu quintal…

Suco de saudade.

Suco de vida.

Suco de amor cultivado com tantos cuidados no quintal de sua casa e em nossas almas.

Melhor então ouvir outra vez Vinícius: “Não chora/ me ouviu/ que as cores de abril /Não querem saber de dor”.

Peço sua bênção minha mãe…

E muito obrigada pelo suco.

Texto e fotos: Desirée Cipriano Rabelo

A autora é jornalista. Após aposentar-se na #UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), onde lecionava e pesquisava sobre comunicação e mobilização social, partiu em busca de novos aprendizados. Atualmente vive em Barcelona, Espanha.

 

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  1. Lindo texto que nos leva a reflexão sobre as inutilidades que acumulamos e que muitas vezes nos aprisionam, nos impedido de alçar voos.

  2. Lindo texto, ótima reflexão!
    Me sinto abençoada em poder ficar com a casa e cuidar dos meus filhos e da minha lá.
    Sei que seremos muito felizes, assim como vocês foram lá.
    E realmente o que devemos guardar são as lembranças, pois as coisas, são somente coisas!.
    Forte abraço aos familiares.

    1. Obrigada Debora, não sabe o quão especial foi receber suas palavras. Ainda há muitos segredos espalhados neste quintal, entre eles o “Ora por nobis,
      jiquiri e gengibre”, plantas que são não apenas delicias culinarias mas fontes inesgotaveis de vitaminas.

    2. Desirée, eu senti o gosto do suco de acerola com laranja, que eu tomava quando criança, e revivi ipês floridos das minhas incansáveis viagens a Alfredo Chaves/ES junto com minha família.
      Como vc disse no texto, a acerola, a laranja e o ipê são bênçãos, que nos fazem emergir pra um lugar quentinho no nosso coração.
      O texto fez eu sentir tudo o que vc sentiu nas suas duas perdas. Eu imaginei todos vc juntos e o quanto deve estar sendo dificil pra vc nesse momento. Mas Euler sempre diz que vc é muito forte.
      Por favor, continue escrevendo sobre tudo: a dor, as alegrias, devaneios e a Espanha. Beijos e muita luz.

      1. Obrigada Amanda. Ao acolher minhas palavras e compartilhar suas lembranças e sentimentos, senti-me confortada. Assim, vamos juntando nossos sentimentos alegres, outros nem tantos….e tecendo redes que nos tornam mais fortes e menos solitarios…

      2. Obrigada Amanda. Que bom que houve ipês para embelezar os caminhos de sua vida. E maus importante que vc estava de coração abertos para recebe-los!

  3. Uma amiga querida!
    Expressando com sabedoria o desenrolar dos acontecimentos em meio a dor e doces lembranças,trazendo a lembrança a fragilidade da vida e quem somos neste mundo e que daqui nada levaremos.
    Lindo texto ..mais do que isto,leva – nos a reflexão de como estamos vivendo o agora!

    1. Sim Celina, mesmo. Os momentos de dor precisamos esforçar-nos para econtrar sinais de beleza, esperança e fé. Eh faço isso por meio das palavras. Você, em seus lindos arranjos de mesa. Mas é isso mesmo: muitos são os dons, mas um só é o Espírito…

  4. Belo texto, linda reflexão, realmente fica guardado as boas lembranças, as longas horas de conversas na varanda, no embalo da rede, no momento a saudade ainda dói muito, mas com o tempo ameniza e as lembranças nunca se apagarão de nossa memória. Bjs minha cunhada. Paz e bem!

    1. Obrigada Wanda, compartilhamos dores mas tambem deliciosos sabores e lembranças dos nossos wueridos, que partiram tão cedo, sem avisar. Só nos resta unir nossas forças e nossa fé…

  5. Que leveza ao falar de perdas e de lembranças. Lembrar das pessoas e do que elas representam para nós , mas as coisas podemos dispensar …
    Conheci dona Jormi, simpatia , dinamismo e elegância tornavam a presença dela muito forte e agradável. Assim lembrarei dela e aquele sorriso presente sempre estará.
    Obrigada, Desirrée por falar de sentimentos que as vezes queremos ouvidar. E os fardos, se pudermos, vamos nos desvencilhar-se enquanto tempos tempo.

    1. Querida amiga, tanto tempo distantes e ainda ssim permanecem a amizade, o compromisso em apoiarnos momentos difíceis. Esses são os bens que devemos valorar e quardar com carinho. Os verdadeiros e saudaveis sucos…

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