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Brasil Paralelo

Formar “novos” professores de história: um curso promovido em parceria com a agência Brasil Paralelo

Por Sonia Castro Lopes

Brasil Paralelo

Olavo de Carvalho em boa hora se foi, mas os ensinamentos do guru da ultra direita deixaram raízes. Imaginem que, sob a inspiração ideológica do promotor da guerra cultural, a empresa Brasil Paralelo expandiu sua “missão” para o campo acadêmico e, em parceria com o Centro Universitário Católico Italo-Brasileiro (CUIB), criou um curso para formação de professores de história.

E não param por aí, já que anunciam para breve cursos de geografia e ciências sociais destinados a estudantes de baixa renda com objetivo de formar uma nova geração de docentes comprometidos com a “verdade” para atuar nas escolas de educação básica.

Esses novos “formadores de almas” diplomados à distância estarão comprometidos com princípios de liberdade e meritocracia, respeito à família e a Deus conforme preconiza a empresa de jornalismo, entretenimento e educação denominada Brasil Paralelo (BP).
Essa agência, que tem como missão “resgatar os bons valores, idéias e sentimentos no coração de todos os brasileiros”, produz conteúdos que englobam documentários, séries, entrevistas, programas e cursos cujos temas prioritários são história, ciência política, filosofia, atualidades e economia. Seus diretores afirmam que não recebem qualquer tipo de financiamento de movimentos ou partidos políticos e a receita advém, exclusivamente, da venda de assinaturas para quem desejar se filiar ao empreendimento.

Trata-se, portanto, ainda segundo o site da BP, de uma mídia independente que congrega 400 mil membros, 3,6 milhões de inscritos no canal youtube e seis milhões de seguidores nas redes sociais. Essa estratégia da extrema direita pretende “transformar a cultura do Brasil” com oferta de bolsas de estudos dos seus conteúdos educacionais a 13 mil pessoas com vulnerabilidade social que terão acesso as suas plataformas.
Um dos colunistas mais frequentes nas páginas digitais da BP é o jornalista, apresentador e autor de “best sellers” Luiz Ernesto Lacombe, por duas vezes agraciado com o Troféu Imprensa. Por meio de um texto raso, panfletário e fascistoide defende a família e o patriotismo, opondo-se a quem protege “bandidos e terroristas”.

Em seu último artigo, publicado hoje (24/6) e intitulado Ainda podemos odiar o pecado? indigna-se contra a influência que o Brasil sofre de países comunistas como a Rússia, Coreia do Norte, Irã, Cuba, Venezuela, Nicarágua e do grupo Hamas, todos componentes da “Aliança pela Destruição”. Ao final do texto cita um trecho da Bíblia atribuído ao profeta Isaías que especifica os pecados aos quais devemos odiar: “Porque eu, o Senhor, amo a justiça e odeio o roubo e toda a maldade”. Hipocrisia tem limite, mas não para esse senhor que publica comentários do tipo “Nem a imprensa amiga do PT consegue esconder que o Brasil dá passos largos em direção ao abismo”.

A imprensa amiga, no caso, é a Rede Globo e a mídia hegemônica liberal que defende os interesses dos farialimers e na hora H se alia à extrema direita para impedir o avanço das pautas progressistas.
Mas voltemos às investidas educacionais do BP. O curso em questão propõe formar historiadores que revelem verdades históricas ocultadas pelas narrativas de esquerda por parte de professores formados em universidades públicas, verdadeiros covis de comunistas. Os “novos” professores utilizarão como fonte documental a Bíblia que possui, para eles, a mesma fidedignidade dos registros históricos obtidos nos arquivos.

Esse curso, com duração de quatro anos e um custo mensal de aproximadamente 200 reais, está vinculado ao Centro Universitário Italo-Brasileiro, uma faculdade católica credenciada pelo MEC em 2019. O coordenador do curso é o historiador monarquista Rafael Nogueira que presidiu a Fundação Biblioteca Nacional entre 2019 e 2022, durante a gestão Bolsonaro.
Essa história veio à luz por meio da reportagem da jornalista Amanda Audi, da Agência Pública, que apura temas ligados à política, direitos humanos e gênero. Amanda matriculou-se nesse curso no final do ano passado e em entrevista ao ICL (Instituto Conhecimento Liberta) revelou que os alunos, de um modo geral, tecem comentários positivos sobre o curso, o que conseguiu perceber pelas mensagens dos chats, uma vez que o curso é 100% remoto.

Depois que a reportagem foi divulgada, o site do curso deixou de mencionar a BP como parceira da iniciativa, mas a ideologia retrógrada e fundamentalista da extrema direita se faz presente ao longo da matriz curricular de um curso que pretende “revelar e não omitir a versão cristã da história”.

A coisa é mais séria do que se pode imaginar, não se tratam de pautas conservadoras, mas fundamentalistas, estratégias da extrema direita mundial que ameaçam a democracia brasileira, heroicamente resgatada nas últimas eleições presidenciais.

Sonia Castro Lopes é historiadora, doutora em educação e professora da UFRJ.

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