Por Julio Benchimol Pinto
“Daqui a pouco vem PEC obrigando Neymar a bater falta, CPI para investigar banco de reservas, audiência pública sobre impedimento ideológico”
O bolsonarista Hélio Lopes, deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro mas agora aquartelado em Roraima, acaba de prestar mais um relevante serviço público à República: enviou ofício à CBF pedindo a convocação de Neymar para a Copa do Mundo.
Sim. Enquanto o país discute crime organizado, orçamento, saúde, educação, democracia, desigualdade e o pequeno detalhe de ainda precisar funcionar, o bolsonarismo comparece ao debate nacional com sua sofisticação habitual: transformar corneta de boteco em expediente parlamentar.
Hélio Lopes, é bom lembrar, já havia inscrito seu nome na galeria das grandes contribuições institucionais ao acampar em frente ao Supremo em defesa de Bolsonaro.
E há o toque amazônico da ópera bufa. Eleito pelo Rio, Hélio transferiu o domicílio eleitoral para Roraima, confirmando uma das modalidades mais tradicionais da política brasileira: o paraquedismo eleitoral com discurso patriótico.
Mas sejamos justos: Hélio não é exceção; é método.
O bolsonarismo tem oferecido à República uma coleção de serviços inestimáveis: acampamento em porta de quartel, desconfiança seletiva das urnas, faixa pedindo intervenção, motociata como política pública, vacina tratada como conspiração, minuta golpista como rascunho administrativo, ataque ao Supremo como pedagogia cívica e, agora, ofício para escalar a Seleção Brasileira.
No documento, o deputado diz que não pretende interferir nas decisões técnicas da CBF.
Claro. Ele só usou o gabinete parlamentar para pedir oficialmente a convocação de um jogador.
Interferência, no vocabulário bolsonarista, é sempre aquilo que os outros fazem; quando eles fazem, chama-se patriotismo com protocolo.
Daqui a pouco vem PEC obrigando Neymar a bater falta, CPI para investigar banco de reservas, audiência pública sobre impedimento ideológico e requerimento para que o técnico explique por que não consultou o zap da extrema direita.
O Brasil tinha muitos problemas. Hélio Lopes encontrou o principal: a CBF ainda não estava devidamente bolsonarizada.










