Ângela Ro Ro sofreu agressões físicas por se assumir homossexual

Da Redação 

Ângela Ro Ro foi a primeira cantora a se assumir homossexual no Brasil.

Esta transparência sobre a sua vida particular, ainda nos anos 80, causou-lhe grandes problemas, tanto físicos e emocionais.

Suas atitudes consideradas escandalosas para a época eram geralmente abordadas pela mídia de maneira extremamente preconceituosas.

Hoje, aos 75 anos, Ângela Ro Ro conta que seus problemas com a polícia começaram em uma noite de dezembro de 1984.

Ela telefonou a um restaurante que ficava no final da praia do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio de Janeiro.

O bairro, à época, era ainda uma região mais natural que urbana, de difícil acesso.

Fazia calor. A pessoa que a atendeu pediu que fosse buscar sua refeição, arroz de lula com brócolis, dali a 30 minutos.

Ro Ro foi vestida com um quimono sobre o biquíni. Na volta, foi parada no caminho por uma viatura da PM.

Ela conta que policiais tentaram liberá-la mediante suborno, que ela não aceitou, seguindo o conselho do pai, policial federal.

Diz que tentaram plantar droga em seu carro, mas não conseguiram. Então, a sequestraram.

Primeiro, a colocaram na viatura. Depois, a jogaram numa vala.

Na sequência, foi transferida para outro carro. Quando viu, estava em uma sala cheia de cadáveres em gavetas, no Instituto Médico Legal, na avenida Mem de Sá, na Lapa.

“Eu falei: ‘Não tenho medo de gente morta, tenho medo de vocês’. Eu não sabia o que eles queriam. ‘Querem me matar ou querem me estuprar?’ Uma coisa meio incoerente, né?”

A ditadura agonizava naquele período, mas ainda havia momentos de terror. Ro Ro foi espancada e torturada com o “telefone”, como é conhecido o método de agressões na altura dos ouvidos.

“O cara pegou duas placas de metal, daquelas que penduram o raio-x, e me bateu várias vezes com ela nas duas orelhas”.

“Lembro-me que ele fazia isso com pênis ereto de excitação. Fiquei praticamente surda do ouvido esquerdo”.

 

Angela Ro Ro
Angela Ro Ro em foto postada no Instagram – @Angela Ro Ro no Instagram

Àquela altura, a relação tensa da cantora com as forças policiais do Rio já datava de alguns anos e sempre acabava nos jornais, mas a fronteira entre os fatos e a ficção nunca ficou muito clara.

“Eu, infelizmente, tenho sequelas físicas. Me deslocaram a retina do olho direito e me ensurdeceram um ouvido.

Quando gritei: “Ai, meu útero”, que me gerou um corte de 13 cm no baixo ventre, ouvi de um policial: “sapatão não tem útero”, relembra.

Ro Ro conta como lidou com um abuso na infância, as desilusões amorosas e as violências policiais que lhe prejudicaram tanto a visão quanto a audição.

Lésbica

“Fui molestada por um tio aos 9 anos, mas isso não me traumatizou. Consegui me livrar dele, que não tirou a minha virgindade.

Muita gente pode dizer: “Ah! Por isso, virou lésbica”. Mas não tem nada a ver. Já era taradinha, desde os 6 anos, pela (vedete) Virgínia Lane.

Depois, tiveram outras coisas. Fui espancada pela milícia de Mangaratiba, aos 33 anos. Me bateram com soco inglês, cassetete… Perdi os sentidos e acordei com crianças cantando “Amor meu grande amor”.

Lembro de pensar: “Jesus, cheguei no inferno!”. Um dos sujeitos me aplicou duas barras de ferro por trás da cabeça e perdi a visão do olho direito.

 

Foto de abertura: Mateus Augusto Rubim/O.Globo

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