Almôndegas

Por Virgilio Almansur

Sempre deliciosas! Mais ainda quando as mãos que as preparam carregam a nobreza da origem…

Conversando com uma prima, relembramos tia Odalisca. Nascida em Damasco, sempre nos perguntamos da origem de seu nome mas quedávamos aos movimentos dela na cozinha, cujo remeleixo gerava almôndegas divinas.

Eram maravilhosas! Às vezes falava da carne moída, do seu preparo num moedor enorme que, sobreposto ao balcão principal, ficava preso a sua lateral. Quantas e quantas vezes a carne ía ali…

Contou-nos que a origem da iguaria era árabe ou dos árabes que se impressionaram com o “koofthe” persa (sonoridade “kófta”), gerando a kafta que conhecemos já como carne moída. A raiz é a mesma…

Mas e a almôndega? Bem… Veio-me ela à cabeça hoje ao passar por um bistrozinho em Copa oferecendo um prato cuja foto me fez lembrar das búndigas (bolinhas em árabe) de titia rolando sobre a mesa. Eram enormes, com aquele destaque suculento de uma também arrendondada avelã crescendo…

Tia Odalisca, que chamávamos Dala, fora casada com um italiano que subverteu as bolinhas em bolonas, por vezes sob injeção de um queijo cremoso que um certo restaurante carioca, nos 80, inovou por aqui com inhoques gigantes e recheados…

Mas a chamada do bistrô me deixou com água na boca… Imaginei aquele “sugo de tomate”, tomate mesmo, dando assento às búndigas rotundas, gostosas, com aquele cheirinho harmonizando o ambiente e o prato, claro…

Resolvi encarar! Pensei nas al-búndigas — daí almôndegas — gigantes de tia Odala. Minhas referências contavam sessenta anos e fui esperando o prato.

Chegou… Um certo ar de decepção foi me tomando… Pensei em brincar com o garçon e cobrar minhas almôndegas…

Estava só no salão e eis que vem o mâitre: “… Quê tal las albóndigas?” Arrepiado entendi tudo. Eram três bolinhas de gude quase escondidas. Apreciei o purê…

A Espanha até hoje faz as almôndegas como as quase avelãs mínimas originais, aquelas bolinhas pequenas dos árabes. Bem que o mâitre poderia ser menos mâitre e premiar-me com mais bolinhas…

Desgostoso, despedi-me. Rodo um pouco pela calçada e vejo uma padaria e um cachorrinho olhando enviesado. Aproximei-me e, com ele, ficamos salivando à frente de sua televisão: belos franguinhos rodando em espetos à espera de um almoçozinho de domingo.

 

Virgilio Almansur é médico, advogado e escritor

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