A instabilidade como projeto de poder

Por Júlio Benchimol Pinto 

Trump não governa países. Coleciona reféns. Uns com sanção, outros com tarifa, outros com medo.

A Venezuela virou laboratório: pressão total, petróleo como prêmio, país inteiro tratado como ativo estratégico. Não importa a soberania, importa a alavanca. Agora a Groenlândia entra no radar – ilha, povo, crianças e velhinhos reduzidos a peça num jogo de força. “Se não apoiar, eu castigo.” É assim que ele chama diplomacia.

A Ucrânia também sente o fio no pescoço. Ajuda que vira moeda de troca, guerra transformada em ficha de barganha, destino de milhões condicionado ao humor do homem que acha que geopolítica funciona como reality show: quem agrada fica, quem resiste vai pro paredão.

Dentro dos EUA, o terror é doméstico. Gente com “cara” e “voz” de imigrante vivendo em estado de alerta permanente. Pais com medo de levar filhos à escola. Trabalhadores evitando hospital. Comunidades inteiras aprendendo a sussurrar. O Estado virou ameaça cotidiana.

Nem as instituições escapam. O Fed pressionado, intimidado, tratado como obstáculo pessoal. Quando o presidente flerta com punir banco central, o recado atravessa fronteiras: estabilidade é opcional; obediência, não.

Trump chama isso de liderança. É outra coisa. É governar espalhando incerteza deliberada. É usar o medo como método. É transformar o mundo inteiro – Caracas, Nuuk, Kiev, Chicago – num tabuleiro onde só ele move as peças.

Bilhões de pessoas não sabem se amanhã haverá tarifa, sanção, deportação, colapso monetário ou abandono estratégico. Avós aterrorizadas. Crianças perguntando se vão ter de ir embora. Países inteiros recalculando a própria existência.

Esse é o jogo de Trump: instabilidade como projeto de poder. E quando a maior potência do planeta decide brincar assim, ninguém assiste de fora. Todos jogam. Contra a própria vontade.

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