Por Julio Benchimol Pinto
Há quem diga que lembrar a Shoah seria instrumentalizar o sofrimento judeu para justificar atrocidades do governo Netanyahu. É uma acusação desonesta e indecente.
Voltei hoje à Câmara dos Deputados por uma razão maior que a rotina política: participar da Sessão Solene do Dia da Lembrança do Holocausto e reencontrar Gabriel Waldman, sobrevivente da Shoah.
Há encontros que nos reconduzem ao essencial. Estar diante de Gabriel não foi apenas rever um homem; foi encarar a memória viva contra o esquecimento, o cinismo e a indigência moral do nosso tempo.
Tenho sido atacado justamente por isso: por lembrar, por me recusar a tratar o Holocausto como peça de museu ou tema protocolar.
Há quem diga que lembrar a Shoah seria instrumentalizar o sofrimento judeu para justificar atrocidades do governo Netanyahu. É uma acusação desonesta e indecente.
Lembrar o Holocausto não absolve governo nenhum, não absolve Netanyahu nem ninguém. Eu não defendo atrocidades contra palestinos, como não defendo atrocidades contra povo algum.
Defendo o direito de Israel existir e se defender, assim como defendo o direito do povo palestino à vida, à dignidade e a um horizonte político.
O que incomoda muita gente não é a memória, mas a memória judaica quando ela se recusa a ser domesticada.
Aceitam o judeu morto como símbolo, mas se irritam com o judeu vivo como sujeito histórico.
Prestam homenagem às vítimas de ontem, mas relativizam o antissemitismo de hoje. Querem uma Shoah silenciosa, educada, inofensiva. Não terão.
Gabriel Waldman estava ali, não como abstração, não como argumento de rede, não como figurino retórico para militante de ocasião, mas como presença viva de uma das maiores catástrofes da história humana.
E essa presença impõe respeito, verdade, memória.
Sairei da Câmara com o coração apertado e a convicção intacta: lembrar a Shoah é dever moral; defender a existência de Israel não exige calar diante do sofrimento palestino; defender os palestinos não exige relativizar o horror antissemita.
Quem não consegue sustentar essas verdades ao mesmo tempo talvez não esteja em busca de justiça, mas apenas à procura de um álibi elegante para velhos ódios.

Júlio Benchimol Pinto é PHD da Universidade Federal de Brasília(UNB)
Nota do editor Simão Zygband – sou judeu. Meu pai, que se chamava Israel, era sobrevivente do nazismo. Nunca fui sionista. Nem ele. Mas defendo a existência do estado de Israel, formatado após a segunda guerra, depois de muito sangue derramado (e não somente judaico).
Apesar de pensar diferente do Júlio em muitos aspectos, publico seus textos pois na questão judaica temos alguns pensamentos semelhantes. Atrevo-me a dizer que ele é sionista.
Netanyahu cumpre a agenda asquerosa dos nazifascistas israelenses. Isso não significa dizer que todo israelense reze pela sua cartilha totalitária.
O pensamento antissemita está na moda. Muitos agem como antissemitas sem saber ao certo por que está sendo.
Tal como o nazismo e o fascismo, o antissemitismo tem terreno fértil na ignorância. É o que temos assistido.
Defendo o estado palestino, defendo o estado judeu. Não defendo Netanyahu. Acho pertinente o governo Lula realizar um seminário sobre o antissemitismo.
Não veria problema nenhum haver um seminário sobre a Palestina. Quem sabe o Hamas, o Hesbolá e os aiatolás iranianos expliquem melhor o que eles pensam sobre a existência dos judeus e do estado de Israel.









