Heróis de uma tragédia

Dois motoristas de ônibus dão lição de solidariedade ao resgatar passageiros na enchente de Petrópolis

Por Jorge Antonio Barros

Situações extremas e tragédias podem servir para revelar a coragem de pessoas que se preocupam com as outras, independentemente de conhecê-las ou não. Pode estar aí o DNA dos verdadeiros heróis. Porque herói não é aquele que faz apenas o que está determinado por sua função. Herói é aquele que justamente vai além de suas funções.

O desastre “natural” de Petrópolis – que atinge nesta sexta a marca de 126 mortos e 218 desaparecidos – já atraiu um número indefinido de voluntários que deixaram a segurança e o conforto de suas casas e partiram para a cidade imperial para ajudar na busca a desaparecidos e oferta de alimentos e doações. São os chamados heróis anônimos, gente que muitas vezes jamais conheceremos os nomes e suas histórias. Estão lá para servir e ponto. Não querem louros e, muito menos, votos.

Do temporal que arrasou a cidade serrana, produzindo uma das maiores tragédias de sua história, surgem dois heróis justamente de onde raramente esperamos alguma coisa – do volante de transportes coletivos. Dois motoristas de ônibus da tragédia de Petrópolis estão contribuindo para quebrar o mito de que motoristas de transportes coletivos são vilões. Carlos Alberto Nascimento, de 52 anos, pilotava o ônibus da linha 401 – Independência. Seu colega Carlos Antonio de Faria, de 46, dirigia um veículo da linha 465. Ambos os ônibus pertencem à empresa Pedro Ita, cuja frota, que havia sido parcialmente renovada em dezembro foi bastante prejudicada pelas inundações.

Carlos Alberto se emocionou ao dizer que gostaria de ter conseguido salvar todos os passageiros que levava no coletivo. Diante da câmera de vídeo do Sindicato das Emprestas de Transportes de Petrópolis (Setranspetro), Carlos Alberto chorou:

“Eu não sei quem é o pai daquele menino, que eu não consegui pegar, mas ele pode tá certo que a dor que ele tá sentindo, eu tô sentindo, eu também tenho filho! Só quero que Deus conforte muito, muito ele, porque aquela criança era tudo que eu queria ter segurado, e não consegui”, lamentou Carlos, que voltou a trabalhar dois dias após o incidente.

Seu colega, Carlos Antonio, participava nesta sexta-feira dos trabalhos de busca por desaparecidos, em Petrópolis.

Como acontecem em tragédias, foi tudo muito rápido. Quando os motoristas se deram conta, a Rua Washington Luiz estava tão alagada que se confundia com o Rio Quitandinha, que corre ao lado. A queda de uma barreira, num morro próximo, agitou ainda mais as águas, aumentando a inundação na rua.

Os passageiros tentavam escapar pelas janelas, quando os coletivos afundaram, como num naufrágio.

Mas apenas uma iniciativa de Nascimento ajudou a salvar vidas. Moradores de um condomínio vizinho jogaram uma corda para o motorista. Foi com essa corda, amarrada a um poste que muitos passageiros foram salvos das águas. Antes, os motoristas derrubaram as janelas de emergência, por onde os passageiros saíram.

Infelizmente, alguns passageiros que haviam saído antes e alcançado a carroceria dos ônibus acabaram caindo na água e desaparecendo na exurrada.

Se a tragédia serviu para revelar esses dois heróis, pode servir também para alertar empresas de transporte público da necessidade de incluir no treinamento de motoristas  e cobradores instruções de como lidar com enchentes, assim como incluir nos ônibus kit de salvamento e primeiros socorros.

 

Jorge Antonio Barros é editor do Quarentena News

Foto: Os motoristas Carlos Alberto Nascimento e Carlos Antonio de Faria. Reprodução O Globo

Obs: Matéria compartilhada do Quarentena News. Os artigos aqui reproduzidos são de inteira responsabilidade dos autores.

 

Contribuição para o Construir Resistência ->

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *