Por Paulo Cavalcanti
O mais impressionante não é a existência da lista. É o coro de desculpas que vem logo em seguida: “brincadeira”, “imaturidade”, “coisa de internet”.
Um país que se acostumou a transformar tudo em piada finalmente encontrou um limite — e, como de costume, fingiu não reconhecer.
A tal “lista de meninas estupráveis” não é uma aberração isolada, um desvio pontual de meia dúzia de jovens sem noção.
É, na verdade, o retrato cru de uma cultura que banaliza a violência enquanto posa de civilizada.
O mais impressionante não é a existência da lista. É o coro de desculpas que vem logo em seguida: “brincadeira”, “imaturidade”, “coisa de internet”.
Como se o estupro fosse um tema neutro, uma espécie de esporte verbal que pode ser praticado sem consequências.
Como se a linguagem não fosse o primeiro ensaio da ação.
Há algo profundamente revelador na escolha das palavras: “estupráveis”.
Não são pessoas, não são colegas, não são cidadãs — são alvos. Objetos avaliados, classificados, ranqueados.
A desumanização vem antes da violência física; ela pavimenta o caminho.
E quando isso aparece em forma de lista, com critérios e nomes, não estamos diante de humor, mas de método.
E então entra em cena o velho teatro brasileiro: notas de repúdio mornas, promessas de apuração e a rápida passagem do escândalo para o esquecimento.
Afinal, a indignação tem prazo de validade curto por aqui.
Amanhã haverá outro absurdo para ocupar o noticiário, e este será empurrado para debaixo do tapete — onde, aliás, já há uma coleção considerável de barbaridades normalizadas.
Talvez o mais incômodo seja admitir que essas listas não nascem no vácuo.
Elas brotam de conversas toleradas, de risadas cúmplices, de uma educação que ainda ensina, mesmo que de forma velada, que o corpo feminino é território público.
A lista é só a ponta visível de um iceberg muito mais profundo.
Se há algo de “útil” nisso tudo, é a impossibilidade de fingir ignorância.
Está escrito, escancarado, digitado. Não dá para dizer que não sabia. A questão, agora, é outra: o que será feito com esse espelho pouco lisonjeiro?
Porque, até aqui, o país tem sido ótimo em quebrar espelhos — mas péssimo em corrigir a própria imagem.
Esse é o resultado da educação recebida por uma “elite”, que saiu das roças de café e cana de açúcar, direto para a Av. Paulista, sem estágio probatório, e sem nunca ter de fato, valorizado a cultura como ascensão social. Ainda prevalece o “você sabe com quem tá falando”….

Paulo Cavalcanti se auto-intitula especialista em nada








