Por René Ruschel
Há imagens que atravessam décadas e continuam a dizer sobre quem fomos e sobre quem poderíamos ser novamente.
Uma delas mostra Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas lado a lado. Eram adversários duros, rivais em eleições acirradas e em projetos de país.
Mas havia entre eles algo que no Brasil de hoje parece exótico. O respeito ao outro e às regras do jogo democrático. Nas disputas o embate era firme, mediado pela convicção de que a política não é um vale-tudo.
Covas lembrava que “não há democracia sem adversários”. Lula dizia que “política não é guerra” e FHC reiterava que “o poder é transitório, mas as instituições são permanentes”.
Não se tratava de convivência cordial, mas de um pacto tácito onde as divergências não podiam ser pretexto para minar as instituições ou desacreditar a própria democracia.
Hoje, o contraste é evidente e doloroso. O Congresso abriga uma trupe ruidosa de parlamentares bolsonaristas que confundem oposição com sabotagem.
Para eles, o parlamento é menos um espaço de debate e mais uma arena de guerra onde prevalece a lógica de destruir para reinar sobre os escombros.
Ignoram a liturgia do cargo, tratam a Constituição como papel descartável e flertam abertamente com o autoritarismo, como ficou claro na tentativa de golpe de 8 de janeiro.
Não faltam exemplos recentes. Tentativas de abrir CPIs sem fundamento técnico, apenas para desgastar o governo. Projetos de lei que buscam reescrever a história da ditadura, amenizando seus crimes. A tentativa de impedir a realização de sessões no plenário da Casa fantasiados com uma fita na boca.
Ataques sistemáticos ao Supremo Tribunal Federal, com discursos que beiram a incitação à desobediência judicial. E o uso de comissões temáticas como palanque para espalhar teorias conspiratórias e desinformação, tudo com a intenção de corroer a credibilidade das instituições.
Esses atores políticos não agem para fiscalizar ou apresentar alternativas. O objetivo é tumultuar, enfraquecer a democracia e impor uma agenda que não resiste ao crivo do voto e da lei.
Alimentam uma base que vê no adversário não um concorrente legítimo, mas um inimigo a ser eliminado.
O Brasil já experimentou a sombra da ditadura com seus silêncios forçados e a supressão das liberdades. Foi um período de medo e exclusão que deixou cicatrizes profundas.
A democracia, com todos os seus defeitos, é o único terreno em que a sociedade pode corrigir rumos sem recorrer à violência ou à força.
A foto de Lula, FHC e Covas não é mero registro histórico. É um lembrete de que é possível discordar, disputar e até se antagonizar sem destruir os alicerces que sustentam o país.
Mais que nostalgia é um chamado à maturidade política. Algo que diante do cenário atual parece ter se tornado artigo de luxo ou peça de museu.

René Ruschel é jornalista











Respostas de 2
Esses políticos bolsonaristas não estão ali por nemhuma causa para nenhuma parte da sociedade, senão pela a liberdade da família do ex-presidente e pelas causas da teocracia da extrema-direita. Só invertem e destroem leis para abrir caminho para a destruição de estruturas e quaisquer impecilhos para seus objetivos, que serão implementados logo após – ou não, se nos impusermos e não permitirmos sequer que votem e/ou ganhem nas votações de pautas antidemocráticas e antihumanitárias. Não discutem porque sequer têm agenda. São os brucutus do parlamento.
Concordo com vc, Mônica. Obrigado pelo seu comentário