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Gleisi cobra União Brasil e diz que PT não vai mais ceder espaço no governo

Por Catia Seabra e Thiago Resende – Folha de S. Paulo 

Presidente do partido defende reeleição de Lula e afirma que há como atrair outros partidos sem negociação de ministérios

presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann, rejeita a hipótese de reduzir o número de ministérios ocupados pelo partido para acomodação de novos aliados à base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Não vejo como o PT ceder mais espaço no governo para contemplar outras forças”, diz em entrevista à Folha.

Gleisi, que participou nas negociações para formação do ministério de Lula, defende ajustes no acordo com a União Brasil —sigla que recebeu três pastas e ainda se declara independente em relação ao governo.

“Temos que fazer um freio de arrumação, porque, mesmo sendo contemplado como foi, é um partido que não está fazendo entrega”, afirma a petista.

Para a presidente do PT, é natural que o governo imponha um filtro ideológico para nomeações descartando indicados que se alinharam ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). “Se nós ganhamos, nós temos uma posição política clara contra o bolsonarismo.”

Uma das principais colaboradoras de Lula, ela defende que ele concorra à reeleição em 2026.

Lula e o PT têm feito duras críticas ao presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Essa postura tem sido alvo de contestação dentro da própria base governista. Isso não contraria o discurso de pacificação de Lula da campanha? 

A postura que o presidente está tendo é a mesma que teve durante a campanha. Ele prometeu a pacificação, mas não prometeu entregar o país ao retrocesso econômico e ao desemprego. Ele prometeu o crescimento e emprego, prometeu políticas sociais robustas, prometeu um investimento. Tudo que ele está falando é o programa que foi vitorioso.

O presidente Lula contemplou PSD, União Brasil e MDB com três ministérios cada. Mas até hoje se diz que a base não é estável. Qual o tamanho da base hoje? 

Você não forma a base do dia para noite. O governo está fazendo um esforço muito grande para agregar forças no Congresso. Isso não quer dizer que 100% irá concordar com o governo, e que, em todos os projetos, [os partidos] vão votar juntos. Vai ter sempre divergência, mas eu acho que o que importa é esse esforço.

Esses partidos, MDB, PSD e União Brasil, ficaram com muito espaço no governo? 

Em relação a MDB e PSD, não. São partidos que de certa forma já estavam nos acompanhando na campanha, ainda que divididos. Nessas bancadas, nas votações, majoritariamente têm votado com o governo, tanto PSD como o MDB.

Em relação à União Brasil, acho que temos que fazer um freio de arrumação, porque, mesmo sendo contemplado como foi, é um partido que não está fazendo entrega. É um partido que tem dificuldades pela sua composição interna e pelo distanciamento também que sempre teve de nós. No processo eleitoral, totalmente distantes e historicamente também.

Qual seria esse freio de arrumação para a União Brasil? 

Tem que chamar e conversar porque, se não estiver fazendo entrega, não tem porque permanecer onde está. Essa é a minha avaliação, do PT. Não estou falando pelo governo.

Uma opção seria fazer trocas de indicações dentro do próprio espaço da União Brasil? 

Pode fazer. Ninguém é imexível [risos].

O PT está disposto a abrir mais espaço na Esplanada para dar ministérios a outras siglas? 

O PT abriu muito espaço, foi muito generoso já na composição [do governo]. Ele tem dez ministérios, o que se justifica porque é o partido do presidente da República. Então os ministérios do entorno do presidente são ministérios do partido. Eu não vejo como o PT ceder mais espaço no governo para contemplar outras forças.

Como atrair então partidos como PP e Republicanos que ainda não estão na base e devem pedir ministérios? 

Não é só cargos em primeiro escalão que atrai. Não é só a participação na máquina pública que atrai. Eu acho que tem projetos que são importantes, que parlamentares querem levar para os seus estados. Tem recursos que são importantes também para representação política. Tem um conjunto de ações que colocadas em prática pode acertar a base do governo.

O Bolsonaro, por exemplo, quase não fez participação política dos partidos no governo. Obviamente que administrou pelo orçamento secreto [emendas de relator], também não é o caso, mas formou a base assim. Mas não é só participação em cargo.

Mas partidos que já compõem o governo reclamam de influência do PT nas escolhas de secretários nos ministérios, por exemplo. 

No caso dos secretários-executivos, todos os partidos tiveram autonomia. Tanto que a primeira liberação para nomeação foi de secretário-executivo e chefe de gabinete. Ninguém se meteu em secretário-executivo de ninguém, a menos se alguém indicou um secretário bolsonarista. Aí a gente se meteu, porque não tem justificativa. Troca. Bota outro.

Isso não é um filtro ideológico dentro do governo?

Claro que é ideológico. Se nós ganhamos, nós temos uma posição política clara contra o bolsonarismo, disputando nas urnas com ele e ganhamos. É um filtro ideológico, sim. O governo tem posição. Não é uma geleia. Nas outras secretarias, e isso acontece com ministérios também do PT, é por composição.

O centrão quer cargos em estatais, como Codevasf e Dnocs. O PT quer fazer essas indicações ou acha melhor deixar esse espaço para tentar ampliar a base aliada? 

Cabe aos partidos que estão nos ministérios fazer a indicação e a gente tentar compor com outros partidos. Não vamos fazer briga em relação a isso. Mas na composição das diretorias a gente pode fazer algo mais diversificado para equilibrar.

A sra. acha que PP e Republicanos, que foram associados ao bolsonarismo, devem ser convidados a entrar no governo? Eles foram convidados já para nos apoiar como base no Congresso. Não acho que necessariamente têm que entrar ou compor o governo. Pode ser lá na frente dependendo de como vão se comportar nas votações, de como vão estar junto com o governo, é possível. Mas não acho que seja o caso disso acontecer agora.

O Republicanos, aliás, teve o apoio do governo para eleger uma pessoa [deputado Jhonatan de Jesus] para ficar 30 anos no TCU [Tribunal de Contas da União]. Isso vale mais que qualquer ministério. Já poderia estar firme na base, mas acho que vai estar, pelo menos, ali na Câmara.

Lula admitiu a possibilidade de concorrer à reeleição caso o país esteja em situação delicada. Na sua opinião, ele deve disputar independentemente do cenário?

Eu sempre falava ao presidente, quando ele dizia que não ia ser candidato à reeleição, que ele não deveria falar isso, não deveria tratar disso. Primeiro porque acho que ele pode e deve ser candidato à reeleição pela trajetória, pelo que representa e pelo que ele é. Fico muito feliz que ele tenha adotado a postura da possibilidade de se candidatar.

Havia uma expectativa que a sra. viesse a ser ministra, sendo o ministro Márcio Macedo escalado para a presidência do PT. Não foi frustrante ficar de fora dessa composição ministerial? 

As pessoas tinham essa expectativa, as pessoas fazem essa leitura. Para mim, não foi não. O PT é muito importante na base deste governo pelo papel que ele tem. Então ter um posicionamento firme do partido em relação àquilo que nos conduziu até aqui é fundamental.

Na sua opinião, qual deve ser o papel do PT no terceiro mandato de Lula? Posicioná-lo à esquerda? 

É o principal partido da base de apoio do presidente. É defender o presidente Lula e o projeto que nos levou à vitória. É um projeto de geração de emprego, de cuidado com o povo mais pobre, o estado investir em problemas sociais robustos.

O Congresso tem visto o Lula 3 mais de esquerda e menos pragmático do que nos mandatos anteriores? Se sim, por quê?

O presidente Lula está tendo posições muito boas, está sendo muito bom na condução do governo, firme. Muito leal aos compromissos da campanha.

O que na sua avaliação é inegociável? 

O crescimento econômico, e geração de emprego, é inegociável.

Em seus 43 anos, o PT viu seu líder ser preso e uma presidente sofrer impeachment. Qual é o aprendizado do partido? 

O PT é o grande partido do Brasil e não há arrogância nisso. É o grande partido no sentido da sua organização, da sua relação com a sociedade e da sua presença em todo o território nacional. Temos diretórios em mais de 3.000 municípios brasileiros, temos vida partidária. Temos uma relação muito forte com o movimento social, com sindicatos com a base social. E é isso que dá resiliência e resistência ao partido. Nenhum outro partido teria enfrentado o que enfrentamos durante esses anos e saído vivo e voltado ao cenário político com vitória.

O resultado da eleição do ano passado foi bem apertado. Uma das estratégias de campanha de Bolsonaro foi associar Lula à corrupção. Esse ainda é um flanco do partido? 

Sobre o resultado, também avaliamos que foi apertado, foi a eleição mais difícil que já disputamos. E, se não tivesse Lula, nós não ganharíamos. Mas isso aconteceu porque disputamos contra a máquina.

É a primeira vez que um presidente da República não é reeleito na história democrática brasileira. Foram cerca de R$ 300 bilhões em auxílios, créditos, isenção de imposto, emendas. Obviamente que essa questão da corrupção ainda pesou bastante. Foi com isso que nos debatemos nos últimos tempos, tivemos que enfrentar e resistir. Então, ganhar os processos, fazer a resistência à prisão, fazer essa luta política foi muito importante.

E o legado dele. A gente aprendeu muito durante todo esse período, inclusive a não se enganar. Fazer alianças não quer dizer se enganar. Fazer alianças é você saber que tem um resultado a atingir, tem uma aliança a ser feita, mas que aquele que está naquele momento aliado a você necessariamente pode não estar na frente. Então a gente sabe que tem que ter uma força própria.

A sra. se refere ao MDB? É isso. E vai estar na aliança de novo e queremos que esteja por muito tempo. E que a gente possa realmente ter como foco nessa aliança mais ampla a questão da democracia, do devido processo legal, é sobre isso que nós estamos falando.

O governo Lula tem que anunciar medidas mais contundentes de prevenção à corrupção? 

Todas as medidas de combate à corrupção são salutares, necessárias e bem-vindas. Aliás, nos nossos governos se apurou muita corrupção. Teve muita transparência.

O que nós questionamos é a utilização da Justiça brasileira para fazer perseguição política, porque foi isso que aconteceu. Não teve nada comprovado de corrupção contra o Lula. O Lula ficou preso 580 dias. Defender o Estado democrático de Direito é fundamental, mas isso não tem nada a ver com não combater a corrupção. O presidente tem falado isso todas as vezes e tem deixado claro que não vai ser condescendente com corrupção.


RAIO-X | GLEISI HOFFMANN, 57 ANOS

É presidente nacional do PT. Nascida em Curitiba, é formada em direito pela Faculdade de Direito de Curitiba. Foi secretária estadual em Mato Grosso do Sul. Elegeu-se senadora em 2010 e deputada em 2018. De 2011 a 2014, foi ministra-chefe da Casa Civil (governo Dilma). É presidente nacional do PT e deputada federal.

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