Construir Resistência

5 de maio de 2022

Santos terá o “Dia Marielle Franco”

Por Carlos Ratton   Um verdadeiro embate ideológico, que pouco se vê fora das redes sociais, ocorreu na última terça-feira (3), na Câmara de Santos, quando foi aprovada, em segunda e última votação, por nove votos a seis, a criação no Calendário Oficial de Eventos e Datas Comemorativas o Dia Marielle Franco de Enfrentamento à Violência Política contra Mulheres Negras, LGBTQIA e Periféricas, a ser comemorado anualmente em 14 de março. A Proposta da vereadora Débora Camilo (PSOL) segue para sanção do prefeito Rogério Santos (PSDB). Tudo porque, dias antes da votação, o vereador bolsonarista Fábio Duarte (PODE), fez o que pode para que o projeto fosse rejeitado, convocando virtualmente pessoas de ideologia conservadora a lotar a Câmara para tentar pressionar uma virada. “Conto com vocês! Não podemos tolerar esse absurdo”, disse o parlamentar e ex-militar, adepto a ‘bancada da bala’. A convocação de Duarte não deu o resultado esperado. Ao contrário, nas galerias, a convocação de Débora foi mais forte e pessoas favoráveis ao projeto eram em número bem maior. Aos gritos, com faixas penduradas no guarda corpo das galerias, os manifestantes favoráveis à proposta gritavam “fascistas, racistas não passarão”. Na primeira votação, a proposta de Débora tinha sido aprovada por 14 votos favoráveis, dois contrários e uma abstenção. Débora chegou a postar antes da decisão: “estou sendo ameaçada por bolsonaristas que querem tumultuar”. Fabrício Cardoso (Podemos) defendeu até que o projeto mudasse de nome, apenas para não ficar impresso no calendário santista o nome da vereadora carioca assassinada. VOTAÇÃO A votação foi diferenciada. Alguns parlamentares conservadores votando favoravelmente ao projeto e um progressista votando a favor. Votaram a favor Augusto Duarte (PSDB); Audrey Kleys (Progressistas); Benedito Furtado (PSB); Cacá Teixeira (PSDB); Chico Nogueira (PT); Lincoln Reis (PL); Rui de Rosis (PSL); Telma de Souza (PT) e Débora. Foram contra Adriano Piemonte (PSL); Bruno Orlandi (DEM); Edvaldo Fernandes (PSB); Fabrício Cardoso (Podemos); Sérgio Santana (PL) e Duarte. Outros como Ademir Pestana (PSDB); João Neri (DEM); Paulo Miyashiro (Republicanos); Roberto de Jesus (Republicanos) e Zequinha Teixeira (PSD) resolveram abrir mão do direito de voto e não participaram da decisão.     Texto publicado originalmente no link abaixo do Diario do Litoral https://www.diariodolitoral.com.br/santos/proposta-e-aprovada-na-camara-e-santos-tera-dia-marielle-franco/156365/

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Lula joga pelo empate

Por Simão Zygband   Se todas as pesquisas de intenção de votos estiverem certas, a cada dia que passa, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se aproxima de poder pela terceira vez dirigir os destinos do país. Não será tarefa fácil para os seus adversários reverterem milhões de votos. Mas nada é impossível na política e o jogo, em geral, vai até os 50 minutos do segundo tempo. Mas também não dá para não considerá-lo o franco favorito. A irritação de seus adversários aumenta a cada dia. O golpe mais agudo para eles foi desferido quando a influente revista Time trouxe uma capa com o ex-presidente, logo após ele ter sido considerado como um preso politico e injustiçado pela Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). São dois fatos políticos de extrema relevância, ainda mais para quem surfa em uma dianteira há mais de seis meses. Trocando em miúdos, se nenhum novo fator relevante ocorrer nos próximos cinco meses, Lula já pode colocar novamente a faixa presidencial e subir a rampa do Planalto. Se fizermos um silogismo com o futebol, o ex-presidente, que encabeça uma ampla Frente Democrática de partidos que vai do centro para a esquerda, joga agora pelo empate, com o regulamento debaixo do braço.   Claro que alguma coisa pode mudar com o início do horário eleitoral, mas as condições econômicas e a tragédia que o desgoverno Bolsonaro impõe aos brasileiros não permitirá muita margem para reversão da intenção de votos. Como se sabe, dificilmente um governo que proporciona melhores condições de vida para a população perde eleição. Lula só não perdeu após se eleger pela primeira vez como ainda elegeu por duas vezes a sua sucessora, Dilma Rousseff, retirada a força do poder por um farsesco golpe de Estado. Há de se levar em conta também uma fundamental leitura da política que realizou o próprio Lula ao aceitar como candidato a vice-presidente o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o seu tradicional adversário. Pesaram a favor de antigo peessedebista, agora no PSB, não ter agido de forma rancorosa e ter se comportado como um adversário e não um inimigo como agem Bolsonaro e seus asseclas truculentos, alguns deles suspeitos inclusive de terem assassinado a ex-vereadora Marielle Franco, do PSOL carioca. Bolsonaro acredita que poderá reverter a difícil situação utilizando robôs para ilegalmente atacar o seu principal adversário pelas redes sociais, usando ferramentas que obtiveram sucesso disparadas sobretudo sobre o eleitorado conservador, sobretudo o evangélico, assacando contra Lula de maneira torpe. Nas eleições de 2018 esta estratégia funcionou, mas não é certo que funcione desta vez junto a um eleitorado que enfrenta a maior inflação dos últimos 27 anos, paga um combustível a preços nunca dantes praticados e o preço de alimentos e produtos de primeira necessidade nas alturas. Difícil reverter esta dura realidade. Só um milagre para convencer o eleitor em tão pouco tempo a gostar do governo mais rejeitado e impopular da história do país. Evidente quer não há nada ganho. Não há eleição ganha de véspera. Há muita vontade da maioria da população de enxotar Bolsonaro e seu governo onde vivem na mamata altas patentes das Forças Armadas, pastores evangélicos que fazem negócios em ouro com as verbas da Educação e milicianos criminosos que originaram as famosas “rachadinhas”, uma forma de esquentar dinheiro sujo, além de desviar dinheiro público. Enquanto a população empobrece a olhos vistos, procurando comida no lixo, morando nas ruas das principais cidades e entrando na fila do osso para poder fazer uma sopa, Bolsonaro e seus filhos vivem nababescamente. O genocida tem a coragem de gastar R$ 1,5 milhão por mês no cartão corporativo, passeia de moto e de jet sky em horário de trabalho, seus filhos compram em dinheiro mansões milionárias e permite que o Exército, de onde ele foi encostado como “incapaz”, faça aquisições milionárias de viagras, próteses penianas, apetrechos de sex shop, tudo isso regado a picanha, whisky e vinhos importados, lombo de bacalhau e milhões em leite condensado. Não há povo que aguente.                

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Pra quê discutir com madame?

Por Sonia Castro Lopes Não é segredo pra ninguém que o Leblon é o bairro com o metro quadrado mais caro do Rio, quiçá, do Brasil. Bairro que inspirou o novelista Manoel Carlos a desenvolver suas tramas globais com personagens folclóricos repletos de discursos elitistas e preconceituosos. Sim, 90% da população do bairro votou e votará no capitão. Mesmo aqueles que, envergonhados, se declaram nem… nem… na hora H vão apertar o número do miliciano. Existe no bairro um grande conjunto residencial de classe média que apelidaram Selva de Pedra. Foi erguido em pleno período da ditadura civil-militar e hoje conta, entre seus moradores, com uma expressiva quantidade de viúvas, filhas e pensionistas dos gorilas de 64. Uma turma que tem saudades da ditadura, viaja à Europa – ainda que de classe econômica -, se alimenta bem, frequenta bons restaurantes aos domingos e olha com desprezo para os miseráveis que vivem nessa situação por “não quererem trabalhar”. Essa é apenas uma fatia dos leblonenses que, por ali residirem e desfrutarem de rendas maiores que a de outros mortais, se julgam integrantes da classe AA, ou seja, dignos representantes da elite carioca. O problema é que a verdadeira elite, por sua vez, olha com desdém para esse tipo de gente por acreditar que possuem natureza e origem distintas. Fiz esse preâmbulo para narrar um episódio de intolerância e preconceito no qual se encontram representados todos os segmentos da população do famoso bairro. Os  personagens em questão são um morador de rua, uma moradora da Cruzada São Sebastião (conjunto habitacional de pobres), um casal representante legítimo dos AA e algumas  distintas “senhoras de bem” com pinta de esposas e/ou pensionistas dos coronéis da reserva habitantes do “Selva”. Meio dia de ontem (4). Na Rua Ataulfo de Paiva, calçada do Shopping Rio Design, próximo a uma fila do Banco Itaú, havia um alvoroço. Parei para me inteirar do acontecido e pude ver um senhor branco, muito bem vestido, acionar a guarda municipal para encaminhar à delegacia uma mulher preta em trajes modestos que teria “ofendido sua senhora”. Sentindo-se injustiçada, a mulher alegava que não xingara a madame, mas que agora o faria e, fora de si, mandou-a tomar em todos os orifícios possíveis…Pra quê???? O caso tomou proporções gigantescas e o quarteto seguiu rumo à 14ª DP. Ainda sem entender o fato gerador de tanta encrenca procurei assuntar as velhotas da fila do banco que balançavam a cabeça em sinal de reprovação. O pivô da confusão foi um jovem adolescente preto, morador de rua, que estendera seus trapinhos na calçada do shopping bem em frente ao banco Itaú. Incomodada com a situação, madame interpelou o gerente que prontamente se dispôs a enxotar dali o “indesejável”. Imediatamente, a mulher preta (‘favelada da Cruzada’, segundo as depoentes) tomou as dores do jovem e pôs-se a discutir com madame, que devia pertencer ao time daquela que se aborrecia porque “a raça não melhora” por causa do samba e do pessoal do morro… (Haroldo Barbosa/Janet de Almeida, Pra quê discutir com madame?) Passei a entender melhor o furdunço quando o menino se levantou, calçou os chinelos, meteu os paninhos numa mochila e marchou atrás da turma dizendo que, mesmo sendo “de menor”, iria à delegacia testemunhar a favor da mulher que o tinha defendido. “É preciso ter consciência negra!”, bradava ele, para o espanto dos presentes. A título de provocação, comentei com as prováveis viúvas da caserna que se tratava de um episódio de racismo, crime inafiançável, ao que me responderam: “Só se for racismo ao contrário, porque a senhora [branca] foi ofendida apenas porque reclamou do cheiro desagradável que esses moradores de rua exalam, empesteando o bairro…” Saí dali convicta de que contra preconceito e hipocrisia, há poucos argumentos e muito o que fazer. Foto: O ‘indesejável’ das gentes. Por Sonia Castro Lopes Acesse para ver/ouvir Pra quê discutir com madame na voz de João Gilberto https://www.youtube.com/watch?v=ojr0HdBH_T8        

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Sobre as saudades

Por Renata Corrêa  Que me seja dado o milagre de  um poema apaziguador Ante mudanças climáticas e tempestades das distâncias Lonjuras são inóspitas estâncias na selvageria Dos mangues secos nos tempos de estiagem. Na umidade relativa do amar, Raios de silêncio atravessam o céu descoberto E esturricam o couro dos versos No asfalto quente em todo Nascente da saudade…   Renata Corrêa é poeta, professora e mestre em educação. 

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Conhecimento: o estorvo dos adeptos do miliciano

Por Walter Falceta A direita, historicamente, tem esse fetiche pelo capital e pelo patrimônio, ao mesmo tempo em que despreza o trabalho e teme o conhecimento. Inúmeras vezes, a liderança de direita considerou o conhecimento como um inimigo de seu interesse político. Os nazistas, que são um tipo exacerbado de direita, têm horror especial ao verdadeiro conhecimento filosófico, histórico e científico. Hanns Johst resumiu numa peça teatral o pensamento de Goebbels e de Göering, dois dos principais colaboradores de Adolf Hitler: – Quando ouço alguém falar em cultura, já saco o meu revólver. Freud talvez explique essa relação dialógica sinistra da direita com o conhecimento. Pois, ao mesmo tempo que o odeiam, sentem enorme e doentia inveja da inteligência culta alheia. Quer açoitar um milicianista na rede? Basta argumentar com finesse, lógica e evidências irrefutáveis. Ele logo perde o prumo e reage espumando pela boca, com os chavões do hábito: “coisa de comunista”, “coisa de viado”, “coisa de ateu”, “coisa de preto”, “coisa de cabeça chata”, “ouviu na Globo” e “luladrão”. Por vezes, durante o faniquito, descamba para o uso de termos chulos de desqualificação do oponente. Esse tipo de erística da esculhambação ganhou corpo no Brasil pelas diatribes mal escritas do falecido apedeuta Olavo de Carvalho, cuja obstinação era ganhar um debate mesmo sem ter razão, a partir do texto-guia elaborado em tempo remoto por Schopenhauer. Falácia, sofisma e, por fim, argumentos ad hominem. O ignorantão valente, tipo Silveira, precisa desesperadamente dessas armas para suprir sua formação rasa, seu entendimento limitado e sua impaciência com o processo dialético de aprendizado. Porque o direitoso padrão intui que é preciso calar de pronto o oponente sabedor. Em um debate civilizado, pois, o milicianista exibiria seus flancos vulneráveis e logo seria humilhado pelo interlocutor. Afinal, os menos abestalhados confundem, por exemplo, Karl Marx com Max Weber e acreditam que Groucho Marx seja um comunista debochado da mesma família. Elogiar um deles já agita os tocheiros piromaníacos ucranizados de Sara Winter. O milicianista estúpido ou estupidificado tende também a considerar que qualquer fala relativa a políticas públicas, direitos universalizados, redução de danos e inclusão social esteja associada a uma coisa difusa, nebulosa e assustadora que ele resolveu chamar de “comunismo”. O padre que distribui sopa de ervilhas é comunista. O professor que ministra aulas sobre a Evolução é comunista. O médico que fala sobre menstruação é comunista. O psicólogo que fala sobre masturbação é comunista. O engenheiro ambiental que fala em preservação é comunista. O agrônomo que fala em reforma agrária é comunista. Comunista, para o milicianista, é até o neoliberal FHC. Conforme comprovamos nestes tempos de pandemia, os milicianistas nutrem ainda ódio especial pela ciência, pela academia, pela erudição, pela estatística, pelos laboratórios e por qualquer forma de pensamento organizado e complexo. Isso porque o fascista, de forma geral, acredita que já sabe o suficiente e que já identificou os culpados por todas as mazelas deste mundo. Este culpado é o divergente-diferente. Pode ser o judeu, o árabe, o chinês, o negro, a mulher, o LGBTQIA+, o cigano, o anarquista, o socialista, o comunista, o ateu, o umbandista, o imigrante, o acadêmico, o estrangeiro, o intelectual e o artista. Para o fascista, todos esses aí estão mancomunados numa conspiração mundial para entrevar as mentes e tornar complicado o que julgam extremamente simples. Para a extrema-direita, tudo se resolveria com disciplina militar, bordoadas, bombas, prisões, torturas, estupros “educativos” e eliminação em massa dos tais divergentes-diferentes. A pior coisa para um milicianista é desconfiar de que problemas complexos exigem soluções complexas. Essa é sua perdição. Ao perceber o mais leve lume dessa realidade, ele perde o sono, o apetite e a fé em si mesmo. Daí, a necessidade das sessões rituais de auto-engano, em que pastores em busca de quinhão, prometem o milhão, ludibriando de montão. “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo”: do púlpito,  pois, a ordem é garantir o interesse do fariseu e cristalizar essa ignorância. Walter Falceta é jornalista e um dos fundadores do Coletivo Democracia Corinthiana (CDC)

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