Sobre o fim dos clubes e a ascensão das empresas futebolísticas

Por Walter Falceta

O recado que vem a seguir é de Kim Lim, filha do sujeito que tomou o Valência de sua coletividade.

“Mais uma vez. Alguns torcedores do Valencia estão criticando e falando mal de mim e da minha família. Eles não entendem? O clube é nosso, fazemos o que quisermos e ninguém pode dizer nada”.

Explica-se, Peter Lim, um magnata de Singapura adquiriu 70% das ações do clube em 2014.

Desde então, ele simplesmente manda e desmanda. Desde essa época, meia dúzia de treinadores comandaram a equipe, sem sucesso.

Na onda da privatização, os espertos disseram aos valencianos que a aventura empresarial lançaria o clube ao patamar de Real Madrid e Barcelona. Não aconteceu nada disso.

O novo estádio, o Nou Mestalla, está sendo erguido há 12 anos, e as obras estão paradas.

Tem setor que desmorona, empresa que abandona, roubo de equipamentos, lavagem de dinheiro e um monte de outras tramoias. É um bom exemplo de privatização bandida e de desastre estrutural.

Existe um mito neoliberal de que tudo que é público ou associativo é ruim. E de que todo empreendimento privado é bom, funcional e lucrativo.

Repete-se tanto essa ideia que ela se impregnou na cabeça do cidadão comum, por meio do chamado “viés de confirmação”.

Boas iniciativas privadas são exaltadas, exageradas e ocupam o topo da memória. Os sucessos públicos e associativos, ao contrário, são questionados, relativizados e devolvidos à lata de lixo da memória de julgamento.

Transformar um clube associativo em empresa começa com um roubo, porque trai a disposição, o propósito e o investimento de gerações de fãs que contribuíram para estabelecer uma marca, uma história e um patrimônio.

O pior é que se trata de um caminho sem volta. Clubes que viram empresas e passam a ter donos, mesmo quando fracassam, não voltam a pertencer a seus legítimos proprietários originais. Entregar na mão de um bandido pode ser para sempre.

Mesmo com todas as suas falhas, os sistemas atuais ainda permitem que gangues e máfias sejam desbancadas e afastadas de suas funções.

O projeto aqui no Tatuapé era (talvez ainda seja) manipular as cartas do baralho para vender o Corinthians, e seu patrimônio construído por milhões e milhões de apaixonados.

Esse roubo, numa de suas versões, pretendia entregar o clube a um conglomerado sob controle dos irmãos Garcia.

Lógico que há sempre aquele bla-bla-bla enrolatório que acena com um conselho paralelo de torcedores. Ou mesmo a ideia falsa de que manter 51% das ações garantiria alguma proteção contra os interesses dos tubarões.

Na verdade, a regra é o domínio do interesse capitalista na obtenção de lucro, não importa por quais meios. Por isso, os Estados Unidos têm clubes que mudam de nome, de cores e até de cidade.

No caso do Corinthians, imaginem se o sistema estivesse em vigor no início da década de 2000.

O clube poderia ter sido adquirido pela Máfia Russa e possivelmente minguaria, seria sucateado e talvez tivesse baixado as portas. Ou, pior, poderia ter sido repassado para o dono de um rival.

Hoje, poderíamos estar vendo a absorção do clube de Parque São Jorge por uma Crefisa também dona do Palmeiras.

Os iludidos do mercado dizem que é a única solução. É o caso de associados, conselheiros e torcedores de Cruzeiro e Vasco.

E é justamente esse sucateamento planejado que induz a essa solução. Quando o ladrão capitalista quer roubar um bem público ou associativo, investe pesadamente no sucateamento e “chora” lágrimas de crocodilo, argumentando que não há outra solução, exceto vender.

Foi o que o delinquente João Doria fez com o seu, o meu, o nosso Pacaembu, que agora é apenas o Pacaembu deles.

O governador e sua gangue simplesmente negligenciaram a manutenção do estádio. Jogos eram paralisados por falta de energia elétrica. As calhas estavam entupidas e a manutenção do sistema hidráulico foi propositalmente paralisada.

Obsolescência e destruição programadas: foi o que concluiu nosso grupo cidadão que lutava contra a privatização.

Como o fetiche da privatização tem vigor e amplitude, a população permitiu que o investimento de gerações fosse tungado por preço de banana, pouco mais de R$ 100 milhões. Os ricos predadores estouraram champagnes para comemorar o negócio da China.

O torcedor padrão, mal informado ou enfeitiçado pelo mercado, sonha sempre em ter um Bayern ou um City, seja no Parque São Jorge, seja em São Januário.

Para cada caso de sucesso, no entanto, há inúmeros outros de fracassos ocultos e silenciados. Vá procurar o Figueirense, por exemplo, por algum tempo celebrado por sua suposta “gestão profissional”. Hoje, mora mal e de favor na Série C.

Em qualquer área, o sucesso não depende da natureza do status de propriedade, mas de modelos de governança transparente, competente e responsável.

O SUS, público, salvou milhões de vida nesta epidemia de Covid-19. Enquanto isso, corporações privadas, com seus interesses financeiros próprios, enterraram milhares e milhares de cidadãs e cidadãos.

Uma cidade com governo popular e participativo pode erradicar uma doença, acabar com o analfabetismo e elevar seu fundo de investimento. Há exemplos aos montes por aí, dentro e fora do Brasil.

Uma empresa privada, no entanto, pode ser a Enron, o Lehman Brothers ou a Vale. Ops! Privatizada, a Vale não se tornou a embaixada do paraíso na Terra. Na verdade, concentrou e exportou riqueza, destruiu o meio ambiente e matou centenas de pessoas.

Convém, por fim, verificar de que forma os processos de privatização, ocultos ou escancarados, criam universos de assombroso monopólio no esporte.

O campeonato alemão foi ganho nove vezes pelo mesmo clube nos últimos anos. O time da riquíssima família Agnelli conquistou nove títulos nacionais consecutivos entre 2011 e 2020. Enquanto a gestão privada inepta e arrogante enterrou o Milan.

Clubes associativos podem, sim, constituir uma governança eficiente e responsável, desde que os estatutos das instituições garantam conselhos ativos, participação democrática ampliada, transparência, compliance, auditorias regulares, planos de investimento e um projeto de utilização sustentável de recursos patrimoniais e humanos, o que inclui ativos intangíveis ligados à paixão dos torcedores.

Se a ideia é construir um futuro de glória compartilhada, esse é o caminho. Se a proposta é ajoelhar-se diante do Deus mercado e conformar-se com o triunfo ou fracasso de uma instituição com fins lucrativos, que se entregue logo aos tubarões o tesouro do esporte.

 

Walter Falceta é jornalista e um dos fundadores do Coletivo Democracia Corintiana (CDC)

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