Construir Resistência
Foto: Arquivo Pessoal

Labiríntico

Por Miriam Waidenfeld Chaves

Eram amendoados, tristes e negros.

Perseguiram-me ao longo do dia, como se tivessem me escolhido. Ao virar a esquina. Ao adentrar o shopping para comprar algo de que não precisava. Ao sentar-me para almoçar e, mais à noitinha, na hora do jantar.

No lugar do filet mignon, enxerguei aquele par de olhos. Não suplicavam. Apenas pareciam dizer “eu existo, estou aqui, na chuva, com fome.”

Aquela placidez inacessível, como o poço escuro, sagrado de minha infância. Invadiu meu sono. Meu sonho.

Tive medo de fechar os olhos. Deparar-me com um caleidoscópio de olhos de todos os jeitos. De todos os tamanhos. Cheios de remelo. Inflamados!Acusatórios, raivosos, meigos, famintos.

Olhos negros com mil pernas. Reivindicatórios! Atrás de mim, simples transeunte. Sem rumo, numa calçada de pedras portuguesas gastas. Soltas. Centenárias.

Como uma fugitiva em disparada, driblando o meu pesadelo, aqueles olhos amendoados não saíram de minhas retinas.

o se despregavam de mim. Pareciam colados àminha alma como os decalques pueris de meus cadernos escolares. Alegres e ingênuos. Mas, jánaquela época, me prevenindo de que um mundo existia para além daqueles inocentes desenhosdecalcados em águas enegrecidas do laguinho umbroso de minha infância.

E foi mesmo assim aquele dia?

Uma impressão de ter sido descoberta em minhavidinha besta. Burguesa.

Saudades de minha infância, quando ainda apenas pressentia. Quando ainda não havia me deparado com aqueles olhos negros. Aqueles olhos pertencentes a um corpo raquítico e nanico.

Miriam Waidenfeld Chaves é contista e professora da UFRJ.

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