Da Redação
O literal calvário enfrentado pelo deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) tem suscitado amplo debate nas redes sociais.
Evidente que o parlamentar foi vítima de intensa perseguição política. Ele é um militante valente, arrojado, querido por boa parte do eleitorado carioca, que lhe conferiu 78 mil votos.
Braga se notabiliza pela bravura, por não ter papas na língua, mas não é uma unanimidade na esquerda, às vezes nem no seu próprio partido.
É questionado exatamente pelas posições radicais, sobretudo pela crítica contumaz ao governo do presidente Lula, que agora se movimenta para tentar salvar o seu mandato.
Construir Resistência, tal qual o deputado, tem postura crítica em relação à conduta política do parlamentar.
Defende sem pestanejar a campanha Glauco Fica! pois ela é fundamental. Mas entende que Glauber Braga também deu a cara a tapa, demonstrando certa imaturidade política.
Tornou-se assim mais um abacaxi para o governo do presidente Lula descascar, entre tantos outros que a gestão enfrenta tendo a extrema-direita como principal adversária (quando não inimiga).
Porisso, procurou nas redes dois textos que pudessem refletir a dialética da questão do deputado Glauber Braga. Vamos a eles:
A valentia de Glauber Braga

Glauber Braga foi arrastado ao cadafalso da Comissão de Ética com a fúria seletiva de quem nunca escondeu a vocação autoritária.
O caso teve pressa, escândalo e ameaça. Glauber reagiu com o único gesto que lhe restava: a greve de fome.
Um gesto extremo, mas coerente com a escalada que se impôs. Expôs o excesso e o desequilíbrio.
Fez com que mesmo entre adversários, alguns se perguntassem: até onde vai a sanha de um Congresso que normaliza tanto o intolerável?
A greve de Glauber rompeu o silêncio constrangedor e convocou solidariedades.
Vieram do PSOL, do PT, de artistas e intelectuais, religiosos, movimentos sociais, de gente que transita pela esquerda crítica e até de figuras da base governista, como Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann. Sidônio Palmeira, homem de confiança de Lula, também se manifestou. L
Mesmo parte da direita, aquela que sabe farejar o momento político, preferiu o recuo tático à execração pública.
Em tempos de desordem moral, a coragem de Glauber forçou a modulação do espetáculo.
Foi aí que Hugo Motta, presidente do Conselho de Ética, anunciou 60 dias para a defesa. A cassação sumária deu lugar a uma pausa. Não é recuo definitivo — Motta garantiu que, ao fim do prazo, colocará em votação —, mas é uma trégua, ainda que envergonhada.
E convenhamos: não se produz esse tipo de mudança de ritmo sem que Lula tenha ao menos mexido discretamente as peças. Motta é aliado direto de Lira, e nada ali se move fora de um acordo maior.
Claro que isso gerou ruído. A ala do PSOL que se opõe frontalmente ao governo Lula diz que Lula nada fez.
A ala governista, por sua vez, vê na pausa unicamente a digital do presidente. Nem uma coisa nem outra. As duas leituras erram por excesso.
É tolice achar que Lula salvaria Glauber com um estalar de dedos. Mas também é irreal não enxergar que houve uma ação coordenada, ainda que discreta, para dar sustentação ao gesto radical do deputado fluminense — que, vale lembrar, foi um dos que mais defenderam Lula, com coragem, no momento mais sombrio de sua trajetória, durante a prisão.
Glauber foi valente. Se expôs, colocou o corpo no centro do conflito, tensionou os limites. O grupo de Lula, ao seu modo, complementou com o que tinha: influência.
Se Glauber encarnou a denúncia, os aliados do governo atuaram nos bastidores para evitar o pior. Não há contradição aqui — há uma forma, ainda rara, de complementaridade entre crítica e governabilidade. Quando feita com discernimento, uma não anula a outra.
E é justamente disso que a esquerda não pode abrir mão agora: discernimento. O que ela menos precisa, diante da brutalidade que se impõe por todos os lados, é repetir o ritual autofágico entre o sectarismo e o governismo cego.
Em vez de brigar por pureza ou por blindagem, é hora de reconhecer que há lutas que se vencem a muitas mãos.
Glauber, com sua coragem, e o governo, com sua articulação, evitaram juntos uma injustiça.
Que se aprenda com isso.
Ricardo Queiroz – Rio de Janeiro

Vitória! Vitória? Mas que vitória?
Não sei se tá todo mundo se divertindo surfando na ironia ou na maionese mesmo… Ou se fui eu quem perdi alguma coisa:
1. Adiamento não é vitória, obviamente. Glauber também retrocedeu. De uma posição mais radical que desloca o campo da política para o da sociedade, ele volta para as quatro linhas do jogo. E poderá não ter mais este trunfo.;
2. Uma conciliação com as direitas e esquerdas será de fato possível na medida em que se considere que ele não representa mais uma ameaça. E de fato, como já disse, a mais nova versão do orçamento secreto já foi aprovado com voto favorável do PT e oposição do Psol (apenas Boulos se absteve sem dar explicações públicas).
Ou seja, Lira ganhou. Manter Glauber mais *60! dias às voltas com a defesa do próprio mandato já é em si uma penalidade. Sim, até no PT tem mui amigos que acham que é correto uma punição desde que mais branda…;
3. Não duvidaria de uma trapaça da Frente Amplissima, não pregaria “Vitória” antes da hora, para não desmobilizar estas mesmas bases que se agitaram, e elevaria o tom do mandato em torno de suas causas, das lutas, das bases que representa, da luta contra os EcoGenocídios, e retrocessos trabalhistas e sociais, afirmando a importância deste mandato como um mandato popular, acumulando forças de forma a informar às direitas, inclusive aos esquerdistas de direita, que não vale a pena comprar esta briga;
4. Outros, da realpolitik, dirão exatamente o inverso na lógica da conciliação, para evitar os conflitos, não falar da questão Palestina, esquecer o orçamento secreto, esta será a verdadeira receita vitoriosa. Que vai salvar o mandato. Vitória! Vitória? Mas que vitória? Pra que? Pra quem? Alguém, como os Saltimbancos ainda pode perguntar…
Fernando Tupinambá – Rio de Janeiro











