O apagamento da história de Dom Angélico

Por Beatriz Vicentini 

O destaque que se dá é que ele celebrou o casamento de Lula e Janja, como se isso realmente tivesse alguma importância dentro de sua história

Jornalismo precisa de gente com certa idade. Com um repertório de histórias e vivências que fazem compreender o mundo numa perspectiva mais real.

Não é preconceito contra os mais jovens, os que estão começando, é apenas uma crítica ao viés limitado de quem não tem elementos do passado para análise.

Até anos atrás,  jornalistas tinham como apoio a figura do chamada “pauteiro”. Era quem definia antecipadamente quem se iria entrevistar, por exemplo, que fato se deveria transformar em publicação.

Dele se recebia quase que um roteiro prévio do que deveria se perguntar. O mais significativo é que as pautas traziam também informações básicas, essenciais, antecipadas, para os jornalistas menos experientes entenderem do que se tratava aquela reportagem, aquela entrevista.

Com a modernização dos jornais, essa figura desapareceu – e com ele o suporte mínimo que os mais jovens recebiam para ser menos limitados em seus olhares e enfoques.

Escrevo tudo isso pela surpresa e espanto que me causa a forma como se noticiou a morte do bispo D. Angélico Sândalo Bernardino.

Figura essencial no combate à ditadura, parceiro de D. Paulo Evaristo Arns como bispo auxiliar em São Paulo durante anos, com uma prática vinculada às minorias, com vivência nas periferias em constante apoio à luta de operários (foi inclusive responsável pela Pastoral Operária em SP), fazer um obituário dele não seria coisa simples, admito.

No entanto, o destaque que se dá é que ele celebrou o casamento de Lula e Janja, como se isso realmente tivesse alguma importância dentro de sua história religiosa de compromisso, trabalho e atuação dentro de uma Igreja que nem sempre se alinhava aos oprimidos.

Não me parece ser apenas uma orientação de caráter ideológico dos jornalões e dos meios de comunicação mais tradicionais. Me fica a sensação que é ignorância mesmo, desconhecimento de sua importância na história do país em sua luta contra a opressão, a violência, a tortura, os desaparecimentos, o cala boca que se fez forte durante anos.

Como será que ele sentiria vendo-se reduzido, após a morte, ao amigo de longa data de Lula?

Beatriz Vicentini é jornalista

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