O velório bolsonarista

Por Júlio Benchimol Pinto 

As coletivas de Flávio Bolsonaro já não parecem coletivas; parecem velórios com microfone.

Os aliados ficam ao lado dele com aquela expressão de quem descobriu, no meio do enterro, que o defunto ainda deve dinheiro ao buffet.

O problema, para muitos deles, nem parece ser Flávio ter mentido aos eleitores. Isso, no bolsonarismo, virou quase método administrativo. O choque real é outro: ele também teria mentido para os próprios aliados.

Disse que não havia relação relevante com Daniel Vorcaro. Depois vieram os áudios. Vieram os milhões.

Veio o “irmão”. Veio a produtora negando ter recebido dinheiro do Banco Master.

Veio a visita ao banqueiro depois da prisão, quando Vorcaro já estava de tornozeleira eletrônica.

Aí o semblante mudou: não era mais indignação moral; era cálculo funerário.

Como se livrar de Flávio sem perder Jair? Como abandonar o filho sem irritar o pai? Como fingir surpresa sem admitir que embarcaram numa candidatura montada sobre ocultação, improviso e explicações remendadas?

Um aliado chamou de molecagem. Foi generoso. Molecagem é colar na prova.

Pedir milhões a banqueiro investigado, negar intimidade, chamar de irmão, visitar o sujeito monitorado pela Justiça e depois tentar vender tudo como patrocínio cultural exige outro departamento.

O bolsonarismo agora vive seu dilema de inventário: Flávio virou passivo eleitoral, mas Jair ainda é o ativo tóxico que ninguém pode largar.

Por isso o clima é de velório.

Só falta decidir quem vai carregar o caixão da candidatura sem deixar cair a tornozeleira no caminho.

Contribuição para o Construir Resistência ->

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *