Construir Resistência

11 de julho de 2021

Anjinho

Por Miriam Waidenfeld Chaves Alice corria mais do que suas pernas. Pelo menos era o que sua mãe dizia quando a via brincando na frente da casa onde moravam. No queimado e na bandeirinha, não tinha para ninguém. Todo mundo queria fazer parte de seu time. Até os meninos. Também, levou muito tombo. E nesses momentos, dava razão para a mãe, pois parecia que suas pernas não a acompanhavam. Aí, tropeçava nela mesma e caía. Colocava mertiolate no joelho, ardia, soprava e já estava pronta para outra. Na escola, era uma aluna média. Detestava matemática. Era da turma da história e geografia. Nessas aulas, só queria saber do rio Nilo e do rio Danúbio. Mas era fã mesmo do mar Negro, pois até onde ela sabia, todo mar só poderia ser azul ou verde. Daí, concluía que esse mar deveria ser mesmo muito diferente. É que Alice, não sabia bem por que, adorava tudo que era fora do comum. Diferente do que estava acostumada a ver. Quanto mais estranha a coisa, mais ela gostava. Parece que a estranheza das coisas aguçava a sua fantasia, e daí ela perdia horas imaginando como seria essa coisa tão diferente. Sua mãe às vezes a pegava com o caderno aberto, olhando perdida para o nada. E aí, sorrindo, dizia: – Termina o dever de casa primeiro, depois sonha, filha. Alice também tinha verdadeiro fascínio pelo fenômeno das pororocas. Ficava a imaginar o tamanho das ondas, fruto do encontro do rio Amazonas com o oceano Atlântico. E quando D. Neiva descreveu  como acontecia a junção dessas águas, ela concluiu que a Natureza era algo muito lindo de esquisito. Mas, por falar no rio Amazonas, Alice tinha predileção mesmo era pelo seu afluente, o rio Trombetas. Achava muito engraçado esse nome. Nome do instrumento musical que André tocava na banda da escola. Outra coisa que a fascinava eram os faraós. Mas quando soube que seus empregados, escribas e animais eram sacrificados para também serem enterrados junto com eles nas pirâmides, achou os faraós muito maus. Largou-os de lado e passou a admirar Cristovão Colombo, por já naquela época acreditar que a Terra era redonda. Ela, inclusive, adorou saber que foi esse seu herói quem primeiro chegou às Américas navegando pelo Atlântico.  A  partir daí, ficou obcecada pelas caravelas. Queria porque queria conhecer uma. Alice também adorava ir à praia. Lá, com as amigas, catava muitos tatuís, que ficavam num balde, coitadinhos, até morrer. Às vezes, o mar amanhecia coalhado de  algas transparentes e gelatinosas, que ela sempre tentava  pegar com a palma da mão, para em seguida deixá-las escorrer pelos dedos até  a água do mar novamente. Achava os tatuís e as algas seres muito esquisitos. Nos fins de semana, seu programa predileto era quando sua mãe a levava junto com o irmão ao cinema. Adorava assistir Marcelino pão e vinho. Mas ela gostou mesmo foi de Os dez mandamentos. Assistiu duas vezes, só para rever a cena de Moisés abrindo o mar Vermelho. Outro nome estranho para um mar, pensava. Em casa, ficava radiante quando sua mãe decidia fazer pé-de-moleque. Ao sentir o cheiro do doce na cozinha, largava o dever de casa e saía correndo para assistir  a mãe derramar na bancada da pia gelada aquele doce escuro, cor de rapadura, pelando e molengo. Ali ficava até esfriar, quando começava a melhor parte da brincadeira: cortava o doce em losangos e os colocava bem direitinho – um em cima do outro – no prato inglês, todo pintado de moranguinhos. Alice era feliz, mas tinha um segredo: sonhava em ser anjinho na procissão de Corpus Cristi do colégio. Queria sair pelas ruas do bairro vestida naquela espécie de batina branca  cheia de galões dourados nas mangas, com o Sagrado Coração de Jesus bordado no peito. Queria, principalmente, sentir as asinhas nas suas costas se movimentando toda vez que mexesse com os braços. Via-se como uma personagem de suas histórias fantasmagóricas, andando pela avenida junto com o sacerdote e André com sua túnica vermelha coberta por uma bata de renda branca. Ele, com o turíbulo, espalhando incenso, e ela batendo as asinhas, querendo voar. Mas Alice não sabia muito bem por que nunca fora escolhida para essa empreitada. Heloisa, Marília e Vera já tinham sido anjinhos. Menos ela.  Talvez a professora de catecismo a achasse muito  desengonçada e isso, provavelmente, poderia atrapalhar o cortejo. Depois, quando Alice, aos onze anos, fez sua Primeira Comunhão, teve a certeza de que nunca mais poderia ser um anjinho, pois essa tarefa  era apenas reservada para aqueles que ainda não tinham recebido o Corpo de Cristo. Alice, então, passou o resto desse ano  acabrunhada. Triste que nem só. Mas,  logo veio o Natal, o Ano Novo e as férias. Até que, em fevereiro, sua mãe lhe perguntou qual seria sua fantasia para o carnaval. Sem hesitar, gritou cheia de certeza: – Anjinho! E as asinhas têm que se mexer. Quando o grande dia chegou, Alice se olhou no espelho e achou que aquela era a fantasia mais bonita que já tivera. Muito mais bonita que a fantasia de cigana que havia herdado da prima Anita. Foi radiante para a matinê no clube. Atravessou o bairro com os pais e o irmão como se estivesse no céu, de tanta alegria. Bateu muito as suas asinhas. No clube, foi uma sensação. Ninguém até aquele momento tinha tido essa ideia. Porém, depois de uma hora pulando e correndo para lá e para cá, desistiu das asinhas e disse: – Mãe, segura essas asinhas para mim, porque elas estão me impedindo de correr!   Miriam W. Chaves é contista e professora da UFRJ

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Débora Duboc:”Lula, você é exemplo com a sua coragem e fé no Brasil”

Por Débora Duboc Foto Ricardo Stuckert   Hoje tivemos um encontro com Lula. Pediram que eu fizesse uma fala, eu sabia que estaria muito emocionada e resolvi escrever, para não me perder e foi isso que eu lhe disse, acredito que dando voz a muitas pessoas:   “Amado Lula, Presidente do nosso coração. Eu gostaria que você tivesse a dimensão da participação dos artistas na luta pela Democracia e por Lula Livre. Tivemos grandes eventos, como o Festival Lula Livre, mas diariamente milhares de artistas por todo o pais faziam ações por sua justa liberdade. Eu mesma participei de um Núcleo do Teatro pela Democracia e Lula Livre, e em vários dias da semana, íamos para a rua, éramos várias artistas na fila dos remédios no HC, no Anhangabau, no Minhocão, e com pranchetas, papéis e canetas perguntávamos para pessoas se elas queriam escrever uma carta para o Lula. Foi uma experiencia sensacional. Vimos muitas palavras de indignação por sua injusta prisão e ouvimos frases de gratidão por terem vivido nos Governos Populares um País da Oportunidade, que celebrava a Diferença, a Prosperidade, a Alegria. Muitas cartas foram ditadas e confesso que tivemos uma escuta que se emocionava a cada palavra de encanto pela constatação da real possibilidade de um outro Brasil. Batizamos essa ação de Central de Cartas Lula Livre, em referência ao filme Central do Brasil, em que nossa Matriarca Fernanda Montenegro, faz a personagem Dora, uma professora aposentada que trabalha como escritora de cartas para pessoas analfabetas. Essa ação acabou acontecendo em todo país. E nós, todas as semanas, levávamos essas cartas até o Instituto Lula porque queríamos a certeza de que elas chegariam até você. Os artistas encontraram nesse Governo Genocida a perseguição e a perversidade em nosso dia dia, fomos castigados também pela pandemia, porque fomos os primeiros a parar de trabalhar e seremos os últimos a voltar. E mesmo com tantas adversidades, como a personagem Hamlet, estamos prontos. Queremos enfrentar a Cultura da Violência, Fascista que quer distruir o encanto, a beleza, a riqueza de nosso povo e país. Lula você sonhava com 3 refeições na mesa de todos os brasileiros e brasileiras, e conseguiu esse fenômeno. Eu gostaria agora de sonhar com 4 Refeições, e essa quarta refeição é a Arte e a Cultura que vai alimentar a Alma Brasileira. A Educação ela pode ser opressora, autoritária, mas se ela estiver aliada a arte e a cultura, ela será Libertária. Quem leu O Rei da Vela de Oswald de Andrade ou assistiu a peça, será outra pessoa. A Arte é um passaporte muito rápido para a compreensão do mundo através de outras perspectivas. Ela rapidamente traz elementos que constroem um pensamento crítico, libertário, uma inteligência sensível, solidária. Lula, você foi um exemplo para todos nós com a sua coragem e fé no nosso Brasil. Seguíamos as tuas leituras no Cárcere e aprendíamos como a riqueza da literatura te trazia transformação e saude mental. Muitas pessoas foram ler A Elite do Atraso, do Jessé de Souza, porque você estava lendo e entenderam o que significa a Escravidão como estrutura perversa das relações no Brasil. Queremos um país que as pessoas possam sim ter sua geladeira, seu liquidificador, é digno, mas que tenham pulsando forte em seus corações o desejo por um bom livro, o desejo de irem ao Teatro, de fazerem também arte, música, o desejo de terem um pensamento livre, que não caia mais no conto de golpes e de genocidas. Temos um Patrimônio dentro da Cinemateca e ele tem que chegar às pessoas. Somos nós nas telas. Eu, aliás, acho que falo por muitos, sonhamos por um pacto nacional pela Educação e pela Arte. Carlito Maiá dizia: “Não precisamos de muita coisa, apenas uns dos outros.” Viva a Alma Brasileira, Vivam os Artistas, o Conhecimento, a Arte! Viva Lula que É Livre”.   Jane Duboc é atriz

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