Por Virgilio Almansur
Eu posso falar bem de um estadista simplesmente por ele ser um estadista. Eu posso elogiar um adversário, mesmo tendo sido companheiro admirável, encerrando seu governo nos braços do povo (87% de aprovação!). Eu posso fazer os inúmeros elogios ao concorrente e dele beneficiar-me por uma aliança de princípios.
No entanto, tudo isso já correspondeu a um investimento, a uma energia que carrega certo erotismo cujo objeto transborda explícita ou implicitamente. São componentes libidinosos em jogo… Energias!
Mas se eu não obtiver desse objeto, correspondência imediata, preciso aniquilá-lo, tanta a desordem que me fica pela sensação de exclusão, quase abandono. Daí ao suicídio, um pulo… Agrido em mim a parte daquele que me traiu, frustrou… Mesmo na fantasia…
Ciro acusa uma traição em relação à Lula, em 18! Será que ele nunca soube lidar com uma “puta velha”, um animal político forjado no aço e conhecedor maior das mumunhas de nossas intimidades? Reparar um objeto distanciado, antes tido como um ideal de modelo, é, antes de mais nada, não entendê-lo enquanto modelo ideal. Haja vista que é preciso enfrentar os afetos mais primitivos, a inveja em especial.
Ciro pedeu uma grande chance, quando não aceitou ser vice de Lula, sabedor que ele seria o herdeiro momentâneo com possibilidades que um professor de Direito não poderia (deveria?) ignorar; sabedor das mínimas chances do ex presidente, cercado pelos militares e STF covarde, Lula haveria de pegar cana mais longa. Pegou 580 dias!
Ciro governaria soberano: vice e presidente — caso chegasse lá — ao mesmo tempo.
A transformação do ideal de Ciro para com Lula, também passou a convertê-lo no Ciro ideal: aquele mesmo que não fugiria às nuances de seu próprio umbigo. Esperou um Lula abatido. Lula mostrou-lhe a coxa.
Nesse imbróglio todo, o homem de Caetés, Garanhuns, tem um narcisismo regulado. Todo o esplendor de suas conquistas apenas transformou uma meia furada numa simples: costurada ou nova. As gritas narcísicas são moderadas. Suas injúrias assimiladas. E como…
Ciro, detentor do nosso coronelismo, ficou como um capataz desrespeitado, agredido em seu narcisismo buliçoso de menino mimado, diferente do verdadeiro nordestino sofrido, daquele agreste sertão árido e carente.
A integridade de Lula não está na honestidade beata ou não. Sua inteireza na conquista pelo poder, não dista dos demais que têm como meta serví-lo; carrega os vícios insanáveis advindos de seus pares ontológicos, idênticos nos princípios mas com uma diferença: uma certa consciência de classe entranhada que faz de si mesmo um simples serviçal. Seu deslumbre tão somente o coloca ao lado dos poderosos sem tornar-se um deles.
A pecha de ex-presidiário (cachaceiro e larápio), um “detento menor” como qualificação vagabunda, jamais alcançará o infortúnio do tão somente detido ou preso, de um cunha super beneficiado pelo sistema, preso em casa, mas preso, como Marcelo Odebrecht, nunca presidiário ou ex como agora. Não! Nem nunca será um “rouba mas faz” de outro figurino…
Há um fardo que a Folha de São Paulo ousou apresentar em seu editorial recente, mas quer se isentar de ter ampliado o “Fardo de Lula”que historicamente carrega: o de ficar restrito em sua senzala. A FSP quer porque quer capturar um nome limpinho e cheiroso, assim como as organizações Globo.
Enquanto o “perdeu-playboy” busca seu personal-stylist-politic em João Santana, treina às turras com seu próprio eu um modus operandi meio fora da casinha, tentando dar um colorido leve e sensual — ao estilo cirinho paz e amor — que nenhum organizador marqueteiro pode dar.
No primeiro comentário, artigo da Profa. Sonia Castro Lopes para o Construir Resistência, haverá mais luz a esse processo todo. Lá não vi nenhuma menção ao sobralense de Pindamonhangaba, um pindense, a chamada Capital Nacional da Reciclagem, de cujo interior paulista poderá ser alijado indo para o mesmo lugar de Lula, um discriminado serviçal.
Lula já fez seu percurso. Não voltará à Caetés — mais pelas contingências. Ciro vive num limbo, numa apatridia que até a cobertura de São Bernardo poderá recebê-lo. Daí… serão outros 500!
Virgilio Almansur é médico, advogado e escritor.











