Ricardo Nunes reproduz “Operação Camanducaia” feita na ditadura

Por Simão Zygband 

O prefeito Ricardo Nunes pratica em São Paulo uma política deliberada de ocultação da pobreza e da dependência química, sobretudo nas áreas centrais.

As denúncias são extremamente graves. Há notícias de que os moradores em situação de rua estão sendo levados para a região do Ceagesp, ao município de Guarulhos e até mesmo para cidades do litoral norte, como Caraguatatuba e São Sebastião.

Nunes quer fazer de conta que a cidade está “limpa” dos dependentes químicos e os chamados “nóias” não mais circulam pelas ruas centrais de São Paulo. Graças a ações “higienistas” do governo de extrema-direita que  governa a cidade.

O problema é extremamente grave e não se sabe se Ricardo Nunes possui politica deliberada de invizibilização dos dependentes químicos, a quem deveria ter sido oferecido a possibilidade de tratamento físico, psicológico e psiquiátrico, além de oportunidades de trabalho.

“É a maneira mais fácil de se livrar dos usuários de drogas. Há noticias de que eles teriam  migrado para a recém-formada, invisível e gigantesca Cracolândia que está se formando na região do Ceagesp, onde predomina o abandono humanitário e isolamento social”, denuncia uma liderança dos moradores de rua que preferiu não se identificar.

Política higienista

Para o sociólogo Marco Maia, a prefeitura de São Paulo e o governo estadual fazem uma política “desastrosa, desumana e higienista” em relação à Cracolândia, no centro da capital.

Segundo o sociólogo, fundador do Pagode na Lata, coletivo que atua com cultura, geração de renda e redução de danos junto à população usuária de drogas da região, o grupo  recebe denúncias recorrentes de usuários da Cracolândia sendo jogados dentro de furgões e levados, sem consentimento, para clínicas no interior do estado de São Paulo.

“Isso não pode acontecer. Nós estamos vivendo um estado de exceção na cidade de São Paulo, com esse governador e esse prefeito seguindo a linha do fascismo”, protesta.

“Espalham as pessoas da Cracolândia na porrada, então elas começam a andar e não podem nem parar, sequer para tomar água, comer e ir ao banheiro, porque tem carros acompanhando esse movimento”, relata. Para ele, essa é uma “tática avançada de tortura”, que visa propaganda política.

O próprio padre Julio Lancellotti, da Pastoral da população de rua, denúncia que muitos dependentes químicos da Cracolândia foram abandonados no bairro Parque Santos Dumont, em Guarulhos.

O bairro da região metropolitana de São Paulo fica a mais de 30 quilômetros de distância de onde se localizava a Cracolândia, no cruzamento da Rua General Couto de Magalhães com Rua dos Protestantes, na Santa Efigênia.

Mello Araújo

De acordo com reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, o vice-prefeito Mello Araújo (PL) afirmou que duas ações retiraram 120 usuários da Cracolândia.

A primeira aconteceu na segunda-feira (12), com o deslocamento de 80 pessoas, e outras 42 pessoas na terça-feira (13).

A ação aconteceu com apoio da Guarda Municipal e do Batalhão de Choque da Polícia Militar (PM), com cães farejadores.

O vice-prefeito Mello Araújo alega que “eles saem voluntariamente porque sabem que vão para lugares em melhores condições”.

Operação Camanducaia

Operação Camanducaia – acervo pessoal Solange Fernandes

A política de Ricardo Nunes e de seu vice, Mello Araújo, faz lembrar um sombrio episódio ocorrido no regime militar, quando policiais do Deic (Departamento Estadual de Investigação Criminal) decidiram se livrar dos menores infratores.

Desta forma, se realizou de maneira clandestina a “Operação Camanducaia”, ocorrida  em 1974,  quando policiais de São Paulo prenderam 93 crianças e adolescentes acusados de pequenos delitos. Eles foram despidos, espancados e jogados em um barranco perto da cidade de Camanducaia, localizada no sul do estado de Minas Gerais.

Apenas 41 deles apareceram na cidade na manhã seguinte, machucados, nus e esfomeados, invadindo bares e restaurantes à procura de roupas e comida. Os outros 52 jovens continuam até hoje com o paradeiro desconhecido.

Simão Zygband é jornalista veterano e editor do site Construir Resistência

Faça sua doação para o Construir Resistência 

Use o pix 11 911902628 ou o link abaixo para doar qualquer quantia 👇👇👇👇

Contribuição para o Construir Resistência ->

Respostas de 2

  1. Matérias que se referem a episódios históricos são as minhas preferidas porque destacam a permanência de ideias políticas que o cidadão comum imagina sepultadas. Parabéns, Simão Zygband, por ser um jornalista com memória. Modestamente, também sou uma.
    Só recordando para destacar responsabilidades
    1974
    Governador do Estado SP: Laudo Natel [15.mar.1974 – 15.mar.1975], biônico, nomeado pelo general Emílio
    Médici.
    Secretário de Segurança Pública: Erasmo Dias [assumiu o cargo em abril de 1974]. Coronel da Artilharia então na ativa.
    Prefeito de São Paulo: Miguel Colassuono [1973 a 1975]

    1. Vc tem razão Fernanda. Fiz a retificação. Na minha cabeça, está vergonhosa operação foi feita pelo Maluf. Mas foi realizada por extremistas como ele. Obrigado pela correção

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *