Por Henrique Samet
A Federação Israelita do Estado de São Paulo fez esta pergunta ao atual governo do Brasil. A Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro fez nota atacando um professor universitário, por ele repetir o que é obvio na opinião pública internacional e grande parte dos governantes de países ocidentais.
A Stand Up With Us publicou uma nota de página inteira no O Globo atacando a política externa brasileira com relação aos reféns israelenses em Gaza e finalmente a Aliança Internacional em Memória do Holocausto (IHRA) publicou um manifesto também de página inteira atacando respeitosamente o governo brasileiro por sair desta aliança.
Tudo isto ocorre ao mesmo tempo em que o Brasil sofre o tarifaço e Gaza é objeto de um noticiário abundante no mundo em virtude da situação humanitária da população local e do projeto do atual governo israelense de prosseguir a guerra e ocupar cem por cento da Faixa.
Acho estranhas estas manifestações quase simultâneas neste momento que no meu entender demonstram uma insensibilidade seletiva perante a própria herança da vivência histórica dos judeus. Ou é falta de percepção de timing ou é justo seu excesso devido às circunstâncias…
Federação foi o termo utilizado no pós Segunda Guerra para expressar a reunião de diferentes organizações da comunidade judaica no Brasil.
Federação foi a união de diferenças, de autonomias societárias procurando consensos possíveis.
E eis que agora vejo estas entidades como uma espécie de partido único não dando vazão as diferentes posições que judeus brasileiros têm a respeito do que acontece no Brasil e no Mundo.
Acho que é significativo o fato da lista Meretz composta de judeus brasileiros que têm vergonha na cara, ter sido vencedora da Campanha para enviar delegações ao Congresso Sionista Mundial, evidenciando assim que nem todos são “Maria vai com as outras”.
Olha que me considero sionista “roxo”, mas nunca achei que as organizações judaicas devessem ser linha auxiliar obrigatória de governos israelenses, mas sim do direito de existência com Estado de Israel e sua legitimidade no mundo.
Logo, deveriam se manifestar contra aqueles que estão corroendo sua legitimidade através de atos condenáveis.
Depois do ataque do Hamas em sete de outubro reivindiquei o direito de defesa do Estado perante um ataque terrorista daquela proporção, mas o que vemos hoje não é isto, mas sim um ataque cruel a população de Gaza sob pretexto de combater um Hamas já antecipadamente derrotado militarmente.
E olha, quem está comigo é parte da própria população israelense se manifestando dia a dia contra este governo e por mais obvio possível a própria alta hierarquia do exército israelense se pondo contra os planos do Bibi. Quer mais?
Pelas manifestações acima citadas, percebemos um autismo suspeito. Eu teria dúvidas frente a complicada situação do Brasil com as intromissões estrangeiras indevidas, fazer coro justamente agora, direta ou indiretamente, com esta corja bolsonarista de evidente inspiração extremista e não se enganem, também antissemita visceral.
Defensores uma Israel legitimada mundialmente e lutadores contra o antissemitismo, venha de onde vier, devem criticar o governo israelense e suas ações desastrosas e são aqueles que vão a luta nos meios adversos. Não são os oficialistas que se disfarçam de falsos indignados.
E volto a perguntar:
QUEM ESTARÁ DO LADO CERTO DA HISTÓRIA?

Henrique Samet é historiador e professor adjunto na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com ênfase em Língua e Literatura Hebraica.
Nota da Redação – este texto não representa necessariamente a opinião de Construir Resistência, mas se aproxima

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