Por Sérgio Brito
Todo brasileiro sabe ( ou deveria saber ) que Fernanda Torres é uma das maiores atrizes em atividade no planeta.
Apesar disso, faltava poder ver o mundo corroborando esse fato óbvio numa premiação da magnitude do Golden Globe.
Para eu assistir a “Ainda Estou Aqui” foi uma experiência muito especial por pelo menos três bons motivos.
Em primeiro lugar pela excelência do filme em si – direção, figurinos, cenografia e elenco impecáveis e, como se não bastasse, pelo menos duas performances antológicas.
A Nanda está espetacular, claro, mas Selton Melo também fez história, seu desempenho é irretocável.

O segundo motivo é bem mais pessoal e tem ver com a história da minha família.
Como alguns de vocês sabem, passei uma boa parte da minha infância e adolescência no Chile acompanhando o exílio do meu pai, Almino Affonso.
Ele e Rubens Paiva eram amigos muito próximos, meu pai costuma dizer que eram como se fossem irmãos.
Pois bem, em 1971, ainda em plena ditadura militar, havíamos planejado voltar ao Brasil – em certo momento já estávamos com todos os nossos pertences encaixotados prontos para a volta, com passagens compradas etc.
Então, alguns dias antes da data da viagem veio o baque… Ainda lembro do meu pai chegando em casa dizendo aflito: “ O Rubens “sumiu”.
Obviamente a nossa volta foi abortada. Apartir dali ficamos acompanhando eu e meus irmãos angustiados o “sumiço” do Rubens. Nossos pais sabiam muito bem o que aquilo significava…
Inevitável todas essas lembranças virem à tona assistindo ao filme.
Ver aquela família sendo destruída numa trama kafkiana e tenebrosa e que, apesar disso, encontra forças para reinventar a vida em meio a tantas dificuldades, é algo lindo, tanto no filme quanto foi em realidade.
Vejo em Eunice a mesma força e determinação que via em minha mãe Lygia que segurou a barra ( para começo de conversa ) sozinha no Brasil com três filhos e grávida de um quarto, enquanto o meu pai escapava da polícia em Brasília rumo à embaixada da Hungria e depois em direção a um longo exílio.
Para finalizar – há alguns anos os Titãs fizeram uma ópera rock intitulada “Doze Flores Amarelas” e o script foi feito em parceria com o Marcelo Rubens Paiva ( o escritor do livro que deu origem ao filme e filho do Rubens ) e o Hugo Possolo ator, diretor e fundador dos Parlapatões.
Devo confessar que para mim esse encontro teve também um sabor especial e que, apesar de não termos ficado exatamente próximos, o fato de termos trabalhado juntos foi como realizar uma pequena homenagem à amizade dos nossos pais.
Em meio a esse turbilhão de sensações o que ficou em mim do filme, para além de qualquer consideração de caráter ideológico, é a certeza de que regimes totalitários são e sempre serão execráveis e desprezíveis.
Acredito que essa é a tônica do filme. Isso somado à elegância e a força de sua personagem central. É com certeza um filme indispensável e pacificador.
Enfim… Vejam o filme, leiam o livro, pensem no Brasil e se emocionem!
Foto de capa: acervo de família. Sérgio Brito, recém chegado do Chile, é o cabeludo à esquerda

Sérgio Brito é músico do grupo Titãs

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