Marcha para Jesus e Parada Gay se encontram na hipocrisia

Uma denuncia a homofobia e louva teocracias; outra apoia Israel e combate suas conquistas 

Em menos de uma semana, São Paulo foi palco de dois eventos grandiosos, a Marcha para Jesus e a Parada do Orgulho LGBTQIA+. Duas manifestações de fé, uma na religião, outra na liberdade.

Ambas lotadas, com políticos disputando selfies e curtidas, e parte de seus públicos unida por dissonância cognitiva e oportunismo.

Na Parada, cartazes denunciavam homofobia ao lado de gritos de apoio ao Irã, país onde homossexuais são enforcados ou atirados do alto de prédios.

A cirurgia de redesignação de gênero virou política de Estado, não por respeito à identidade, mas como alternativa à execução. O sujeito pode “virar mulher” ou morrer. Isso não é avanço, é perversão institucionalizada.

Manifestantes empunhavam símbolos de regimes teocráticos que perseguem mulheres por não usarem véu, por quererem estudar, protestar ou simplesmente existir.

Fecham os olhos e ignoram o que acontece, por exemplo, no Afeganistão desde que o Talibã reassumiu o controle e apagou o feminino da vida pública

O mundo reagiu com gritaria, notas de repúdio e silêncio subsequente. Hoje, meninas estão proibidas de frequentar a escola depois de certa idade, mas o trending topic já mudou.

Nesse contexto, ninguém pergunta que tipo de sociedade será construída em Gaza “do rio ao mar”, como pregam os apoiadores de teocracias.

O que será feito das mulheres, dos gays, das dissidências? Se for para repetir a lógica de Teerã ou Cabul, é só trocar o ocupante e manter o grilhão.

 

A direita também não decepciona: levanta com fervor a bandeira israelense enquanto combate por aqui tudo o que Israel já conquistou. Estado laico, maconha medicinal, leis de igualdade de oportunidades. O aborto, proibido no papel, tem acesso amplo.

Casais homossexuais têm direito a adotar filhos, herança, pensão. Tudo o que é rotina lá, é heresia aqui para a direita. A incoerência virou método, não falha de percurso.

Ninguém está disposto a raciocinar, apenas a pertencer. Ser aceitos pela bolha, pela hashtag, pela claque. Coerência virou um estorvo moral que não rende curtida nem palanque.

Mariliz Pereira Jorge é jornalista e produtora de TV

 

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