A alegria move a luta por um mundo melhor

Por Beatriz Herkenhoff

Em tempos tão difíceis, em que a ansiedade, o medo, a impotência, a raiva, a indignação, o desânimo e a tristeza passaram a fazer parte do nosso cotidiano, quero contar duas histórias que resgatam a alegria de viver. Aconteceram em 2017, período em que não imaginávamos que viveríamos um isolamento e um distanciamento social prolongado.
Eu e minha amiga Nildete decidimos ir ao #Turkzoo (Vitória, ES) dançar ao som de três bandas imperdíveis: #Bemtivi (ES), #Macucos (ES) e #Xamego (Amapá). Sabíamos que predominaria um público jovem, mas achávamos que também encontraríamos “jovens senhores” da nossa idade (60 anos na ocasião).
Com a pontualidade britânica que nos é tão peculiar, chegamos às 22h no Turkzoo. Fomos as primeiras e únicas! A casa lotou duas horas depois. Mas, esse mico foi a nossa salvação.
Para nosso desespero, não tinham mesas, nem cadeiras naquele lugar. Como passar a noite sem direito a sentar? Começamos a negociação. Achamos uma mesa num cantinho, solicitamos que fosse colocada perto do palco.
E os responsáveis pelo evento diziam:
“Mas, não existe isso. Aqui não tem lugar para mesas!”.
Claro que a partir dessa afirmação, a ficha caiu: estávamos no lugar errado? Ou era o lugar certo para vivermos uma noite bem alegre, descontraída e divertida?
A primeira conquista: conseguimos a mesa com duas cadeiras! A questão não era sentar durante o show, pelo contrário, dançamos a noite toda! A questão era sentar enquanto o show não começava ou sentar entre a apresentação de uma banda e outra! Intervalo prolongado que só acontece em festas para jovens.
Essa é a lógica: “A noite é uma criança.”
Como não havia chegado mais ninguém, fomos ao caixa comprar fichas, evitando assim enfrentarmos filas mais tarde. Nessas festas não existem garçons! Claro que esse detalhe é obvio apenas para os jovens que estão lendo essa história.
Qual a outra surpresa? Não tinha quitutes, apenas cachorro quente! Só aí, descobrimos que não apareceria mais ninguém da nossa idade. Estávamos verdadeiramente numa festa de jovens.
Minha amiga foi comprar o cachorro quente e voltou toda entusiasmada com a simpatia do vendedor. Ele disse que aquele era o melhor cachorro quente da cidade, e que ela voltaria para comprar outro. Quando eu fui pegar mais um cachorro quente, duas horas mais tarde, o vendedor disse: “bem que eu falei para sua amiga que vocês iriam gostar.”
Mas, como? Como ele sabia quem era a minha amiga? Como fez essa associação numa festa com mais de 300 jovens?
Essa é a questão! Nós éramos as únicas não tão jovens!
A banda Bentivi começou a tocar forró e tudo virou mágica! Flutuamos, voamos, dançamos, nos deliciamos com tanta beleza! Eles são bons demais! Música de qualidade e diversão garantida. Enquanto dançávamos, uma jovem se aproximou e disse:
“Como vocês são lindas! Quem dera se minha mãe tivesse essa alegria e animação.”
Saímos renovadas, rimos e dançamos muito! E concluímos que o limite entre as idades é tênue! Jovens podem estar envelhecidos e “idosos” podem ter espírito jovem.
Vou dar continuidade à prosa, com outra história que também resgata a ousadia de viver o novo que se apresenta inesperadamente.
Um bom café move montanhas
Um período depois da experiência no Turkzoon, fui convidada por um “pretendente” (que é nadador na #CurvadaJurema há anos) para nadar às 5h40m. Contei para as amigas que disseram:
“Eu não iria nunca”; “meu sono é sagrado”; “é ousado demais para a minha rotina”. Claro que aceitei o convite e foi uma experiência fantástica!
Amo praia e nunca mergulhei tão cedo! A água estava quente (por incrível que pareça). Fiquei uma hora em relaxamento total, quase em êxtase, apreciando o nascer do sol com suas luzes douradas que tornavam a água do mar prateada.
Nesse dia, percebi como deixamos passar as oportunidades e nos fechamos a novos recomeços. Como ficamos acomodadas numa vida morna e sem sal. Não queremos sair do lugar que estruturamos como o mais confortável.
O mais incrível foi observar que a vida pulsa nesse horário. Foram chegando alunos para a aula de natação. Nas areias da praia um grupo fazendo alongamento e outro orientado por um “personal” com exercícios aeróbicos. O calçadão com os primeiros caminhantes.
Tudo lindo! Pura potência de vida! Mas, apesar de tanta intensidade, o pretendente não me convidou para um café da manhã. Fiquei impactada e indignada!
Alguns dias depois quando ele me ligou convidando para um novo mergulho de madrugada, eu simplesmente respondi:
“A minha vida precisa de café para pulsar com força.” Para um bom entendedor meias palavras bastam. A fila anda….
Essas experiências mantêm a minha energia vital ativa. São vivências que geram sonhos de que um dia voltaremos a festar em família, frequentar os parques com as crianças, aglomerar nos shows, desfilar nas escolas de samba, circular pelos bares e pubs e em praias lotadas. Encontrar novos amores, entre tantas possibilidades que nos aguardam.
Lembranças que renovam a esperança e a alegria de viver. Que alimentam minha capacidade de resistir, de lutar por vacina para todos, pelo fim da #pandemia, pela preservação e fortalecimento daquilo que é publico (saúde, educação, segurança, assistência social, entre outros).
Pela garantia da demarcação da terra para os povos originários.
Pela preservação das florestas.
Pelo fim do preconceito e discriminação em todas as áreas.
Pela garantia da democracia!

Beatriz Herkenhoff é doutora em serviço social pela PUC São Paulo. Professora aposentada da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo).

Contribuição para o Construir Resistência ->

Resposta de 0

  1. Adorei as historias. Saber contar nossas historias e sobretudo ter bom humor diante da vida é essencial. E isso vc tem de sobra!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *