Penso, logo existo…

Por Virgilio Almansur

Ou existo onde não penso?

Simples assim! Isso mesmo: bem simples… Me dei conta hoje de que não estamos lidando com amadores. Escutei aqui, acolá, num alhures indizível, que a lógica cartesiana foi abandonada por quem menos esperaríamos abandoná-la: a turminha das forças armadas.

Como curiosidade, a clássica frase cartesiana (René Descartes, 1637) desse francês, “je pense, donc je suis”, nutriu a psicanálise. Freud a “contestou” e admitiu um “existo onde não penso”. Torceu a Ciência e a Filosofia Moderna, até Möbius, numa marginalidade estupenda… Lacan postulou, posteriormente, “Sou onde não penso, penso onde não sou” trazendo a ideia do inconsciente “sou onde não penso” e o consciente “penso onde não sou”. Firulas necessárias…

Primeiramente, “sou onde não penso”, impõe certa ausência, um silêncio, na medida em que a incerteza domina e o sujeito se revela. Sou! Simplesmente sou… “Penso onde não sou” impõe a consciência, reflexão para interação com o mundo em geral e onde carrego a linguagem.

Como então, enfrentar aqueles que se deram conta dessa dualidade que nos habita? Somos dotados desse sujeito que, antenado, lhe escreve e está consciente, mas também carregamos um outro sujeito que sonha quando dorme e ninguém (se) ou lhe pergunta, afinal — quem sonha? Você se pergunta quem sonha quando sonha?

Essa importante “missão” de se perguntar é fundamental para sabermos até que ponto somos verdadeiramente autônomos ou não; se temos mesmo domínio de nossas ações ou não; se somos regidos por uma instância desconhecida e nem nos damos conta… Quê segurança temos nós, se pensar não confere existência, existir? Ser e pensar sem garantias? Quem, então, nos controla? Não estaríamos sendo dispostos como marionetes?

Há um jogo sendo jogado. Nossas (será?) forças, mais armadas do que forças (em que pese um poderio bélico ineficiente), berram insistentemente e estão por trás dos eventos de seu ventríloquo preferido, esse pulha, síndico displicente que tem a ousadia de se colocar como “administrador de nosso país”.

Estão jogando, sob a égide da patifaria, seus galardões ao lixo. Sim! O oficialato já defeca há muito e sai andando… Sempre de costas a quem deveria honrar. Nada! Bem no modelito “foda-se”… Desde que o atual vice iniciou seu périplo numa loja maçônica e sua punição foi branda, que assistimos disparates mais do que inconsequentes com notinhas e/ou tuítes dos mais esdrúxulos — e manchetes que reportam comunicados que visam testar o campo civil (pelo menos no que tange seus representantes que administram nossas instituições).

No entanto, o jogo já começou sem adversário. Ou adversários… Desde 2013 assistimos a uma movimentação que deu no que deu: um golpe continuado, em que o modelo ainda é o mesmo e gera as expectativas de sempre — mas que nada têm a ver com a democracia como a entendemos ou aspiramos.

A própria noção de “perigo”, que paira no ar em todos os momentos quando ouvimos falar em forças armadas, é no mínimo a expressão de um blefe muito bem postado e que pode ter consequências danosas para o mundo político. Blefe por blefe, impõe uma estratégia: engodo. Você dificilmente se aproximará da essência mesma de quem assim procede. Ela traz um poder quase absoluto, porque se associa não só à banca como é sustentado por esta. Uma perversão que está no âmago: ao mesmo tempo é versão e perversão!

Trata-se de um jogo adredemente preparado em que a tal “corda esticada” provém dessa escória engalanada, que a lança — e quer ter total controle em suas extremidades. É jogo de disfarces, onde a dissimulação é a regra! Um tateio feito sob medida e apresentado para alguns ruidosos que se encantam facilmente, tecem comentários e deixam antever que ainda não entendeu o jogo, nem do jogo e nem que está jogando…

Quem estica é você que me lê… Jamais o dono do jogo que o inventa a todo instante e tem o domínio de toda a jogada. Falso, engana até o engodo! É visível que há ensaios, e, neles, a percepção de que o jogador adversário imagina estar nesse jogo e não está. É pusilanimidade colocada à prova quase que diariamente.

Para tanto, todo trabalho que nossos “guardiões” promovem têm no mundo político âncoras importantes. Aquela arena que dava sustentação ao golpismo está aí, num simulacro do maior partido político do ocidente que vai chantageando os bons chantagistas de sempre, como outrora todos o fizeram num leva e traz repleto de divisas escusas. O bom chantagista, por sinal, é aquele que se deixa chantagear. Quê sujeitos, não!?

Não há por parte daqueles que tentam emular resistência ou tentem se apresentar como opositores desse regime repetitivo — que domina o cenário político —, qualquer evidência de verdadeiramente se opor ou respeitar nossas instituições. A institucionalidade caminha para o cáos e é percebida pelos abutres como flanco “legítimo” para a destituição de seus representantes e dos valores ínsitos a que a criação do Estado concebeu.

Não há dúvida da persistência e perspicácia dos agentes militares que tendem a olhar para seus críticos e/ou opositores como meros patifes. Aqueles que regem esse elemento inconstitucional no flanco mais agressivo das posturas militares, como pitbulls raivosos, veem nossa oposição como frágeis poodles que latem, latem e geram cócegas à situação. Do alto de suas tamancas lançam um olhar condescendente e bradam: “… É só isso? São esses latidinhos frouxos e gritaria histérica???”

Não há nada a obstar os ganhos pecuniários das forças. 6.000 (seis mil ou mais) deles abocanham, diretamente em Brasília, polpudos salários acrescidos ao soldo. No Brasil, como um todo, há referência de 11.500 militares dispostos em diversos setores diretos e indiretos da administração pública. Há um peso considerável para as reações mais agudas que começaram a surgir no horizonte dos militares, em especial no oficialato. Pesa, sobremaneira, o fator reeleição, que fugiu do controle e vem castigando aqueles que programaram maior estabilidade para no mínimo oito anos…

É possível que o fator Lula tenha acelerado um processo que vinha sendo gestado para eclodir durante a campanha de 22. A sobrevivência política de vários setores se viu ameaçada. O partido militar parece o mais abalado, muito como consequência de todo o aparato mobilizado para a aventura miliciana. As forças armadas foram fiadoras e beneficiárias da maior corrupção ocorrida num governo brasileiro. A excepcionalidade entre 64/85 gerou ganhos excepcionais a custa do sangue de opositores. A acomodação contaminou a todos e ainda hoje não vemos reações correspondentes à brutalidade a que assistimos.

Na diluição dos 21 anos ditatoriais, sequestros, assassinatos, ocultação de cadáveres e tortura, não geraram de imediato competente reação que denunciasse a presença do Estado criminoso. Somos vítimas da pouca consciência em direitos e direitos humanos. Como imperou nesses últimos anos os “humanos direitos”! Deu-se numa contraposição chistosa e bandida àquilo que tenderia preservar vidas enquanto direitos mínimos. A seriedade pouco importou e parece pouco importar.

Há uma existência, pois, que não quer ser pensada. Carrega história, máculas, dores, humilhações e ameaças… Existir sob economia psíquica é quase defesa. Mas deixa flancos abertos… A “deixa” está no fato de que nossas (?) forças manipulam e sempre manipularam por aproximação, naquilo que se convencionou chamar por aproximação sucessiva enquanto tática que a guerra gerou. Elas, as forças, estão “na delas”… Compuseram-se numa reprodução endógena e seus inimigos estão alocados em civis, que se reproduzem externamente ao mundo das forças…

Essa manobra, que alguns vêm chamando de guerra híbrida está sendo colocada em ação, e teremos, com mais ênfase nos próximos meses, sucessivos golpes à Constituição como vêm sendo praticados ultimamente. Será praxe… E, novamente, a sociedade civil não se encontra preparada.

Não há resposta à altura. Temos tímidas lideranças que nem ousam berrar. Estão acomodadas? Talvez sim, talvez não. Ocorre que, por uma necessária postura de defesa à Constituição vigente, não podemos admitir que nossos representantes se acomodem; não podemos nos deixar num vácuo sem balizas quando se trata do poder em curso, pois sua disputa jamais admitirá o vazio.

Nunca é demais lembrar “No Caminho, Com Maiakóviski” e o fenômeno de 15 versos globais na luta contra a ditadura. É fantástica a história de um poema brasileiro atribuído a Wladimir Maiakovski, García Márquez e Bertolt Brecht — entre outros —, mas que deve autoria ao niteroiense Eduardo Costa. Não há quem não conheça os 15 versos mais do que famosos:

 

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Saiamos desse cartesianismo e admitamos pensar na existência de um outro pensar.

É tão somente um começo…

Vale a pena!

Virgilio Almansur é médico, advogado e escritor.

Contribuição para o Construir Resistência ->

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