Por Virgílio Almansur
Eu tinha onze e me impressionava com a melodia. Era de uma instantaneidade impressionante, com trabalho de compositor de ofício nato e que se esmerava como artesão.
Aos treze, catorze, entendi que havia qualidade naquelas notas que em minha formação se abominava, mas algo as prendia mais que qualquer compacto com aqueles dentinhos separados pudessem imaginar.
Erasmo fez parte de uma trilha que embalou desde antes da adolescência e acompanhou-me buscando seus anéis num capô de fusca que o brucutu reverberou…
“Brucutu” era uma pecinha do fusca responsável por esguichar água no para-brisa do carro, com o auto-explicativo nome técnico de “bico ejetor de água para o para-brisas”. É!!! Eu tive!!!
Há pouco, em seus 80 anos, atrevi-me a compilar suas letras enxertadas em melodias captadas no cotidiano e que vinham simples para gáudio de quem se dispusesse a assobiá-la.
Numa de minhas investidas “de ouvido” e sob os mandos e desmandos da diretoria doméstica conservadora, o olhar meio reprovado da velha era atenuado pela presença daquele meninão meio urso de gestos finos, doce e apaziguador quando aparecia nas tardes de domingo…
Nunca foi falso e sempre revelou seu componente amoroso, sensível, exatamente daquele que ousou em Blue Caps e Feevers para trazer um misto de rockinblue adotado por quem teve o privilégio de costurar sucessos singelos com o parceiro de sempre (quase 600 trabalhos) e mais duas centenas a outros cantores.
Erasmo Carlos era a expressão de um ourives preocupado com as ressonâncias do dia a dia que seu canto traduziu com a fina flor de uma acuidade ímpar. A facilidade com que buscava sonoridade não tem concorrente, mas ouso dizer que sua percepção era próxima de um Irving Berlin, o pianista das teclas pretas que tão bem traduziu sua época.
Erasmo construiu melodias dentro de limitações que o pop agradece, sem afetação, sem meneios desnecessários. Lembro-me meu velho, talvez mais alto que o Tremendão, assobiando Festa de Arromba.
Ali senti que algo assombrou meu pai nascido em XIX pouco antes de inaugurarmos o século passado e vi-me autorizado a dedilhar no piano tudo o que veio à posteriori. Sem medo…
Velhos tempos…
Saudades!!!

Virgílio Almansur é médico, advogado e escritor.









