Construir Resistência

23 de novembro de 2022

Pessoas do bem ou terroristas?

Por Milton Pereira Muito me surpreende que essa massa de manobra envolvida nos atos de fechamento das estradas, lobotomizada por políticos, militares e entidades religiosas, não compreenda no que está se envolvendo. Grandes empresários e financistas que querem continuar ganhando a mamata que ganharam em quatro anos e generais de pijama que nunca imaginaram meter a mão em tanto dinheiro podem se safar, mas os doentes mentais que estão fantasiados de patriotas submetendo-se a chuvas e enchentes, passando vergonha com suas palavras de ordem, marchando como zumbis tresloucados, rezando para pneus e ajoelhando-se em louvor a caminhões vão passar por momentos em suas vidas nunca antes imaginados. E os terroristas envolvidos, financiados por grandes empresários e banqueiros, vão arrastar muitos patriotários, em suas senhas golpistas, a cometerem crimes em nome do fascismo que querem implantar no país. Através de mentiras e criações de narrativas inimagináveis de serem acreditadas por seres humanos racionais, incentivam essas pessoas medíocres a seguirem suas determinações usando idosos, mulheres e crianças como escudo humano em suas frentes de batalha. Fascistas disfarçados em pessoas de bem mantêm essas criaturas de raciocínio reduzido alheias da realidade que se apresenta à sua volta, sem nenhuma piedade do que lhes possa acontecer. Até ajuda de extraterrestres está sendo pautada – e seguida à risca por tais criaturas – para mantê-las nessa realidade paralela. Em nenhum momento da história, uma manifestação do MST ou do MTST chegou perto do que está acontecendo hoje, com bolsonaristas praticando queimas de caminhões e ambulâncias, explosões com coquetéis molotov em praças de pedágio e destruição das estradas com dinamite, tudo seguido de agressões físicas e violência extrema, sequestro de cidadãos e assassinato de padre. A imprensa golpista sempre definiu os atos do MST e do MTST como os piores crimes possíveis ao Estado e a força policial sempre os reprimiu com violência, inclusive com a morte de alguns integrantes destes movimentos que requisitavam, o primeiro, uma terra para plantar e, o segundo, uma casa para morar. Hoje, imprensa e forças de repressão pouco fazem para deter esses terroristas travestidos de patriotas que, inconformados com a derrota nas eleições, impedem o direito de ir e vir das pessoas – com idosos, crianças e enfermos parados em seus bloqueios sem acesso a água e alimentação, impossibilitam medicamentos de chegarem ao seu destino, mantimentos estão se degradando em caminhões bloqueados, patrimônios são destruídos pela fúria dos manifestantes, prejuízos incalculáveis à nação são causados pela irracionalidade e tudo está sendo patrocinado por empresários em prol de um golpe para impedir que um candidato eleito democraticamente pela maioria dos votos possa assumir seu cargo. À ultradireita não interessa um chefe de executivo que possibilite ao povo ser instruído, mantenha boa saúde, tenha acesso à cultura e possua moradia decente. Quanto mais ignorantes, necessitados, fragilizados, desempregados e desabrigados houver, mais eles podem lucrar. No meio do agro há quem defenda o feudalismo nos dias de hoje. Na classe média é um absurdo empregada doméstica querer direitos trabalhistas e andar de avião. Na classe alta é inadmissível o filho do empregado cursar faculdade junto com o filho do patrão. Ao pobre deve ser vetado o direito de ter educação, saúde, moradia e instrução – e informação, quanto menos, melhor. O critério parte da lógica de que filho de pobre tem que ser empregado de filho de rico. Milton Pereira é jornalista, artista plástico e músico

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Bolsonaristas promovem terror nas estradas

Por Altamiro Borges Até a Polícia Rodoviária Federal, chefiada pelo fascista Silvinei Vasques – que se veste e se comporta como Benito Mussolini –, está assustada com o grau de radicalização da nova onda de bloqueios nas estradas. A ação é reduzida, mas violenta. Puro terrorismo bancado por empresários bolsonaristas! Em entrevista à CNN-Brasil, Cristiano Vasconcellos, coordenador de comunicação da PRF, finalmente admitiu que esses bloqueios são criminosos. “Não tem movimento de categoria. Inclusive tem muitos caminhoneiros que estão sendo agredidos, espancados, tendo o seu caminhão desatrelado com sua carga jogada na rodovia. Já jogaram óleo em rodovias federais para causar acidentes… Não tem pauta específica. Simplesmente eles fazem os bloqueios e quem é contra aquilo, sofre agressões, atentados”. Ele prossegue: “Estamos trabalhando arduamente para a desobstrução das rodovias. Só que antes nós víamos manifestações [sic] e agora são atos criminosos, atos terroristas que estão acontecendo nas nossas rodovias federais com queima de pneus, disparo de armas de fogo nos caminhões, explosão da rodovia federal, queima de pontes para impedir o tráfego”. Homens encapuzados e extremamente violentos Já em nota oficial divulgada nesta segunda-feira (21), a PRF de Santa Catarina afirmou que o método usado pelos bolsonaristas para bloquear as estradas “lembra as ações de terroristas ou de black bloc: bombas caseiras feitas de garrafas com gasolina, rojões, óleo derramado intencionalmente na pista, ‘miguelitos’ (pregos usados para furar pneus), pedras, além de barricadas com pneus queimados, latões de lixo, e troncos de árvores cortados e jogados deliberadamente na pista”. “A maioria das paralisações deste final de semana teve caráter diferente das realizadas logo após as eleições. Na maior parte dos casos, tratava-se de ocorrências criminosas, promovidas no período noturno por baderneiros, homens encapuzados extremamente violentos e coordenados”, diz a nota. Um dos atos mais violentos dessa nova onda ocorreu no sábado (19). Homens armados atacaram a base da concessionária que administra a BR-163, entre Nova Mutum e Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso. “O local foi alvejado por tiros e coquetéis molotov, em meio a um bloqueio de manifestantes favoráveis a Jair Bolsonaro… Os manifestantes contestam o resultado das urnas e pedem intervenção militar”. Diante dessas ações terroristas, Cristiano Vasconcellos prometeu que a partir desta terça-feira (22), a PRF adotará “uma ação bem forte”, junto “com todas as forças de segurança pública”, para liberar as estradas. “Nós vamos atuar com nossa força de choque com a Polícia Militar e a força de choque deles também”. Segundo informou, a PRF prendeu até agora apenas 11 arruaceiros. Até a noite de segunda-feira, as rodovias federais tinham 13 interdições e quatro registros de bloqueios. A conferir!   As imagens do terrorismo de direita divulgadas pelos Jornalistas Livres Altamiro Borges é jornalista, coordenador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e editor do Blog do Miro

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O golpe que virou suco

Por Moisés Mendes Nunca antes na história dos golpes, em todos os tempos, o golpismo teve golpistas tão atrapalhados. Nunca antes a base que se dispõe a sustentar o golpe foi tão esdrúxula. O golpe vai sendo desmoralizado aos poucos. Ontem, pode ter sido enterrado mais uma vez com a história da contestação às urnas apresentada. A contestação foi apresentada por Valdemar Costa Neto e Magno Malta, três semanas depois da eleição. E esqueceu de incluir na auditoria os indícios de erros no primeiro turno. Valdemar Costa Neto, Magno Malta, João Augusto Nardes e empresários que já se manifestaram pelo golpe estão sendo empurrados para uma guerra suja por Bolsonaro. Não há líderes capazes de conduzir um golpe. E não há base que o sustente. A base golpista acampada em quartéis desmoraliza qualquer golpe. O golpe foi mal planejado, porque Bolsonaro passou em algum momento a acreditar que venceria. Não deu certo, e os arruaceiros de estradas e os tios e tias acampados em quartéis não têm força para levar o golpe adiante. Nada mais impacta a arruça, nem mesmo a mensagem nas redes sociais do general Luiz Eduardo Ramos. O general escreveu essa semana: “Por isso NÃO TEMA, pois estou contigo; não te assombres, pois sou o seu Deus. EU o fortalecerei e O AJUDAREI ; Eu o segurarei COM A minha MÃO DIREITA VITORIOSA.” Isaías 41:10 Não há exemplo de golpe acionado por um versículo da Bíblia por um general, em tom de autoajuda, mesmo que a base bolsonarista seja neopentecostal e saiba quem foi Isaías. E não se imagina que o levante possa prosperar a partir de dúvidas levantadas e argumentadas por Magno Malta e Valdemar Costa Neto. A insistência com as urnas mostra que Bolsonaro e os seus não tinham um plano além do questionamento da votação e da apuração, capaz de segurar uma mobilização que não ficasse (como acabou ficando) restrita aos grupos que foram às ruas. A combinação de golpismo., delírio e bandidagem, segundo relatórios das polícias e do Ministério Público, não segura um golpe. Os recados enviados pelos golpistas aos seus grupos de zap estão sendo vazados, porque há traidores dentro dos círculos do golpe. A chance de golpe hoje é a mesma de ver a Costa Rica ganhando a Copa. Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica”. Texto publicado no Blog dele.

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Mamamá e as manchetas

Por Renato Lombardi  O começo da minha carreira de jornalista foi no jornal Última Hora como contínuo e depois fui trabalhar como repórter na sucursal em Santo André. Quando o jornal começou a ser pressionado pela ditadura eu fui chamado pelo meu amigo e mestre – que me ensinou o caminho das pedras – Ramão Gomes Portão para ser plantonista do Jornal Notícias Populares que fora criado por Jean Mellé, um rumeno, que também trabalhara na Última Hora como editor internacional e sabia que a UH estava destinada ao fechamendo pelos militares que odiavam o dono, Samuel Wainer, por ele ser amigo de Jango Goulart presidente deposto pelos generais. Depois de um bom tempo como plantonista na Central de Polícia fui chamado para trabalhar na redação como repórter. Bem diferente do setorista. Não tinha a obrigação de entrar tal hora, sair tal hora. O horário era mais flexível. O ambiente numa redação, quando o grupo é unido, é sensacional. Entre as figuras diferentes daquela redação do NP, já na Barão de Limeira, no prédio colado ao da Folha de S. Paulo – o jornal tinha sido comprado pelo Octávio Frias, dono do Folhão -, estava o contínuo Guilherme que todos conheciam como Mamamá. Negro, alto, forte, era goleiro da redação. Carioca, viera a São Paulo para encontrar um trabalho melhor, não conseguira, morava num bairro da zona leste e era vizinho de um motorista do jornal. Numa conversa de domingo, no campo de futebol de várzea, surgiu a história do desemprego e a indicação para trabalhar no NP. Guilherme, ou Mamamá, atendia além da redação a diretoria, ou melhor, o Jean Mellé. Numa tarde, Mellé estava reunido com os editores para escolher a manchete do dia seguinte – sempre com as tragédias policiais – e havia duvida quanto a sugestão a ser selecionada. Guilherme entrou e eu pedi ao Mellé que perguntasse ao contínuo qual a que título ele mais gostava. Afinal ele era o autêntico leitor do Notícias Populares. Guilherme escolheu, todos concordaram, e no dia seguinte a manchete puxou uma vendagem de 150 mil jornais. A partir daquele dia Guilherme era o consultado para a sugestão da “mancheta” como Mellé, em seu português horrível, se referia ao título principal da primeira página do dia seguinte. E Mamamá ficava orgulhoso quando lhe perguntavam em seu bairro o que fazia e ele dizia que colaborava muito com o jornal porque era quem escolhia as manchetes. – Não sou jornalista, repetia, mas colaboro direto com a venda do NP. Depois de alguns anos Guilherme decidiu que voltaria para o Rio de Janeiro. Os pais estavam doentes e deixou em seu lugar um primo, Joaquim, que logo recebeu o apelido de Sarcófago. Zicardi – João Zicardi Navajas -, editor de esportes e depois secretário do jornal, foi quem deu o apelido. Joaquim nem imaginava o significado de Sarcófago. Era todo sorriso quando o chamavam pelo apelido. Ninguém jamais se atrevera a dizer o que era Sarcófago. Zicardi tempos depois terminou o curso Rio Branco e se tornou diplomata. Numa tarde durante uma sessão de jogo de dadinhos, que rolava , nos fundos da redação, Paula Ramos o responsável pela seção de turfe, perdeu o dinheiro que tinha e também o que pedira emprestado a colegas. Diante da gozação do Zicardi que não jogava e era contrário a jogatina, Paula decidiu dar o troco e contar ao contínuo o significado verdadeiro do apelido. – Vou acabar com essa história do Sarcófago. Vocês vão se entender com o crioulo e parar de me encher o saco. Joaquim tinha um metro e noventa, forte, doido por uma confusão. E não deu outra. Assim que Joaquim entrou na redação, Paula Ramos o chamou. – Joaquim você sabe o que é Sarcófago? E o contínuo abriu um sorriso e respondeu. – Deve ser uma coisa legal porque todos me chamam, dão risada, e o Zé da cantina me disse que é um elogio em francês. O Zé da cantina que ficava na entrada da redação também nem imaginava o que seria sarcófago e achava lindo. Quando Paula Ramos contou o que realmente era, Joaquim mudou o comportamento. Olhou para o fundo da redação onde se concentrava a maioria do pessoal e gritou. – Aqui só tem filho da puta. Sarcófago é a mãe de cada um. Vou meter a mão na cara do primeiro que voltar a me chamar assim. Nem que eu perca o emprego. Desde esse dia ninguém mais o chamou de Sarcófago. O Zé da cantina pediu mil desculpas, alegando que também não sabia, mas Joaquim não acreditou. Comeu pão na chapa durante um bom tempo sem pagar. E continuou escolhendo as manchetes do jornal até o dia em que se acidentou com uma bicicleta e se afastou do trabalho. Ficou bom e decidiu voltar para o Rio de Janeiro. Nunca mais ouvi falar do Mamamá e do Sarcófago.   Renato Lombardi é um experiente  jornalista, comentarista de Segurança e Justiça na TV Record, com passagens em diversos veículos de imprensa

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É preciso deter a serpente já

Por Gilberto Maringoni   Valdemar da Costa Neto tem esperteza suficiente para saber que a bazófia de anular 59% das urnas é exigência tão sólida quanto fumaça. Não prospera. Por que faz esse mise-en-scène todo? Porque aderiu ao modus operandi bolsonarista: o importante é criar uma tensão por dia. Queimaram pneus, desocupados foram para a frente dos quartéis e a República não caiu. Agora aparece a “prova definitiva” da fraude. Amanhã surgirá outra lorota, semana que vem mais uma e assim por diante, até 1° de janeiro. O objetivo é bombar a adrenalina do gado para alguma baderna-monstro no dia da posse, algo irresponsável o suficiente para degenerar em violência solta. A Justiça brinca com fogo. Enquanto três ou quatro graúdos – Zambelli, Vasques da PRF, Braga Neto e Augusto Nardes, por exemplo – não tiverem prisão decretada, a tensão continuará. É preciso deter a serpente já.   Gilberto Maringoni é jornalista, chargista, ilustrador

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O corte foi acima ou abaixo do crucifixo, autoridade?

Por Fábio Lau Polícia do Paraná quer convencer a plateia de que um padre ameaçado por Bolsonaristas, o Padre José Aparecido Bilha, achado morto com corte feito a faca no pescoço, cometeu suicídio. É o primeiro caso que vejo, na minha não tão curta carreira de jornalista, de suicídio com automutilação no pescoço cometido com objeto pérfuro cortante. Na cultura japonesa o suicida faz o harakiri com faca apropriada vendida livremente no comércio. Corte no abdômen. Há caso de corte nos pulsos. Mas cortar pescoço? Foi acima ou abaixo do crucifixo, autoridade? Mas, por outro lado, não me canso de ver polícia acobertando crimes tecendo teses precipitadas. Em geral motivadas por incompetência, preguiça ou interesse político. Mas cabem as três hipóteses também. Fábio Lau é jornalista, botafoguense e portelense.

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Olhos nos olhos e papo firme

Por Virgílio Almansur Eu tinha onze e me impressionava com a melodia. Era de uma instantaneidade impressionante, com trabalho de compositor de ofício nato e que se esmerava como artesão. Aos treze, catorze, entendi que havia qualidade naquelas notas que em minha formação se abominava, mas algo as prendia mais que qualquer compacto com aqueles dentinhos separados pudessem imaginar. Erasmo fez parte de uma trilha que embalou desde antes da adolescência e acompanhou-me buscando seus anéis num capô de fusca que o brucutu reverberou… “Brucutu” era uma pecinha do fusca responsável por esguichar água no para-brisa do carro, com o auto-explicativo nome técnico de “bico ejetor de água para o para-brisas”. É!!! Eu tive!!! Há pouco, em seus 80 anos, atrevi-me a compilar suas letras enxertadas em melodias captadas no cotidiano e que vinham simples para gáudio de quem se dispusesse a assobiá-la. Numa de minhas investidas “de ouvido” e sob os mandos e desmandos da diretoria doméstica conservadora, o olhar meio reprovado da velha era atenuado pela presença daquele meninão meio urso de gestos finos, doce e apaziguador quando aparecia nas tardes de domingo… Nunca foi falso e sempre revelou seu componente amoroso, sensível, exatamente daquele que ousou em Blue Caps e Feevers para trazer um misto de rockinblue adotado por quem teve o privilégio de costurar sucessos singelos com o parceiro de sempre (quase 600 trabalhos) e mais duas centenas a outros cantores. Erasmo Carlos era a expressão de um ourives preocupado com as ressonâncias do dia a dia que seu canto traduziu com a fina flor de uma acuidade ímpar. A facilidade com que buscava sonoridade não tem concorrente, mas ouso dizer que sua percepção era próxima de um Irving Berlin, o pianista das teclas pretas que tão bem traduziu sua época. Erasmo construiu melodias dentro de limitações que o pop agradece, sem afetação, sem meneios desnecessários. Lembro-me meu velho, talvez mais alto que o Tremendão, assobiando Festa de Arromba. Ali senti que algo assombrou meu pai nascido em XIX pouco antes de inaugurarmos o século passado e vi-me autorizado a dedilhar no piano tudo o que veio à posteriori. Sem medo… Velhos tempos… Saudades!!!   Virgílio Almansur é médico, advogado e escritor.

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