Uma excelente iniciativa

Por Luis Favre

“Não se defende a Palestina negando proteção aos judeus brasileiros que sofrem ataques racistas”.

O Palácio do Itamaraty sediará, no próximo dia 16 de abril, o colóquio “Enfrentamento ao antissemitismo: reflexões sobre o cenário internacional” — uma realização do Ministério das Relações Exteriores, com participação do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania e do Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).

A data escolhida não é fortuita. Desde 2024, por iniciativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil instituiu o Dia Nacional da Lembrança do Holocausto, a ser celebrado anualmente em 16 de abril.

A data homenageia a memória das vítimas do genocídio de judeus promovido pelo regime nazista e expressa, ao mesmo tempo, um tributo ao diplomata brasileiro Luiz Martins de Souza Dantas, que arriscou sua carreira para conceder centenas de vistos a refugiados judeus.

Comemorar essa data não é um gesto vazio: é reafirmar que o antissemitismo — assim como todo racismo — é crime no Brasil e deve ser enfrentado com a força da lei e da política.

A organização do colóquio conta com a participação de Clara Ant, assessora especial da Presidência da República.

Filha de judeus poloneses sobreviventes da Shoah, Clara é uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores e também uma das primeiras mulheres dirigentes e fundadoras da CUT.

Sua vida inteira foi dedicada à defesa da democracia, dos direitos humanos e da dignidade dos trabalhadores.

Quem melhor do que ela para esse debate? Não há ninguém mais qualificado, do ponto de vista ético e biográfico, para um evento sobre a memória do Holocausto e o enfrentamento ao antissemitismo.

Importante frisar: o governo Lula não confunde combate ao antissemitismo com adesão às políticas do governo de Benjamin Netanyahu.

O presidente tem sido um dos líderes mundiais mais firmes na denúncia de graves violações do direito internacional humanitário em Gaza e na crítica ao primeiro-ministro israelense.

O Brasil é co-signatário da ação movida pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça (CIJ), que acusa Israel de violar a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio.

O governo já recebeu representantes da comunidade palestina no Brasil, reconhece o Estado Palestino e, recentemente, em fevereiro de 2026, o presidente Lula recebeu as cartas credenciais do embaixador da Palestina em cerimônia no Palácio do Planalto.

Como o próprio presidente resumiu: “O Brasil não tem problema com Israel, o Brasil tem problema é com Netanyahu. A hora que Netanyahu não for mais governo, não haverá nenhum problema entre o Brasil e Israel, que sempre tiveram uma relação muito boa”.

Pois bem: se o governo critica Netanyahu, denuncia violações graves, adere a processos internacionais, reconhece a Palestina e recebe suas lideranças — por que não poderia, simultaneamente, promover um debate institucional sobre o crescimento do antissemitismo no Brasil e no mundo?

A resposta é simples: pode e deve.

Não há contradição alguma entre solidariedade ao povo palestino e combate ao antissemitismo. São duas faces da mesma exigência: a defesa intransigente dos direitos humanos.

Acontece que alguns setores do campo progressista — talvez sem perceber — insistem em opor essas duas pautas. Ao rejeitar a iniciativa, ao chamar o evento de “despautério” e ao desqualificar interlocutores judeus como se constituíssem um bloco homogêneo, acabam por embaralhar perigosamente a distinção fundamental entre crítica a um governo e preconceito contra um povo.

Esses segmentos, na verdade, não compartilham a posição expressa pelo presidente: “O Brasil não tem problema com Israel, o Brasil tem problema é com Netanyahu…”. Esses segmentos têm problema com Israel. Pois bem, o Brasil não — como afirmou o próprio presidente.

A comunidade judaica brasileira, como qualquer outra, é plural. Possui diferentes entidades, correntes e posições — inclusive críticas ao próprio governo israelense. Reduzi-la a uma caricatura não apenas empobrece o debate, como reforça uma lógica que o campo democrático deveria recusar.

Além disso, há um risco político evidente: quando a esquerda relativiza ou desqualifica o combate ao antissemitismo, ela entrega esse terreno à direita. E o faz no momento em que mais deveria reafirmar, com clareza, seu compromisso universal contra todas as formas de racismo.

Para o governo Lula, ao contrário, essas duas lutas são inseparáveis.

Não se combate a violência contra civis palestinos silenciando sobre o antissemitismo.

Não se defende a Palestina negando proteção aos judeus brasileiros que sofrem ataques racistas.

E não se constrói unidade política desqualificando quadros históricos ou iniciativas institucionais legítimas.

O colóquio do dia 16 é, portanto, uma excelente iniciativa.

Luis Favre é pseudônimo do jornalista e ativista político nascido na Argentina, Felipe Belisario Wermus. Foi casado com a ex-prefeita de SP, Marta Suplicy. Mora atualmente em Paris e possui cidadania francesa. Considera-se um “judeu franco-argentino”.

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