Todo mundo sabe que Bolsonaro era o chefe do golpe

Por Alfredo Herkenhoff

Golpe de Estado é um processo dicotômico, só dá certo se vence. E aí não é golpe, é revolução democrática de 31 de março, é revolução da indignidade na Praça Maidan em Kiev, é a polícia da Bolívia quase matando Evo Morales e produzindo a patriótica autodeclarada presidenta em La Paz.

Quando dá errado, um golpe de Estado vira tentativa de golpe e gera muitas mortes, muitas prisões, milhares. Um exemplo: em 2016, na Turquia, o golpe de fundamentalistas islâmicos deu zebra: muitas centenas de mortos e alguns milhares de presos. Mas lá os presos foram os maiorais derrotados. Foram presos juízes, donos de meios de comunicação, altos militares, procuradores e empresários. E o presidente Erdogan, muçulmano que era defensor de regime laico, ficou mais poderoso e nacionalista. Venceu a trairagem e viu que tinha de usar poderes escrotos para se manter no poder.

No Brasil, o golpe fracassado na derrota nas urnas ganhou um caráter especial, quase inédito, talvez inédito. Foi um golpe em que os golpistas articularam de tal modo que, se desse certo, permaneceriam no poder, mas se fracassase, como fracassou, não seriam mortos nem presos. Como articularam tal novidade?

Inventaram a conspiração omissiva. O golpe sem líder falante. O golpe do clima golpista. O golpe dos covardes e medrosos. O golpe dos chefes silenciosos.

Quando Bolsonaro dias atrás fez saber a seus seguidores que não era para aderir ao apelo de Carla Zambelli e sair às ruas em defesa do cassado Deltan, o chefe fez saber que sua palavra têm poder indutor. Ao jamais pedir, durante 70 dias, que os acampados em quarteis parassem de gritar pedindo intervenção militar para impedir que o vencedor da eleição subisse a rampa, Bolsonaro, pela omissão de sua palavra indutora, exibiu-se como líder silencioso de fato do golpe fracassado.

Claro que pelo Codigo Penal e pela Carta Cidadã Bolsonaro precisa ser julgado. Há provas cabais em abundância para que seja preso. Boa parte do Brasil o quer enjaulado com Moro e Deltan.

Outra parte o quer de volta. E, se condenado e preso, talvez gere comoção da extrema direita.

Atacaram com fogo a sede da PF quando Lula foi diplomado em 12 de dezembro, atacaram e incendiaram carros e ônibus sob pretexto de defender um falso cacique xavante preso…. Então, o que não fariam ou farão quando o Brasil prender o verdadeiro chefe miliciano que promoveu a revolta contra o resultado da votação do povo?

Curto e grosso, é isso: os golpistas no Brasil estão achando que ainda dá pra fazer prevalecer uma novidade: golpe fracassado sem condenação e morte dos principais golpistas.

Se não forem presos, vencerão na próxima tentativa e nenhum de nós estará mais aqui capacitado a fazer essas reflexões. Eles nos exilarão e nos matarão sem pena nem dó. Quem defende tortura e torturador, rouba e mata sem pena nem dó.

Afinal, vocè gostaria de ver Bolsonaro preso no curto prazo?

Não.

Antes da jaula, é preciso desmontar a imagem do mito. Bolsonaro provavelmente só será condenado e preso em meados do ano que vem. E aí entra a questão geopolítica. A Casa Branca odeia Lula, mas odeia mais ainda Bolsonaro porque está atrelado a Trump que pode vencer ou pode eleger alguém parecido com ele.

Bolsonaro vai ser declarado inelegível ja agora em fins de junho ou começo de julho…

Mas Bolsonaro, mesmo preso, pode eleger presidente do Brasil trastes como Tarcísio, Nikolas, o filho Bananinha, Moro, Mourão, Damares, Michele, Pazuello, Girão e girondas.

O fascismo é lavagem cerebral. E, com as big techs, virou lavagem em alta velocidade.

Alfredo Herkenhoff é jornalista, escritor, autor do livro Jornal do Brasil – Memórias de um Secretário

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