Da Redação
Construir Resistência resgatou uma entrevista de Edinho Silva, o candidato preferido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência do Partido dos Trabalhadores (PT).
Ela foi concedida ao jornal argentino La Política On Line, de autoria do jornalista A. Taglioni, em setembro de 2022, às véspera do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, vencidas pelo Lula.
Edinho goza de grande prestígio na Argentina por ter participado juntamente com o atual ministro da Secon, Sidônio Palmeira e uma equipe de 20 brasileiros, das eleições presidenciais daquele país.
Apesar delas terem sido vencidas por Javier Milei no segundo turno, o jornal destaca a atuação de Edinho SIlva na campanha presidencial daquele país.
Ele foi apontado como um dos responsáveis por ter levado Sergio Massa, candidato governista, ao segundo turno, uma missão que parecia impossível.
Apesar da grave crise econômica, com uma inflação de mais de 140%, Massa, então ministro da Economia, recebeu o maior número de votos no primeiro turno, com 36,68%, contra 29,98% de Javier Milei, o radical de extrema-direita que já apresentava amplo favoritismo.
Em 2022, a campanha do ex-presidente Lula também tinha enorme dificuldade de inserção nos meios digitais quando Edinho Silva foi chamado para coordenar a comunicação de campanha.
O resultado foi uma campanha vitoriosa que barrou, pela primeira vez desde 1998, a reeleição de um presidente da República, enfrentando a máquina de governo e uma verdadeira derrama de recursos públicos.
Os caminhos da vitória passaram por um diálogo com a juventude e pela construção de um discurso capaz de “furar a bolha” dos eleitores tradicionais do PT, passando a ideia de uma frente ampla contra o radicalismo ideológico.
Edinho Silva é agora um dos cinco postulantes à presidência do PT nas eleições que acontecem no dia 6 de julho, através do Processo de Eleição Direta (PED).
Não é necessário explicar por que Edinho é o candidato preferido de Lula. O presidente se sentirá confortável de tê-lo à frente do PT nas eleições de 2026, a qual deve concorrer pela quarta vez, com reais chances de vitória.
No PED do PT, devem partocipar cerca de 2,6 milhões de filiados, e o 2º turno, caso seja necessário, acontecerá no.dia 20 de julho.
A entrevista antes da eleição de Lula
Esta foi a entrevista concedida pelo Edinho Silva ao jornal La Politica On Line, antes da vitória de Lula ainda no primeiro turno em 2022.
Ele demonstra total domínio e conhecimento das estratégias políticas. Ela foi publicada com o título “Não basta derrotar Bolsonaro; é preciso derrotar o bolsonarismo.”
Veja a sua íntegra abaixo:
“O coordenador de campanha de Lula e prefeito de Araraquara, em São Paulo, Edinho Silva, conversou pessoalmente com o LPO antes das eleições de domingo. O líder esclareceu que “Lula comandará um governo não petista, de transição, com mandato único”.
Edinho Silva é prefeito de Araraquara, município do interior de São Paulo com mais de 200 mil habitantes, o 37º mais populoso do estado e o 128º do país.
Ele está em seu segundo mandato, mas já faz alguns meses que concilia a administração municipal com uma tarefa que consome sua agenda: ser coordenador de comunicação política da campanha de Lula.
Edinho, que foi também ministro da Secretaria de Comunicação de Dilma Rousseff, é uma figura em ascensão discreta na comitiva de Lula.
Muitos o apontam como uma figura importante em um possível gabinete Lula. Ele diz que “Lula é um grande comunicador e sua função é organizar”, mas na verdade ele enfrentou um desafio mais do que complicado: regular a espontaneidade e a verbosidade do ex-presidente para não perder votos.
Em um encontro individual com a LPO, ele discutiu os principais aspectos da campanha, o desafio de envolver os apoiadores de Bolsonaro na batalha digital, a possibilidade de uma “virada fascista” se Bolsonaro ganhar um novo mandato e o que ele acredita que será um novo governo Lula a partir do ano que vem.
Qual é a sua avaliação do processo de campanha de Lula?
É uma campanha muito diferente das que o Brasil já viveu, altamente polarizada, uma campanha de primeiro turno com características de segundo turno, e desde o processo de redemocratização, quando a sociedade se mobilizou contra o regime autoritário, o Brasil não vivenciou nada parecido com a unidade do campo democrático para derrotar uma entidade neofascista orgânica.
É algo novo; O Brasil nunca viveu nada parecido. O país sempre teve eleições polarizadas e, em termos históricos, Getúlio Vargas pode ter chegado perto do fascismo argentino durante a Segunda Guerra Mundial.
Mas as forças democráticas sempre venceram, e nunca vivenciamos nada parecido com um governo eleito com características autoritárias e fascistas.
Então, o que está acontecendo no campo democrático do Brasil é a união de todos os setores para derrotar esse fenômeno político. É algo novo em nossa história.
Imagino que ser chefe de comunicação de Lula não deve ser fácil. A certa altura, falou-se em “incontinência verbal” e, com sua chegada, decidiu-se regulamentar as declarações públicas. Como foi esse trabalho?
Temos uma equipe de comunicação muito forte e altamente competente. Pessoas idôneas, com experiência e profissionais muito talentosos. Somamos isso ao fato de que Lula é um comunicador nato, a maior figura popular da história brasileira, então é difícil construir uma estratégia de comunicação com alguém que só entende de comunicação.
Ele é espontâneo, e isso gera empatia com as pessoas, é uma comunicação direta. Nesse sentido, o que nós fizemos foi organizar o processo porque a comunicação em si é Lula. Pensamos estratégias para cada momento e traçamos um plano de ação nas redes sociais, o que é complexo porque o bolsonarismo é um fenômeno inspirado no fascismo, mas, sobretudo, é um fenômeno digital.
As forças democráticas ainda não entenderam completamente como os autoritários criaram essa relação orgânica com o mundo digital.
Acho que isso acontece muito porque nas redes sociais as pessoas podem extrapolar uma ideia preconcebida ou um ataque sem nenhuma conexão com a vítima do fascismo ou do machismo. É um anonimato implícito ou explícito que instaura uma agressividade que legitima o autoritarismo.
É uma campanha muito diferente das que o Brasil já viveu, muito polarizada, uma campanha de primeiro turno com características de segundo turno, e desde o processo de redemocratização, quando a sociedade se mobilizou contra o regime autoritário, o Brasil não vivenciou nada parecido como a unidade do campo democrático para derrotar uma coisa orgânica neofascista, é uma coisa nova.
Quando entrei na campanha, a ideia era ser melhor que o bolsonarismo nas redes sociais, mas competir com algo que está dando certo desde junho de 2013 é complicado.
Tudo começou com marchas justificadas contra o aumento da tarifa de transporte e estabeleceu um clima de despolitização que foi explorado pela campanha de Aécio Neves em 2014, cresceu com o golpe contra Dilma em 2016 e, finalmente, organizado e capitalizado por Bolsonaro em 2018.
É um fenômeno maior que Bolsonaro, mas ele capitalizou isso. Como você pode competir com algo que está em desenvolvimento há dez anos? Foi por isso que organizamos o que tínhamos, que era o apoio dos sindicatos, dez partidos e movimentos sociais, e começamos a trabalhar nisso, com o que tínhamos organicamente.
Não competimos com perfis falsos nem nada do tipo… e foi um sucesso porque nosso crescimento foi muito significativo e nos deu uma base orgânica significativa nas redes sociais. Nosso “produto” era muito bom, assim como nosso candidato, porque o próprio Lula é uma estratégia.
É possível que Lula vença no primeiro turno?
É possível, as pesquisas mostram que a curva de crescimento é favorável a Lula, mas acho que há pontos que devem ser considerados. O voto útil não é todo nosso. Alguns dos votos de Ciro podem ser para nós, mas outra parte desses votos, incluindo os votos de Simone Tebet, são para Bolsonaro.
Os eleitores indecisos geralmente estão divididos, e a abstenção é outro fator mal captado pelas pesquisas; esses são fatores importantes para a reta final da eleição. A tendência é de crescimento no primeiro turno, ou que nos deixe muito próximos de 50% do eleitorado.
Se houver um segundo turno, você acha que o clima de violência pode aumentar?
Ela já está sendo violenta. Nunca tivemos uma eleição como esta na história recente; é preciso voltar à década de 1920 para encontrar algo semelhante. Temos homicídios, comandos atacados, militantes perseguidos. É algo muito preocupante e novo que pode ser explicado pelo fenômeno Bolsonaro.
“A curva de crescimento é comparável à de Lula, mas acho que há pontos que devem ser considerados. O voto útil não é todo nosso. Alguns dos votos de Ciro podem ser para nós, mas outra parte desses votos, incluindo os votos de Simone Tebet, são para Bolsonaro”.
Não acho que toda a base eleitoral de Bolsonaro seja violenta e autoritária, mas uma parcela significativa sempre foi assim. Eles defendem a violência, o machismo e a necessidade da sociedade se armar. Mais de 20% se sentem legitimados pela retórica de Bolsonaro. É ele quem cria essas condições de violência.
Bolsonaro pode sair, mas o bolsonarismo fica.
Sai Bolsonaro e fica o bolsonarismo, isso é um desafio porque ambos precisam ser derrotados. Há um segmento de eleitores bolsonaristas que são motivados pelo sentimento anti-PT — cerca de 15% — mas os 20% restantes têm uma visão de mundo muito diferente.
O que poderia acontecer se Bolsonaro ganhasse um segundo mandato?
Se você olhar para a história do fascismo que surgiu na Itália na década de 1920, foi um movimento que surgiu com a legitimidade das urnas. Mussolini levou 50.000 pessoas às ruas de Roma; ele tinha uma base social. A eleição de Bolsonaro pode significar um período muito difícil para a democracia. A instituição do autoritarismo, a legitimação da violência, o racismo e a homofobia são coisas muito perigosas de se enfrentar.
Vários analistas argumentam que Lula deveria liderar um governo não petista. Concorda?
Absolutamente. Deve ser um governo do campo democrático. O governo Lula será de transição; ele mesmo diz que governará apenas por quatro anos. Um governo que deve enfrentar o fascismo e terá que entregá-lo com instituições democráticas fortalecidas, com políticas públicas inclusivas, que se articule com o campo democrático, muito maior que o PT, e crie as bases políticas e sociais para a mudança que o país precisa agora.
Isso não poderia criar tensões entre a agenda de esquerda e os setores mais moderados?
O que precisamos entender é que a força de Lula e do PT é a força de um amplo campo democrático que foi criado no Brasil e que não se via desde a volta da democracia. É maior que o PT pela reconstrução da democracia. Você tem que expressar isso.
Você disse que Lula é o maior líder da história brasileira, mas também há quem argumente que Bolsonaro é o segundo maior líder de massa da história recente. O que você acha disso?
Claro. Bolsonaro é um líder de massas; ele tem uma base orgânica e militante. Isso não é novidade no mundo de hoje. Acho que desde a crise de 2008, vimos um mundo mais pobre. É uma longa crise semelhante à de 1929, que terminou com a Segunda Guerra Mundial e deu origem a movimentos reacionários com a ideia de Itália para os italianos, Espanha para os espanhóis e Estados Unidos para os americanos. É um fenômeno que dá força a expressões de extrema direita ou neonazismo que disputam eleições na Alemanha. É uma força política de direita inspirada nos piores valores da humanidade que está crescendo ao redor do mundo e se organizando politicamente para legitimar esse pensamento.
O governo Lula será de transição; ele mesmo diz que governará apenas por quatro anos.
A ideia de partidos políticos xenófobos era impensável há dez anos. Na Itália, venceu uma força política de inspiração fascista, juntamente com os republicanos nos EUA, a extrema direita na Espanha e a Hungria, governada por uma força autoritária que legitima as piores expressões da sociedade. É algo maior do que o que temos no Brasil, onde Bolsonaro representa 20% e não tem medo de ser racista, machista ou violento.
O ativismo político nas ruas costumava ser da esquerda, agora é da direita. Veja o que aconteceu nos Estados Unidos, que são reconhecidos como “o berço da democracia”. Ele viveu o que viveu (a invasão do Capitólio) porque tem uma militância orgânica de extrema direita.
Há alguma hipótese sobre o que pode acontecer se Bolsonaro não reconhecer os resultados?
Não creio que tenha força política para um movimento desse tamanho. Esse núcleo duro pode ir às ruas, mas não tem força institucional, interna ou externa, para uma tentativa de golpe. Teremos o reconhecimento de todos os países do mundo que estão preocupados com o que pode acontecer no Brasil.
E as Forças Armadas?
Eu também não penso assim. Ele tem o apoio de algumas autoridades, mas é uma minoria; ele não tem força institucional. Estou mais preocupado com algumas mobilizações das polícias militares, que não têm um comando único, mas são estaduais, do que com o que as Forças Armadas podem fazer.
Que relação você projeta com o Congresso?
Precisamos construir uma base parlamentar para apoiar o governo Lula e dialogar com outras forças quando tivermos o roteiro completo para formar um bloco de forças democráticas.










