Partidos

Por Virgilio Almansur

Esqueci-me da máscara no metrô. Sampa exige! Chamou-me a atenção um belo menino e seus cabelos lindamente encaracolados: “… Moço! Tem que usar máscara!!!”

Imediatamente, busquei em meus bolsos; por sorte encontrei uma, toda amarfanhada, mas trouxe alento ao jovenzinho…

Meu querido companheiro de viagem que me premiara com o “moço”, ainda emendou: “… Mamãe! Olha: U-NI-ÃO! É o açúcar?”

Menino ágil, espertíssimo e muito antenado, incomodava a mãe, que carregava uma revista onde o vulgo chefe, Bivar, anunciava seu partido, o União Brasil, como independente.

Mal sabe o meninote e sua mãe o que carrega o tal União. Se de imediato traz o DEM, uma corruptela pefelê do velho PFL, traz também aquela matriz arenosa e conspícua da outrora ARENA, substrato de sustentação ditatorial que um dia, seu presidente Francelino cunhou-a como o maior partido do ocidente.

A história dos partidos no Brasil é repleta de desatinos. Nem sempre corresponde a uma expressão ideológica que norteie seus seguidores e/ou admiradores.

São pródigos os caciques que inovam em acordos, mesclam suas agremiações partidárias ou são vítimas de bedelhos autoritários que tornaram o bipartidarismo (ARENA e MDB) fiadores entre 64/85.

Nasci sob os inúmeros partidos que levaram JK ao poder. Sob o mineiro assisti, no final de seu governo, o quanto o Partido Social Democrático (PSD) tinha importância na luta contra a UDN de Juarez Távora.

Via um monte de siglas quando entendi que a vassoruinha de Jânio levaria, via PTN/PDC/UDN/PL/PR, nas eleições de 60, a presidência após JK. Este era incensado e louvado. Foram os “50 em 5” sua marca que ficaria incólume…

No entanto, era sua condição de médico, na Revolução Constitucionalista de 32, que fazia o mote de inúmeros assuntos em casa. Da. Sarah era prima de meu pai, que estivera em seu casamento com Juscelino no Rio.

Quando dos embates nas trincheiras mineiras, ambos se encontraram. Pareciam duas comadres que minimizavam aqueles momentos que tornaram os paulistas quase heróis.

Meu pai, que passara quase a década de 20 inteira no Rio, trazia uma afinidade aos cariocas que o abraçaram, ainda na Urca, e o faria refém de um carinho inusitado àquela gente que invadia a São Paulo que defendia.

Mas seu incômodo maior vinha do “primo”, que um dia exigiria que todos escrevêssemos, sem erros, o Kubitschek. Era o próprio que transcendia partidos e sabia muito bem que os personalismos eram prevalentes.

Vide o que ocorreu com o professor do varre, varre, vassourinha, prometendo varrer a corrupção — e ocuparia Brasília por sete meses e pouco. Seu partido, o PTN — mesclado a outros —, seria cassado pelo AI-2.

Os primeiros agrupamentos políticos datam da primeira metade do século XIX. Se mesmo hoje, não contamos com partidos centenários, talvez sendo exceção o PCB, muito se deve a fluidez de suas constituições, aos personalismos e disputas egóicas.

Genericamente efêmeros, nossos partidos, nem sempre partidos, cumpriam reclamos circunstanciais. Vê-se que tal ocorrência é majoritária e impregna sobremaneira o mundo político atual.

Dificilmente essa plêiade partidária atual confere seriedade às exigências ideológicas. Não é possível que agasalhemos tantas convicções díspares e que ecoem trinta e duas (32 é o número atual de partidos inscritos no TSE) posturas divergentes.

Matéria de difícil apreensão, o sistema partidário se estabelece enquanto organização de direito privado. Este é o ordenamento jurídico que rege os interesses particulares. Sim! Particulares!

O que uma união voluntária de cidadãos com afinidades ideológicas com fito político, organizando-se disciplinarmente e com vistas à disputa de poder, requer da máquina econômica impulsionada por impostos?

A minirreforma eleitoral de outubro/17 trouxe mais um apêndice à economia já combalida, pretensamente a premiar aqueles mesmos que legislam e se tornam parasitas de um fundo especial de campanha, mais além do fundo partidário.

Antes de tudo, um grande negócio, até podemos entender que a via partidária veicule princípios e que tal caminho ainda seja o mais promissor. Mas que anda incomodando anda… A União está refém…

 

Virgilio Almansur é médico, advogado e escritor

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