Por Mauro Ventura

Vejo o vídeo de uma senhora chegando de viagem. Deve ter seus 60 anos, um pouco mais, um pouco menos. Usa óculos, tem uma aparência normal, é sorridente, daquele tipo comum que você encontra tantas vezes na rua, no mercado, na praça. Não parece oferecer perigo algum.
As imagens mostram o momento em que os parentes e amigos estão no aeroporto para recepcioná-la. Assim que a veem, eles pulam, gritam, se abraçam, se beijam, batem palmas, numa euforia incontida. O que será que ela fez para merecer tamanha recepção? Talvez esteja há muito tempo fora, morando no exterior, antes até da pandemia.
– Maravilhosa! – grita uma moça.
Será que foi aprovada em concurso ou conseguiu um bom emprego? Pela idade, o mais provável é que tenha conquistado um grande prêmio que justifique tamanha festa.
– Muito orgulho de você! – diz outra mulher.
De fato, ela carrega um troféu, como iremos perceber. Não nas mãos, mas no tornozelo. Ela é uma das vândalas que protagonizaram algumas das cenas mais lamentáveis da história recente do país. Foi detida no acampamento golpista no QG do Exército, acaba de sair da prisão em Brasília e está de volta a seu estado, Mato Grosso. De inofensiva ela não tem nada.
O que para nós é motivo de indignação, repulsa e constrangimento para ela e para seus familiares é pretexto para comemoração.
– Obrigada por tudo, viu? – diz alguém, sinalizando que ela fez o que os demais gostariam de ter feito.
Ou seja, tentar dar um golpe de estado, invadir, depredar, agredir, destruir, vandalizar, atentar contra a democracia.
A certa altura, ela levanta a barra da calça, aponta a tornozeleira eletrônica e brinca:
– Estou com wifi com muito orgulho.
Ela se sente uma revolucionária, uma presa política, e não uma criminosa comum. Uma amiga completa, referindo-se ao adereço prisional:
– Gente, isso aqui não é um rastreador, é um símbolo de guerra!
De fato, a chegada dela mais parece aquela recepção de herói aos soldados que voltaram do front. Só que aqui, no caso, eles estão do lado do inimigo.
– Muita luta e muito orgulho de usar (a tornozeleira) – afirma uma mulher.
As cenas desmontam duas vergonhosas fake news da extrema direita. A primeira de que a prisão era um campo de concentração. A julgar pela aparência daquela senhora, parecia mais uma colônia de férias. Também desconstrói a farsa de que os baderneiros e extremistas eram petistas infiltrados. Longe disso, são bolsonaristas orgulhosos.
Não há nenhum remorso, nenhum arrependimento nessa senhora. Pelo contrário. Ela exibe uma sensação de dever cumprido, de ter lutado pela pátria, de ter tentado salvar o Brasil das garras do comunismo. Num outro vídeo, ela fala das colegas de cela, “patriotas do Brasil todo e do exterior”. E recorre à religião para explicar sua “missão”: “É um propósito de Deus para cada um de nós.” E dá a entender que vai ser reincidente: “Nossa bandeira continua levantada.”
Curioso é que os supostos patriotas, que dizem que “bandido bom é bandido morto”, que se autointitulam “cidadãos de bem”, que zombam Lula chamando-o de “ex-presidiário”, celebram agora uma ex-presidiária – ou melhor, uma golpista em liberdade provisória mediante medidas cautelares.
A prisão não ensinou nada a essa gente. Ser fichado e ter antecedentes criminais também não. Não sei se na hora em que doer no bolso a ficha vai cair. Tomara, mas não tenho muitas esperanças.

Mauro Ventura é jornalista e editor do site Testemunha Ocular do Instituto Moreira Sales











