O neocapitalismo e a cultura de ódio à senioridade

 

Nos últimos anos, intensificaram-se as condutas desrespeitosas, as falas duras, os arroubos deselegantes e o “cala sua boca” pronunciado com autoridade naturalizada.
 
Muitas vezes, essa atitude de insolência é aplaudida e seguida pela matilha. Percebemos todos essa brutal mudança de procedimento, especialmente nas redes sociais.
 
Nossa geração (50-60+) entrou definitivamente na linha de tiro. E a artilharia tem sido implacável. Convertemo-nos, inapelavelmente, em dinossauros em fase de dessocialização forçada. Para isso contribuiu a pandemia de Covid-19, categorizada equivocadamente como uma doença de velhos fracos.
 
O que gera essa repulsa, em parte, é nossa base educacional escorada no que restou do racionalismo iluminista.
 
A juventude, de direita ou de esquerda, tem sido adestrada para repudiar veementemente qualquer razão objetiva emersa do movimento coroado com a Revolução Francesa.
 
Na era dos gamers, tudo que vale é o pragmatismo, a vida de viés resultadista. São os tempos líquidos ao quais aludiu Bauman. É o início do triunfo da alienação tecnológica pós-moderna, o primado do metaverso da conveniência apolínea e etarista.
 
Essa conduta está presente em grupos identitários, em torcedores de futebol, em funcionários emergentes de corporações e em coletivos de jovens acadêmicos.
 
A norma é agredir, se possível debochadamente, a senioridade. Esse tipo de preconceito ageísta propagou-se dos Estados Unidos para o resto do mundo. Pelas mídias, definiu o padrão comportamental das gerações mais recentes, parte da Y, a Z e a Alpha.
 
Convém perceber que o conhecimento, especialmente aquele herdado da experiência, é considerado como pecado e ofensa. Semanas atrás, um jovem bradava pelo Facebook que “a culpa de tudo” era da geração de 1968. Não sabia explicar o “porquê”, mas repetia seu protesto com furioso entusiasmo.
 
Considerado o paradigma de obsolescência programada de produtos, constituído pelo neocapital, é certo que a cultura do descarte intoxicou também parte considerável da população novata neste mundo. Agora, inclui o cancelamento forçado de pessoas.
 
É um fenômeno mundial, poderoso, inoculado em multidões, desde o primeiro contato com o smartphone. Não é algo que se possa reverter. O inverno da vida vai ser em uma reclusão cada vez mais profunda. Guardemo-nos.

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