Cinema Nacional, um mergulho na realidade

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Por Beatriz Herkenhoff

Os filmes nacionais nos iluminam. Vou indicar quatro filmes que nos convidam a refletir sobre a vida e seus desafios.

Sem legenda, sem dublagem.

O filme da minha vida (Google Play Movies, Looke): é belíssimo! Trilha sonora que toca a alma; fotografia impecável; atores ótimos e envolventes; direção cuidadosa e coerente.

Um filme sobre nostalgia, confiança, amizade, amor, fidelidade, perdão, traição, decepção, ética, busca da verdade, das razões do outro, das próprias razões. Encontros e desencontros fazem parte do fio condutor que nos envolvem do início ao final do filme, nessa história de busca da identidade; do sentido da existência; do significado do ser e estar no mundo; do despertar da sexualidade e do amor; do lugar do pai na constituição do sujeito; de elaboração de perdas entre tantos outros temas que vão sendo costurados.
Somos seres em permanente transformação. Não evoluímos, nem crescemos se não enfrentamos nossas perdas, saudades e carências. Se estamos abertos para o nosso Eu interior, sairemos desse filme com muitos questionamentos.

João, o maestro (Now, Looke): filme envolvente sobre a vida do maestro e pianista João Carlos Martins. Confesso que conhecia pouco ou quase nada sobre sua história.

Durante o filme, somos seduzidos por sua trajetória de busca e superação; por sua genialidade, virtuosismo, talento, dedicação, disciplina, amor à música, obsessão para superar todos os obstáculos que enfrenta. É um filme de superação dos limites. Nos questiona profundamente, pois, quantas vezes desistimos e paralisamos diante das dificuldades. Saí apaixonada pelo maestro João. Temos muito a aprender com ele.

Como nossos pais (Netflix): denso e intenso sobre a condição da mulher como mãe, filha, esposa, amante, profissional.

Também um filme de superação, com diálogos tensos sobre relações familiares, segredos, razões, tristezas, decepções, solidão, companheirismo, aceitação do outro e encontro a partir das diferenças, da permissão para viver e extrapolar o quadrado que nos é imposto. É um filme que coloca o dedo na ferida da difícil relação entre mãe e filha. Excelentes atrizes!

Aquarius (Netflix): de Kleber Mendonça Filho, chegou para fazer a diferença! Excelente! Profundo, impactante, sensível, belo!

Tem dias que o filme insiste em ficar e questionar. Como somos acomodados! Como assistimos impassíveis à transformação das nossas cidades! Como se fosse natural a substituição das belas casas dos anos 1950-70 por arranhas céus. Como se essa fosse a ordem natural do progresso!

Sonia Braga arrasou! Diria que me hipnotizou com seu talento e capacidade interpretativa. Ela é o centro, é central, e dá conta desse lugar, trazendo para o filme um movimento permanente.
Interpreta Clara, mulher forte, de fibra, determinada, independente, destemida, liberal, feminina, sensual, afetuosa, mãe, avó, mulher, amiga. Mas, eu diria que uma característica central de sua personalidade é a resistência. Os que conviviam com ela acrescentariam o adjetivo louca. Pois, resistir na atualidade, é considerado uma loucura.

Por detrás da resistência à especulação imobiliária, muitas são as histórias e as denúncias. A especulação desnuda o capitalismo selvagem, mostra a força da destruição para alcançar os seus objetivos a qualquer custo. Denuncia as contradições humanas e do nosso Brasil. Mas, não é um filme caricato, muito pelo contrário. A especulação é apenas a ponta do iceberg para que o diretor confronte: a substituição do valor da convivência pelo valor do mercado; a negação dos antigos costumes pelos novos; a luta entre a morte e a permanência.

Um eixo que conduz o filme é a preservação da memória. E a memória não se constrói sozinha, mas, em torno daqueles que amamos. A resistência mostra a casa como lugar dos afetos, dos vínculos, da continuidade, das raízes. Lugar de passagem, por onde transitam as gerações com suas histórias, dores, conquistas, superações, capacidade de amar. Tudo isso conduzido por uma trilha sonora belíssima (Taiguara, Roberto Carlos, Gilberto Gil, Betânia, entre outros). As músicas em si fazem parte da preservação da memória. A cidade de Recife é o centro dessa disputa cruel e ameaçadora. As fotografias são belíssimas! Paisagens que nos remetem às nossas próprias cidades e história de vida.

Eu, de forma particular, voltei no tempo relembrando o que foi Guarapari (ES) e o que é hoje. E, para os que moram em Vitória (ES) não tem como não pensar nas transformações da nossa querida Praia do Canto.

Beatriz Herkenhoff é cinéfila e testemunha da importância da terceira arte nesses tempos de #isolamentosocial. Doutora em serviço social pela PUC São Paulo, professora aposentada da Universidade Federal do Espírito Santo.

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