A pichação contra a presidenta mexicana

Por Júlio Benchimol Pinto 

México, 2025.

Em frente ao Palácio Nacional, alguém pega um spray, olha para a porta monumental e escreve: “PUTA JUDIA”.

Não é só um xingamento; é uma tese inteira em duas palavras: mulher + judia = alvo liberado.

A pichação é real, registrada em fotos e vídeos das manifestações contra o governo de Claudia Sheinbaum, primeira presidenta judia do México.

É o velho antissemitismo reciclado para a era das redes: em vez de panfleto nazista, graffiti “militante”.

O alvo não é só a política de segurança da presidente, sua base de apoio ou suas escolhas econômicas.

O ataque mira o fato de ela ser judia. A mensagem é cristalina: você não está sendo criticada pelo que faz, mas por aquilo que é.

E quando uma multidão passa diante de uma porta com “puta judia” rabiscado em letras garrafais e segue adiante, o problema não é mais um indivíduo com spray na mão; é o silêncio em volta.

Esse episódio não é um “excesso isolado” nem uma “pichação infeliz”. É parte de um padrão global: judeus viram metáfora descartável em qualquer disputa política.

No Canadá, na Europa, na América Latina, o script se repete – basta alguém precisar de um inimigo de laboratório que o “judeu” reaparece, ora como “globalista”, ora como “sionista genocida”, ora como “puta judia”. O vocabulário muda, o ódio é o mesmo.

Quando a política normaliza esse tipo de ataque, a linha vermelha já foi cruzada. Não interessa se o manifestante se diz de esquerda, de direita ou “apolítico”: quem escreve “puta judia” numa porta de prédio público não está lutando por democracia, está testando até onde a sociedade tolera desumanizar um grupo inteiro.

E, historicamente, quando esse teste passa sem resposta à altura, nós sabemos como a história continua.

Não é “só um graffiti”. É um aviso em letras grandes: se o antissemitismo pode desfilar assim, sem vergonha, na capital de um país democrático, então o problema não é o spray – é o clima.

E esse clima, ou a gente enfrenta agora, com nome e sobrenome, ou amanhã vai ter muita gente jurando que “não viu nada demais”.

Júlio Benchimol Pinto é PHD da Universidade Federal de Brasília(UNB)

Contribuição para o Construir Resistência ->

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *