Por Beatriz Herkenhoff
Sempre gostei de ler e escrever. Aos oito anos, minha mãe estimulou-me a escrever um diário, pois observou que eu trocava as letras, como: b por p; f por v, entre outros erros de português.
Eu escrevia, ela corrigia e eu copiava 10 vezes cada palavra. Esse era o método. E funcionou, pois, nunca mais cometi erros semelhantes.
Na adolescência também escrevi um diário. Naquela ocasião estabelecia, através da escrita, um diálogo comigo mesma, com o desabrochar da mulher, com minhas descobertas, desejos, conflitos, angústias e desafios. Fazia relatos das paqueras, dos amores e das amizades que tornavam minha vida tão alegre, dinâmica e estimulante.
Quando meu filho nasceu decidi escrever um diário sobre seu crescimento, desenvolvimento, convivência com amigos, primos e primas, passeios, viagens, descobertas, e momentos engraçados. Eu escrevi dez cadernos universitários sobre a infância do meu filho (de zero a 12 anos).
Escritos de uma riqueza inestimável! Lembranças alegres que ficam para sempre. Tenho certeza que seus amigos e meus sobrinhos e sobrinhas terão interesse por essas preciosidades, pois, registrei suas próprias histórias de vida, já que tinham uma convivência intensa.
Como eu lia muito sobre educação infantil, no diário, eu fazia reflexões baseadas em especialistas no assunto. As interpretações sobre as reações infantis para cada idade.
Um verdadeiro compêndio teórico e prático sobre a arte de educar, de colocar limites, de acolher a criança em suas explosões de raiva, de amor, de tristeza e de alegria. Dicas sobre como estimular sua autoestima, autoimagem e confiança, entre outras atitude e ações tão importantes.
Quem sabe um dia os amigos se reúnam para ler e dar boas gargalhadas com histórias únicas que ficaram congeladas no passado. E quem sabe um dia eu também leia meus próprios escritos para reencontrar a mãe que fui.
Perceber minhas falhas, limites e potencialidades. Minha capacidade de amar e dar o melhor de mim na arte de ser mãe. Mas, também reconhecer minha humanidade. Acolher-me como ser humano frágil e forte, com sombras e luzes.
Os escritos deixam marcas e rastros. Registram memórias, contam histórias que não podem ser esquecidas. Impedem que as lembranças sejam apagadas. Valorizam o passado para que o presente seja vivido em sua inteireza.
Deixam legados. Possibilitam encontros entre a criança e adolescente que fui e o adulto que sou.
Quando eu me tornei professora, passei a ler muitos livros relacionados à minha profissão. Publiquei minha dissertação de mestrado em 1994 com o título “O papel do líder comunitário.” Resultado de um trabalho de pesquisa junto às associações de moradores do município de Vitória, ES. Sei que contribui para pensar essa realidade e para indicar caminhos de fortalecimento dos movimentos sociais.
Minha vida nunca se fechou no meu próprio umbigo. Sempre senti-me motivada a dar mergulhos pessoais através da minha escrita e a inserir-me, simultaneamente, na realidade dos mais pobres e desprovidos de seus direitos de subsistência e sobrevivência.
Eu aprendi a elaborar meus processos terapêuticos escrevendo. Em vários momentos de minha vida, ao me despedir de um grande amor escrevi com força e intensidade. Escrevi até esgotar a compreensão de minhas razões e motivações para tomar decisões. Toda ruptura é difícil e exige de nós despedidas e vivência do luto. E, em muitos momentos, elaborei esse processo escrevendo.
Sou muito grata por ter o dom da escrita. Ele me salvou de muitas tristezas profundas que poderiam ter virado depressão e melancolia.
Ai de mim se não tivesse colocado no papel a dor que me paralisou em muitos momentos de minha existência. E também a gratidão por aqueles que foram significativos e fizeram a diferença em minha trajetória de vida, amando e sendo amados.
Algumas amigas estão participando de oficinas terapêuticas que estimulam a escrita. Motivadas a escrever sobre sua história de vida, relatam que são experiências curativas que estão mudando seu olhar e posturas.
Quando aposentei, novamente redirecionei meus escritos para reflexões sobre o cotidiano. Passei a frequentar o Cine Jardins (Vitória, ES) três vezes por semana e publicar no #Facebook resenhas e críticas de filmes. Também passei a viajar com frequência e publicar roteiros de viagens. Além de fazer pequenos ensaios sobre histórias engraçadas que vivia.
Amigas queridas começaram a estimular para que eu publicasse meus escritos. E com a pandemia, a arte de escrever tornou-se mais intensa. Com tempo mais disponível voltei a dar dicas de filmes e escrever sobre desafios postos pelo distanciamento social.
Tive a grata alegria de encontrar no site #ConstruirResistência, um espaço para partilhar meus escritos, pensamentos, sonhos e projetos. Passei a dialogar com leitores fiéis que levantam questionamentos e falam de suas descobertas e histórias de vida ao ler meus escritos.
Um amigo enviou um artigo em que afirma que a crônica é uma pintura expressionista. Fui olhar o significado: pintura expressionista é o nome de uma vanguarda artística europeia do início do século XX. São artistas que transmitem sentimentos em suas pinturas, sem se preocupar com os efeitos da iluminação. Valorizam a expressão emocional do ser humano, os aspectos subjetivos.
Sem ter domínio sobre esses conceitos, acho que minhas crônicas focam em aspectos subjetivos e valorizam a expressão emocional do ser humano. Recebo muitos feedbacks de pessoas dizendo que estão tirando um tempo de silêncio para ler minhas crônicas, pois, elas tocam profundamente suas emoções.
Hoje sou pura gratidão por fazer a diferença através dos meus escritos e possibilitar um olhar de esperança num momento tão difícil como esse que estamos vivendo no Brasil e no mundo. Hoje posso afirmar que a escritora está nascendo.
Eu me surpreendo com o prazer que toma conta de mim. Com as inspirações inesperadas. Com uma escrita que flui com leveza, liberdade, amorosidade e ao mesmo tempo com criticidade, com comprometimento com um mundo diferente do que temos hoje.
Viva a arte de escrever!
Viva a cultura!
Viva os professorxs!











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Amei! Um forte abraço minha Professora amada.
Seus escritos me estimulam.
Viva a escrita!
Viva Beatriz, professora!
Beatriz, pude sintonizar-me facilmente com o que relatou porque ainda que não tive a extensão e variedade da sua experiencia, meu interlocutor fiel foi sempre o meu Self também certamente em milhares de páginas de agendas e cadernos hoje parceiros do outono de meus dias.
Gostei, incentivo e apoio seu projeto de vida.
Paulo D’Elboux
Tenho muito orgulho por ser uma personagem dessa história, cheia de aventuras🥰
Tenho muito orgulho por ser uma personagem dessa história, cheia de aventuras🥰
Realmente, estes escritos são um refrigério para nós!Tocam, comovem, alegram e informam.Ttomamos contato com sensações e aprendemos a esperançar. Escrever assim, é puro Dom!