Por Angela Bueno
Não sei dizer quando em minha vida entrei em contato com a Teoria de #PauloFreire, mas sei os efeitos dessa teoria em minha vida. Perceber que a pobreza não era uma coisa natural e que o fato da pessoa ser analfabeta não a transformava em uma pessoa sem cultura escancarou minha forma de enxergar a vida das pessoas no mundo.
Ao entender que todo homem e mulher, que pelo seu trabalho transforma a natureza, é culto, me fez buscar responder a uma série de questões ligadas à desigualdade social e aos hoje, denominados, direitos humanos. Essa mudança começou a se dar em minha vida na década de 1970, em contato com um Jesuíta conhecido como Padre Costinha. E se deu a partir de uma peça de teatro que ele, em um grupo de jovens católicos que eu participava, me pôs em contato com o texto de #JoãoCabraldeMeloeNeto: Morte e Vida Severina.
Para além dos meninos da peça, alguns paquerados por todas nós, o texto me tocou e me despertou para questões que até então não passavam pela minha cabeça. Ao encontro com Costinha devo a mudança de olhar para os oprimidos da terra. Esse piauiense querido se tornou um amigo desses que a vida nos presenteia.
Tempos depois, já aluna do curso de serviço Social da #UFES, líamos os livros de Paulo Freire, em espanhol. Eram proibidos pela ditadura militar que governou nosso país.
Muitos anos depois, já como professora do departamento de Serviço Social da UFES, fui uma das professoras das disciplinas de Metodologia de Serviço Social. Para minha alegria pude retomar o contato com os textos de Paulo Freire.
Numa ocasião, fui perguntada por uma colega de departamento se eu tinha dimensão do efeito de minha disciplina na vida dos alunos. Falei que não, e ela me disse que eles gostavam muito.
E completou: enquanto falamos de muitas coisas pesadas você vem com a Pedagogia da Esperança!
Esse efeito era, na verdade, provocado pelo vigor do texto de Paulo Freire! Tempos depois, na reforma curricular, essa disciplina saiu do curriculum do curso…
Em um congresso de Pedagogia em Vitória, ES, a principal mesa que abarrotou o auditório contava com a presença de Paulo Freire e da Nita, sua segunda mulher. Falando sobre as relações humanas, da ambiguidade, que comportam essas relações Paulo Freire falou, mais ou menos assim, da relação dele com sua mulher, sentada ao seu lado na mesa:
Tem dias, disse ele , que acordo e olho pra ela e me pergunto: porque estou casado com essa mulher? Noutros dias acordo e penso: essa é a mulher da minha vida!
Não seria esse um retrato de todo casamento e de todas as relações afetivas que estabelecemos no decorrer da vida? Com a simplicidade que lhe é peculiar, escutei em sua fala um conceito que me é caro na teoria freudiana: a ambivalência emocional presente, de maneira inconsciente, nas relações afetivas entre as pessoas.
#Ambivalênciaemocional é a capacidade inconsciente que temos de amar e odiar a mesma pessoa ao mesmo tempo. Quanto mais próxima é a relação afetiva mais o ódio, recalcado comparece. Por isso, o ditado popular de que se se conhece de fato uma pessoa depois de comermos um saco de sal com ela diz bem desse conceito.
Depois de um tempo, já aposentada da UFES, passando férias numa praia no sul da #Bahia, fui jogar com o filho do jardineiro (12 anos) e percebi que ele não sabia ler. Conversei com o pai dele e fiquei sabendo que aquele menino alegre, inteligente, que sabia várias coisas sobre jardinagem, que era um dos trabalhos do seu pai, era considerado burro na escola. Ele estava no terceiro ano sem saber ler.
Conversei com seu pai e me propus a alfabetizá-lo. Sem nenhum material didático apropriado e entendendo a urgência da situação lá fui eu atrás de uma cartilha! Quer incoerência maior que essa?
Posso dizer que com Paulo Freire no coração e na cabeça e com uma cartilha na mão dei início na semana seguinte a nossas aulas. Pra minha grata surpresa meu aluno era super pontual e chegava de banho tomado, com sua melhor roupa e começamos nossa aventura!
Íamos da cartilha pro mundo do menino. A aula seguia assim:
Lia o texto e em seguida perguntava o que ele entendeu da leitura e íamos fazendo ligações com a vida e com a realidade de vida dele. Depois ele fazia alguns exercícios silábicos e brincávamos de formar outras palavras.
Tinha uma pausa para um lanche. Depois era a hora da história que eu lia dentre os livros que tinha e que ele escolhia. Terminada a história ele interpretava o texto e ligava com sua vida. Depois desenhava e pintava seus desenhos.
Aprendi muito com aquele menino.
Aprendi que ele entendia a palavra luta, como luta pela sobrevivência. Meu pai quando trabalha, me disse, luta pela sobrevivência. Fosse meu filho ou seus amigos iriam definir a palavra luta ligada ao judô e a outras artes marciais.
Aprendi que o que seu pai lhe ensinava era “ser gente boa”. E explicou: trabalhar, não pegar nada dos outros .., que ele aprendia com seu pai valores éticos e morais.
Aprendi, principalmente, como a escola formal pode ser cruel ao taxar de burro um menino pobre, por desconsiderar o saber que ele porta.
No final do verão ele estava lendo, estava alfabetizado! Recebeu como prêmio de seu empenho, de sua vontade de aprender,um passeio em um borboletário que existia no lugar. Andamos de pedalinho no lago, almoçamos no restaurante. Foi um dia muito bom!
No verão seguinte recebo a notícia que ela ia bem na escola e fora o melhor aluno de matemática da sala!
Viva o legado que Paulo Freire nos deixou!

Imagem: Reprodução
Ângela F.V.Bueno é psicanalista e ceramista. Nas décadas de1970- 80 trabalhou na Caritas Arquidiocesana de Vitória. Trabalhou também na Secretaria de Estado da Saúde- ES, contribuindo para a implantação do SUS em seu estado. É professora aposentada do departamento de Serviço Social da UFES. É mestre em Teoria e Clínica Psicanalítica pela UERJ.










