Chá de Ayahuasca

Por Miriam Waidenfeld Chaves

Para Ricardo

Num sítio em Nova Friburgo, Roberto experimentou pela primeira vez um chá de cogumelo. Viajou por umas sete horas pelos pastos da fazenda do amigo. Tinha 19 anos e já era fã de uma cannabis.

Nunca havia tido uma trip como aquela. Conversou com as vacas, mas não se lembrava do assunto. Entrou nas raízes de um jequitibá e lá embaixo as enxergou serpenteando até o centro da terra feito um azougue. Depois subiu para seus galhos e de lá voou como se fosse um gavião. Planou e fez piruetas céu afora até que posou na beira de um penhasco verde brilhante que, como um espelho, refletiu sua imagem contra o sol.

Derreteu-se no verde  azul rosa da natureza. E desapareceu!  Quando Roberto se deu conta, percebeu que essa sua viagem era muito parecida com seus sonhos:  virava pássaro.

Pronto! Ficou de fã dessa infusão. Gostava da sensação de sentir-se fora de seu corpo, vislumbrando-se com asas. E os solos de Carlos Santana lhe davam a sensação de  que voava a mais de 2.200 metros de altura. Quando dava por si, estava com falta de ar.

Entretanto, Roberto acabou se acostumando com as alturas de suas alucinações. E quando o seu pulmão se sentiu pleno no ar rarefeito, ele acreditou que estaria pronto. Não sabia bem para  quê.

Machu Picchu tornou-se, então, a sua paixão. Como um presságio, queria experimentar o chá  de Ayahuasca, feito de um cacto chamado peyot.

Depois de algum preparativo – Carlos Castañeda na veia, dicas de amigos e uma breve olhada em seu atlas de escola sobre a geografia da região -, Roberto partiu para Corumbá. Lá  pegaria o famigerado Trem da Morte para Santa Cruz de La Sierra.

O trajeto de 1600 km e 21 horas sentado em um banco duro de madeira ao lado de porcos, galinhas, sacos de batatas e passageiros foi um choque, para ele, jovem morador da zona sul do Rio de Janeiro. Num vagão coalhado de mundo, sentiu-se como se estivesse indo para o profundo passado de seu continente.

Era o guarani, o piuii do trem e a criançada brincando. Era o cheiro de comida e mijo. Era o vermelho verde rosa e laranja das polleras e da mata lá de fora. Era um velho índio que o mirava fixamente.

Com a cara seca queimada de sol, a pele enrugada e um  nariz núbio, o velho índio, com seu poncho colorido sujo de barro, tinha os olhos mais negros que Roberto já avistara. Experientes, plácidos e misteriosos, o convidavam para um mergulho no desconhecido.

Imerso em uma realidade onírica, Roberto, às vezes, sentia-se em uma cena de cinema, onde a qualquer momento poderia se meter em alguma enrascada.

De fato, teve diarreia, sentiu fome e dor no corpo. Duas vezes foi parado por carabineiros que o confundiram com algum guerrilheiro. Depois é que foi entender que naqueles tempos de  Pinochet e companhia, a polícia não podia ver um jovem barbudo pela frente que já desconfiava.

Enfim, do Atlântico ao Pacífico, o Novo Mundo entrecortado por mochileiros, lembranças de Che Guevara, respingos das ditaduras em vigor no continente e peyot transformaram Roberto, cuja imagem era outra depois de três semanas de viagem.

A iniciação   

Desgarrado do amigo que conhecera na fronteira, Roberto logo de cara rendeu-se à selva boliviana e, ao se enfronhar na região de Llanos de Mojos, chuvosa e isolada, decidiu ficar por um tempo com os Tikarauê.

Num domingo seco, tomou o seu primeiro chá de peyot. Sua imaginação disparou e planou por cinco horas no ar.  Voou como um condor. E, nas alturas, sentiu-se em casa.

Ao baixar o voo, se deparou com os olhos negros do velho índio do trem acompanhando a sua descida. Guiavam seu pouso de aprendiz. Acordou exausto.

Na festa de Ano Novo, Roberto partiu. E escoltado por sua intuição foi atrás de seu destino. Aportou em um  povoado perdido à beira do Lago Humantay, no Peru.

Cercado pelas Montanhas Salkantay, em plena Cordilheira, ao ouvir a eclosão de ruídos das onças pintadas, macacos, tapirus e borboletas, Roberto se viu como um condor bisbilhotando nas alturas. Quem sabe à espreita de uma presa.

Mas quando deu por si, os olhos negros do velho índio sorriam para ele. E, naquele exato momento, Roberto compreendeu que estava diante do seu futuro.

O mais longo mergulho no ar 

Ali, à beira do lago azul esverdeado e junto com os Inkatwa, Roberto reiniciou as suas experiências com o famigerado chá de Ayahuasca, que aos poucos fez com que se esquecesse de que era gente.

Foi em seu terceiro voo, enquanto planava solitário pelo céu, que Roberto, ao abrir as asas de três metros de envergadura pela primeira vez, duvidou  de sua condição humana.

Solenemente negro, exceto pelo colar de pluma branca e asas de franjas também brancas, naquele dia, quando se lançou em seu mergulho de volta, o velho índio afinal  lhe revelou os últimos  segredos do vento.  Foi como se ali Roberto tivesse deixado de existir.

Esqueceu-se do português, do Brasil e de sua vida. Era como se estivesse em outra dimensão. Àquela do sagrado.  Do Lago Humantay.

Exatamente no dia da Festa do Vento, Roberto  pode por fim executar sua grande viagem: do alto das Montanhas Salkantay, dobrou suas asas, recolheu suas pernas e se deixou cair de uma altura de 4. 600 metros  até atingir num só mergulho as águas geladas do Lago Humantay.

E os olhos negros do velho índio, ao o acompanharem naquela queda vertiginosa, pareciam lhe dizer:

– Este é o seu augúrio. Esta é a sua jornada. Seja bem vindo!

Embrulhado em névoa, Roberto entendeu que esteve sempre se preparando para aquele momento. De repente, sumiu.

 

Miriam W. Chaves é contista e professora da UFRJ.

Contribuição para o Construir Resistência ->

Resposta de 0

  1. Ah, que saudade de mim! os voos de peyot e cogumelo ajudaram a forjar quem sou, mas já não tem sentido no momento que vivo. Em setembro passado experimentei dois voos esplêndidos com meditação dinâmica – guiado remotamente!

    Seu conto me levou pelos sinuosos caminhos de suas letras, suas viagens e seus sonhos.

    Parabéns!

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