Por Sonia Castro Lopes
No ano de 1980 Elis Regina lançou um vinil duplo chamado Saudade do Brasil. Fã ardorosa da cantora, o disco foi um dos presentes que recebi naquele Natal. O AI 5 havia sido revogado um ano antes e a ditadura dava sinais de agonia nas frases mal educadas do último presidente militar, general João Baptista Figueiredo.
Das vinte músicas de Saudade do Brasil duas, particularmente, chamavam minha atenção, apesar de não serem inéditas. Uma delas era Maria, Maria, aquela que “mistura dor e alegria” e ganhou vida e voz com Elis. A música já havia sido gravada por Milton Nascimento no clássico Clube da Esquina 2 em 1978, mas a interpretação de Elis em Saudade… foi definitiva. Ali se falava de mulheres, de marias guerreiras, mães solteiras e solitárias, chefes de família, carregando nas costas toda a dor do mundo e que, ainda assim, não desistiam de ter fé na vida. A outra canção – Aos nossos filhos– fora composta e gravada por Ivan Lins, mas cresceu e explodiu com Elis. Falava de filhos, crianças, infantes. Os “sem voz” eram ali celebrados e a eles se pedia perdão pela cara amarrada, pela falta de abraços, de espaço, [pois] os dias eram assim…
Que Brasil era esse do qual Elis sentia saudade? Provavelmente de um Brasil dos anos 50, início dos 60, quando havia uma gauchinha alegre que cantava no Clube do Guri e na Rádio Farroupilha. Do Brasil de antes do golpe, de um Brasil esperançado e feliz. Elis Regina não assistiu ao fim definitivo da ditadura civil-militar. Nós sobrevivemos para assistir a trinta e quatro anos de democracia. Altos e baixos, mas democracia. Um Brasil de inflação descontrolada e de constituição cidadã, o Brasil do caçador de marajás e do impeachment, do plano real e das privatizações, de um projeto igualitário e da redução da miséria, das denúncias, delações, lava-jatismos e golpe.
Como você, Elis, voltamos a sentir saudades do Brasil. Desses 34 anos vividos. De um tempo em que sequer podíamos imaginar que o autoritarismo, a apologia à tortura, as ameaças à democracia pudessem retornar e nos esmagar como um pesadelo sem fim. As mulheres continuam oprimidas, Elis. Muitas ainda se calam, apanham, trabalham para sustentar famílias e filhos. Outras posam sorridentes no Instagram, submetidas a uma vida luxuosa em troca de humilhações, descuidando da vida dos próprios filhos a quem deviam proteger. Crianças continuam infantes (sem voz), mortas por balas perdidas, com fome, recebendo ensino de segunda classe, morando na rua. Outras presas em condomínios de luxo, totalmente absortas em videogames, celulares e tablets de última geração, sem colo nem carinho.
Um louco incapaz assumiu o país devastado depois de golpes e manobras políticas para que a elite voltasse a dar as cartas e eliminasse os direitos dos trabalhadores. Em nome de Deus e da família (como em 64) assiste-se a um retrocesso sem limites no campo dos costumes, na educação. Um vírus maldito ganhou o mundo e alojou-se preferencialmente em nosso país onde encontrou um governante irresponsável e desumano. Daqui a pouco chegaremos a quinhentas mil mortes e há quem naturalize, afinal temos que morrer mesmo, né? Desemprego, miséria e fome. Dos trabalhadores mais pobres, informais, uberizados à classe média que se julgava elite, tão ciosa de seus direitos e privilégios, todos estão derretendo.
O movimento feminista cresceu, empoderou as mulheres, deu-lhes visibilidade, mas o feminicídio ainda cresce a olhos vistos. As marias continuam saindo das comunidades para trabalhar, enfrentam transportes cheios, arriscam a vida e a dos seus em troca de um salário aviltante. Abono emergencial razoável só por três meses, agora é se contentar com o que o governo pode dar para não furar o teto de gastos, não correr risco de um novo impeachment já que a reeleição é só o que interessa. Crianças pobres não vão à escola, não assistem aulas remotas porque não possuem o aparato tecnológico necessário e ficam expostas aos perigos e à violência, quando não são espancadas e mortas.
Saudade do Brasil, Elis. Do Brasil de sua infância, do Brasil que você não chegou a ver, mas que nós vimos e vivemos. A nós, sobreviventes, só resta cantar outro sucesso seu, cuja letra, composta pelo saudoso Aldir Blanc, insiste em afirmar que essa dor não haverá de ser eterna nem inútil. Sigamos com a esperança equilibrista, pois o show precisa continuar.











