Quem é o candidato da Globo em 2022?

Por Nelson Marques

Em todas as últimas 8 eleições presidenciais, a Globo (tvs, jornal e rádios) sempre deixou evidente para quem torcia e apoiava. Em 1989, foi o caçador de marajás – alcunha criada por Veja e Globo – Fernando Collor de Mello. Para quem não se lembra, a edição do último debate do segundo turno entre Collor e Lula foi um autêntico assalto a mão armada: selecionaram os piores momentos de Lula, os melhores de Collor e deram muito mais tempo para o caçador de marajás. Naquela época, os debates aconteciam após as 22h30 e a audiência ia minguando na medida que as horas avançavam. Então, o que valia mesmo era a edição que seria apresentada em todos os telejornais da emissora no dia seguinte. Trabalhei durante muitos anos com Francisco Wianey Pinheiro, o Pinheirinho, que na época, editor do jornalismo da Globo no Rio, foi designado por sua chefia para fazer a edição safada do debate entre Lula e Collor. Ao tomar conhecimento do tamanho da canalhice que pediam para ele executar, se negou e pediu demissão no mesma hora. Grande Pinheirinho!

Já em 1994 e 1998, a preferência da família Marinho (dona das organizações Globo) era escancarada. O tucano e “príncipe da sociologia”(sic) Fernando Henrique Cardoso era poupado de qualquer dissabor nos telejornais da Globo. E pau no Lula, que para aumentar ainda mais o medo que os Marinho tinham de uma vitória do sapo barbudo, levava como vices em sua chapa o petista Aloizio Mercadante, em 94, e ninguém menos que o querido Leonel Brizola, em 98. Este último, um inimigo mortal da Globo desde as eleições para o governo do Rio, em 1982, quando a emissora tentou fraudar a apuração, no escândalo que ficou conhecido como Caso Proconsult. Nessa eleição, Brizola foi eleito por ampla maioria e fez o melhor governo que o Rio de Janeiro já teve.

Em 2002, o candidato da Globo era José Serra, um típico tecnocrata paulista, amigo de banqueiros e frequentador do high society paulistano, mas sem nenhum carisma. Serra se cacifou para ser candidato tucano à presidência depois de ser ministro da Saúde e do Planejamento de FHC e, claro, após a benção da família Marinho.

Nas eleições de 2006, a Globo apoiou o hoje provável vice de Lula, Geraldo Alckmin, que foi vice do governador Mário Covas até a sua morte e vinha de uma bem avaliada administração do estado de São Paulo. Alckmin transitava com desenvoltura pelas elites ligadas ao agronegócio do interior paulista, mas, entre os tucanos de bico grande da capital, era visto como um “caipira sem verniz”, uma ave fora do ninho. Em 2010, José Serra foi candidato novamente, dessa vez contra a presidenta Dilma Roussef, e, como em 2002, teve o apoio “valioso” da Globo.

Em 2014, a Globo escolheu o ex-governador mineiro, Aécio Neves, como seu queridinho. Aécio perdeu no segundo turno e, como um péssimo perdedor, duvidou do resultado das urnas e pediu recontagem de votos. Tudo com o apoio da família Marinho. Era o começo do golpe, que seria finalizado em 2016 com o impeachment de Dilma. Mais uma vez, com todo o apoio da Globo. Em 2018, no primeiro turno, a Globo dividiu sua preferência entre Henrique Meirelles, João Amoedo e Alckmin. Nenhum deles vingou e o segundo turno foi entre Haddad e Bolsonaro, quando a emissora apoiou – com muita vergonha, é verdade – o atual presidente.

Nas eleições desse ano, tenha acompanhado a cobertura da Globo e, desde que as candidaturas de Moro e Dória se mostraram um fiasco, percebo que ela não tem candidato. Ou melhor, que para a Globo qualquer um é melhor que o Bolsonaro. Até o Lula, ainda mais com o Alckmin de vice. Como uma boa parte dos banqueiros, do mercado e das elites paulistas, acredito que a emissora já digeriu o Lula, com barba e tudo, e hoje aposta nele como o mal menor. Um fato noticiado pelo Jornal Nacional nessa semana colaborou para essa minha tese: enquanto todos nós da esquerda esperávamos que o JN desse a noticia da condenação do Dalagnol – que terá de indenizar Lula em 100 mil reais pelo caso do power point – de maneira breve e sucinta, o telejornal colocou o assunto na escalada (a abertura do jornal, onde são lidas as principais notícias do dia) e fez uma matéria isenta de mais de três minutos (um tempo bem grande para um telejornal como o JN). Enfim, acho que a Globo e a família Marinho depois de 8 eleições contra o PT, neste ano, por falta de uma opção viável ou palatável, digeriram o Lula e, de sua maneira, o apoiam. Essa é a minha opinião e já coloquei o capacete pra receber as pedradas…

 

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Resposta de 0

  1. Tenho minhas dúvidas sobre a rede bobo apoiar #LulaPresidente.
    Até me sentaria mal porque, em geral se rede bobo apoia eu sou contra rsrsrs! Mas nesse caso se for verdade, terei que prestar continência.
    Tudo em nome do #LulaPresidente!!!

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