Facada, camarão e rabo preso

Por Antonio Soares

Nessa primeira semana do ano os assuntos no Brasil foram a Ômicron, que quer colocar água no chope dos festejos do carnaval, e o rabo do presidente. Depois de todas as restrições que estamos vivendo há dois anos por conta da COVID-19 e de toda a tensão e confusão provocadas pelo Bolsonaro na administração do caos sanitário, agora aparece a variante Ômicron para complicar um pouco mais. Por ironia do destino, tal variante foi descoberta pela equipe do cientista brasileiro Túlio de Oliveira, que trabalha na África do Sul.

Túlio de Oliveira, um cientista hiponga de 45 anos, foi eleito pela Nature como um dos 10 cientistas mais influentes do mundo no ano de 2021. Túlio representa um dos muitos exemplos da fuga de cérebros no Brasil que foi incrementada durante a política de governo FHC, capitaneada pelo Ministro da Educação Paulo Renato. A política FHC-Paulo Renato provocou desmonte da universidade pública com uma enxurrada de aposentadorias (pela caótica reforma da previdência na época) e com a não reposição dos quadros docentes. Chegamos a ter nas universidades públicas quase 60% de professores temporários. Agora, temos assistido com o Governo Bolsonaro mais ataques às universidades públicas e à ciência brasileira. Paulo Guedes e Bolsonaro cortaram verbas das agências públicas de fomento à pesquisa, à ciência e à formação de massa crítica (CAPES – CNPq). Quando entrevistado, Túlio de Oliveira não perdeu a oportunidade de criticar o desinvestimento em ciência no Brasil e alertou que o mundo precisa ajudar a África se quer resolver o problema da pandemia.

Apesar da Ômicron ser a pauta do momento, o tema que dominou a semana passada foi mesmo o rabo do presidente. A coluna de Luiz Eduardo Rezende, no Quarentena News, descreve a lambança de Bolsonaro passeando de Jet-ski, dirigindo e dando cavalos de pau no parque do Beto Carrero, abraçando a horda de bolsonaristas nas praias, bem como o descaso e a falta de solidariedade do presidente com a população baiana desabrigada, que somou mais de 20 mortos pelas chuvas. Se não bastasse o quadro descrito, o presidente, na madrugada do dia 3 janeiro de 22, deixa de helicóptero o Forte Marechal Luz, em São Francisco do Sul-SC, onde passou as festas de final de ano, e dirige-se ao aeroporto de Joinville para pegar o avião presidencial e ser socorrido em São Paulo. Se fosse uma operação da Polícia Federal, deveria ser intitulada de “Solta o Rabo”.

Na primeira foto hospitalar, o presidente aparece com uma sonda nasoenteral que, segundo especialistas, não faz muito sentido realizar esse procedimentol no caso descrito. Pelo que se sabe, o problema do presidente não era dificuldade de comer e muito menos desnutrição. O culpado do camarão que o diga. Mas reconheçamos, a foto com caninhos no nariz causa impacto. No quadro de surrealismo do relaxamento dos esfíncteres do presidente, diagnosticado como suboclusão intestinal, surge a notícia de que o médico, Antônio Luiz Macedo, aquele que coordenou a cirurgia da facada, teve que vir às pressas das Bahamas-Caribe, em jato fretado para socorrer o presidente. Quem paga a conta? Será que não havia médicos capacitados em São Paulo para tratar a simples constipação do presidente?

Não sou adepto das teorias conspiratórias, mas a preferência e exclusividade pelo médico, Antônio Luiz Macedo -lembro mais uma vez aos leitores que é o mesmo da “cirurgia da facada” –, para tratar uma simples prisão de ventre, desperta curiosidade. Também fiquei impressionado com a precisão do diagnóstico da equipe médica do Hospital Vila Nova Star em identificar o camarão como causa da obstrução na “saída” do presidente. A outra coisa revelada no surrealismo de toda a história foi o pavor declarado pelo presidente ao seu exclusivo médico. Imagino Bolsonaro ao telefone com ele, “Pô Macedo, desculpa, mas só pode ser você! Estou morrendo de dor. A coisa está ruim”. Talvez seu médico saiba de mais coisas sobre os tecidos suturados do intestino do presidente do que possamos imaginar. Na verdade, imaginamos, mas Macedo só revelaria o que sabe se algum se algum “Sérgio Moro” coordenasse uma operação “lavagem intestinal”, com prisão do médico e quebra do sigilo fiscal.

Aos segredos entre médico e paciente, jamais teremos acesso nesse momento. O certo é que a história não convence. O presidente brincou no recesso de fim de ano de Jet-ski, de carrinho no Beto Carrero, se divertiu na praia, “cagou” para tragédia da Bahia, encheu o C* de peru no natal, engoliu camarão no ano novo, parou no hospital, trouxe o médico das Bahamas, teve alta e ainda compareceu à pelada do parça Marroni, em Buritis-GO. Pelo que parece, o intestino do presidente voltou a funcionar e podemos aguardar mais cagadas durante o ano de 22. Se o problema fisiológico foi resolvido, o psicanalítico e o jurídico ainda não foram. O presidente continua tenso e de Rabo Preso com as rachadinhas, com o Queiróz, com o cheque da Michele, com a compra da mansão de Flávio, com a morte do capitão Adriano, com o Centrão, com o caso Marielle e seu vizinho matador Ronnie Lessa, com sexualidade de Carluxo, com as fakes news, com a desastrosa proprina na compra das vacinas, com o STF, com a CPI da COVID, com o Lula crescendo nas pesquisas, com o desafeto Moro; enfim, motivos não faltam para ele ficar com o C* na mão dos outros.

Antonio Soares é professor da UFRJ. Este artigo foi publicado originalmente no Quarentena News.

Obs. Os artigos aqui publicados são de responsabilidade dos autores.

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