Por Roberto Xavier
Arte: Sergio Papi
Há um setor da esquerda que insiste em se comportar como um grêmio estudantil e interpretar a política como um campo de guerra entre o bem e o mal, onde qualquer tentativa de mediação é tratada como traição.
Essa visão não apenas ignora a complexidade do sistema democrático, as consequências da retaliação de setores do Mercado, como também compromete a própria capacidade de transformação social que tanto se reivindica.
A expectativa de que um governo progressista possa, isoladamente, romper com décadas de estrutura fiscal, interesses corporativos e alianças institucionais, revela mais voluntarismo do que estratégia. E voluntarismo demais é burrice.
Governar, democraticamente, não é impor vontades ideológicas puras, mas negociar, compor e construir consensos possíveis dentro das limitações reais.
Isso é o que se chama realpolitik, não como rendição, mas como exercício da responsabilidade. Quem impõe vontades ideológicas puras são as ditaduras. De Direita e de Esquerda.
É comum ouvir, de certos setores da militância, que a política econômica é uma “traição” aos pobres ou uma “continuidade neoliberal”.
No entanto, essa leitura desconsidera que manter a estabilidade fiscal e o diálogo com setores do mercado não significa abandonar o projeto de justiça social, significa garantir sua viabilidade no longo prazo.
Sem previsibilidade econômica, não há investimento público sustentável; sem alianças institucionais, não há maioria para aprovar nenhuma medida estrutural.
Esse purismo político termina sendo, paradoxalmente, funcional à própria agenda que se pretende combater: ao sabotar governos progressistas em nome de uma coerência abstrata, abre-se caminho para retrocessos ainda maiores. A História recente está repleta de exemplos.
Quem realmente deseja transformar o país precisa entender que o desafio não é apenas moral, mas tático.
A esquerda que se recusa a dialogar com o diferente, que vê qualquer concessão como capitulação, enfraquece-se e isola-se.
E, no fim, pode acabar contribuindo, (in)voluntariamente, para o avanço daqueles que desejam desmontar o pouco que ainda resta de direitos sociais no Brasil.
Se esse setor da esquerda realmente acredita que mudanças radicais são necessárias e possíveis, o caminho está posto: vença uma eleição com essa plataforma explícita, construa maioria no Congresso, aprove as medidas dentro das regras constitucionais, dialogue com as instituições e enfrente os desafios impostos pela realidade, inclusive os do mercado.
Fora disso, só resta o atalho do autoritarismo. E, se for esse o caminho escolhido, é preciso admitir que a democracia nunca foi, de fato, um dos seus valores.
Roberto Xavier é analista político











Uma resposta
Esssa esquerda purista tem, no essencial, a mesma natureza daquela esquerda – à esquerda dos bolcheviques – que Lênin esmagou em “Esquerdismo – doença infantil do comunismo”.