Encontros impertinentes

Por Ricardo Queiroz 

Figurino de quem envelheceu entre boletos, ressentimentos e infortúnios da vida

Sacolão, em algum momento da manhã de hoje.

Tava ali pela cebola, vermelha, se possível, quando ouvi meu nome dito com intimidade demais para manhã anônima.

Virei.

Um rosto que o tempo distorceu, mas não apagou.

Ele me reconheceu antes que eu puxasse o fio.

Fui lembrando dele — não das salas de aula, mas do boteco do Santão, que ficava ao lado do colégio (João Ramalho), e era nosso desvio pedagógico.

No início dos anos 80, era um personagem fácil e comum: baseado artesanal, discurso confuso e um gosto por discussões que misturavam Raul Seixas e sociedade alternativa, libertarismo mal mastigado e viagens à Trindade.

Hoje, camisa polo de listras, ao invés da camiseta gasta de alguma banda dos anos 70.

O sonho acabou.

Figurino de quem envelheceu entre boletos, ressentimentos e infortúnios da vida.

A conversa foi rápida. Ele me lançou um cumprimento o protocolo básico do “o que você anda fazendo” e tascou sem cerimônia:
— Esse país acabou, só ladrão se dá bem. E agora ainda querem prender o único cara que tentou fazer alguma coisa pra gente.

Fiquei em silêncio. A frase bateu seca, sem espaço pra nuance.

Despedida rápida.

“O inconsciente não é teatro, é fábrica.” – serve muito a frase de Deleuze e Guattari.

A fábrica segue rodando.

Com desejo de ordem, de mando, de que alguém resolva tudo pra nós — e esse desejo não nasce nos palácios.

Brota nos corpos, nos velhos colegas de boteco, no cotidiano, na vida de quem um dia queimaram bandeiras e hoje querem ordem, disciplina e uma causa que não os obrigue a pensar demais, que esteja embalada e pronta.

A cebola vermelha tava feia. Levei a branca mesmo.
Na saída, fiquei pensando: às vezes o passado reencontra a gente não pra matar saudade, mas pra mostrar o que a fábrica fez com nossos desejos.

Ricardo Queiroz é bibliotecário

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