A República está em liquidação

Por João Guató

No início da noite de um domingo morno — daqueles em que até a poltrona cochila — a Record TV do bispo Macedo brilhava como farol do bom senso nacional (um farol que, diga-se, ilumina igual àqueles abajures gastos de motel de beira de estrada).

Era ali, nesse cenário de iluminação duvidosa, que Flávio Bolsonaro, senador por herança e aprendiz de mártir, resolveu anunciar ao povo o grande segredo da República: **ele tem um preço**.

Um preço, veja bem, não desses que vêm no carnê, no contracheque ou na maquininha de cartão. Nada de dinheiro, nada de cargo, nada de figurinha holográfica da Lava Jato. O rapaz quer “justiça”.

E disse isso com a mesma entonação de quem anuncia promoção de liquidificador na ponta de estoque: pagou, levou; reclamou, tem cashback.

Flávio, tomado por um patriotismo de ocasião, ainda afirmou que fala por “quase 60 milhões de brasileiros sequestrados num cativeiro com Jair Messias Bolsonaro”.

Cena forte: a multidão inteira dormindo em beliches, tomando café ralo e esperando o carcereiro liberar o banho de sol ideológico. Uma pensão irregular de seguidores.

Segundo ele, a única forma de desistir da empreitada eleitoral é se o pai — preso, inelegível e colecionador de boletins policiais como quem coleciona figurinhas da Copa — puder sair por aí “livre, caminhando com os netos”.

Eu, João Guató, confesso que visualizei: Bolsonaro, de tornozeleira reluzente, distribuindo beijinho, acenando para as pombas e vendendo chaveiros de 7 de Setembro na praça.

Romance realista mágico perde.

Mais cedo, Flávio já tinha avisado que existe “preço para não ir até o fim”.

Não disse se aceita PIX, mas ficou claro que anistia dos condenados do 8 de janeiro vem no combo — promoção 2×1: compre minha desistência, leve junto um apagão histórico.

Quando perguntaram sobre Tarcísio de Freitas, Flávio virou poeta: chamou o governador de camisa 10, maestro, craque, gênio.

Só faltou dizer que São Paulo é a Disneylândia e que Tarcísio é o Mickey que sabe operar motoniveladora.

A reunião marcada com Valdemar Costa Neto, Antonio Rueda, Ciro Nogueira e Rogério Marinho parece cardápio de boteco político daqueles que até roteirista de House of Cards recusaria dizendo “gente, ficou caricato demais”.

E no centro do palco, ele: Jair Bolsonaro, o patriarca, encarando a cela como quem encara uma sala de aula — com preguiça.

O destino é cruel: a única forma de reduzir pena hoje é pela leitura.

E quem sempre tratou livro como objeto suspeito agora depende deles para ver o sol sem grade.

O ex-presidente lendo para sair mais cedo! Se não fosse trágico, era comédia pastelão. Imagino o diálogo:

— Capitão, precisa ler.
— Mas tem palavra demais.
— É literatura, capitão.
— Mas tem ideia demais.
— Piorou.

Enquanto isso, os filhos disputam quem faz o Plantão da Família 2026, Michelle paira como fada gospel e o país observa essa monarquia de papel crepom tentando se manter de pé.

E seguimos: anúncios, chantagens, ofertas especiais, vídeos promocionais sobre “preço da democracia”.

O Brasil, fiel cliente, esperando o boleto — porque para essa turma, a República virou lojinha de conveniência e está eternamente em liquidação.

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